A incrível história de Hedy Lamarr, a estrela de Hollywood que ajudou a inventar o Wi-fi e o bluethooh
No Dia Internacional das Mulheres e
Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, conheça a atriz que foi
brilhante na tecnologia, cujas invenções estão presentes até os dias de hoje.
Por Erin Blakemore
Publicado 10 de fev. de 2026, 08:01 BRT
Bob Cranston e Hedy Lamarr trabalharam juntos no estúdio One and Three Color em 1940. Lamarr era uma estrela em Hollywood na década de 1940 e, simultaneamente, inventou a tecnologia de salto de frequência.Foto de NY Daily News Archive via Getty Images
Todos os anos, no dia 11 de fevereiro, é celebrado o Dia Internacional
das Mulheres e Meninas na Ciência, data instituída em
2015, pela ONU (Organização das Nações Unidas)
que visa destacar a necessidade de igualdade de gênero em diversas
áreas da Ciência, como tecnologia, engenharia, biologia, matemática, entre
outras.
Para comemorar essa data, e ressaltar a importância da presença
feminina no universo científico, a National Geographic apresenta
a história de uma mulher genial que teve ideias essenciais na
década de 1940 para o futuro desenvolvimento tecnológico e não
teve seu reconhecimento na época: Hedy Lamarr.
Enquanto o mundo caminhava para a catastrófica Segunda Guerra
Mundial, a atriz que já era uma lenda do cinema, Hedy
Lamarr, posava para fotos publicitárias e interpretava femmes
fatales nas telas. Mas seu trabalho principal nem sempre era a
prioridade da atriz, que foi um dos maiores nomes da Era de Ouro de Hollywood.
Lamarr era um gênio da tecnologia e, enquanto conquistava o
coração de Hollywood na década de 1940, estava ao mesmo tempo ocupada
idealizando uma invenção que esperava que pudesse ajudar sua nação
adotiva, os Estados Unidos, a manter a Alemanha nazista sob
controle.
A ideia de Lamarr era criar uma maneira simples,
porém engenhosa, de impedir que navios de guerra do Eixo
interferissem nas comunicações secretas dos Aliados — uma ideia tão
boa que se tornou a base das telecomunicações modernas, conhecidas
como Wi-Fi e GPS.
Mas o trabalho de Lamarr nos bastidores como
inventora foi ofuscado tanto pelo glamour de
Hollywood quanto pelos preconceitos de gênero da época, que muitos
defendiam a incompatibilidade entre beleza e inteligência. Eis por que Lamarr
era muito mais do que um rosto bonito — e como sua invenção do
salto de frequência mudou o cotidiano para sempre.
Quem foi Hedy Lamarr?
Hedwig "Hedy" Kiesler nasceu em 9 de novembro de 1914,
em Viena, na Áustria.
Era filha de pais de ascendência judaica, embora sua mãe tenha se
convertido ao cristianismo. Conhecida na época como Áustria-Hungria,
a região era assolada pelo antissemitismo no início do século 20.
Historiadores observam que Lamarr manteve sua identidade judaica
em segredo durante toda a vida, chegando a esconder sua herança
judaica até mesmo de seus próprios filhos.
Filha de pais ricos, ela cresceu em uma sociedade privilegiada e frequentou
escolas particulares junto com outras crianças abastadas. Era
uma aluna curiosa, com já demonstrava talento para ciências
e engenharia, mas esperava-se que ela se
conformasse aos ideais
femininos da época e priorizasse o romance e a
família em detrimento da carreira. Lamarr era valorizada mais por sua
aparência física do que por sua inteligência, ela se voltou para a atuação
e estreou no cinema na Áustria em 1930.
Os primeiros papéis da jovem estrela a rotularam como
uma "beleza vienense inocente, porém sedutora", escreve a
historiadora Ruth Barton. Logo, a atriz iniciante se mudou para Berlim em
busca de maior reconhecimento entre o público de língua alemã. Lá, fez
aulas de atuação e conseguiu o papel principal no filme
“Êxtase” (1933), um filme ousado dirigido por Gustav Machatý.
O filme imediatamente ganhou notoriedade como uma obra-prima
erótica, chamando a atenção com suas representações de nudez e prazer
sexual. Isso a catapultou para a fama instantânea, que ela
transformou em uma carreira teatral e em um casamento com o
rico negociante de armas Fritz Mandl em 1933.
O status de Mandl como um negociante de armas de
confiança para fascistas italianos e alemães garantia à sua esposa uma vida
social luxuosa. Mas ele era ciumento, possessivo e não tinha
vergonha de seus laços estreitos com o fascismo.
Os vastos negócios de armas de Mandl colocaram sua esposa em uma
proximidade desconfortável com antissemitas, nazistas e
fascistas.
Embora a esposa relutante se sentisse cada vez mais presa em
seu relacionamento, ela gostava de acompanhar o marido em
encontros com algumas das maiores mentes científicas e
tecnológicas da Europa. Só que, por fim, ela fugiu do
casamento — e, em 1937, também fugiu da Europa, onde o
antissemitismo estava em ascensão.
Quando Hedy soube que o magnata do cinema Louis B. Mayer estava
a caminho dos Estados Unidos em
um transatlântico após suas férias, ela decidiu de última hora reservar
uma passagem para o mesmo navio. A bordo, ela conseguiu conhecer e cativar
Mayer, cujo estúdio MGM estava atingindo o auge de
produtividade, popularidade e lucratividade. Juntos, eles idealizaram
uma nova identidade sob medida para as lentes das câmeras: Hedy
Lamarr, uma estrela da MGM bela, porém distante.
Com a ajuda de uma transformação a bordo e muita publicidade,
a atriz Hedy Lamarr tornou-se uma sensação imediata ao chegar a Nova York,
nos Estados Unidos.
Acima, o arquivo de patente do Sistema Secreto de Comunicação criado por Hedy Lamarr e George Antheil. Foto de Reprodução/Arquivos Nacionais dos EUA
Hedwig Eva Maria Kiesler, conhecida como Hedy Lamarr, foi uma famosa atriz e inventora de Hollywood. Juntamente com o pianista e compositor George Antheil, ela desenvolveu o Sistema Secreto de Comunicação, uma invenção que estabeleceu a base para tecnologias como Bluetooth e Wi-Fi. Foto de UCLA Charles E. Young Research Library Department of Special Collections (CC BY 4.0)
O que Hedy Lamarr inventou?
Em 1938, o papel que alçou Lamarr ao estrelato em
"Argel" a transformou em uma estrela de verdade
no cinema,
e ela passou a interpretar mulheres sedutoras em filmes como
"A Dama dos Trópicos", "Boomtown" e "Ziegfeld
Girl". Embora sua beleza cativasse o público, sua inteligência —
e genialidade tecnológica — permaneciam estritamente nos
bastidores.
Naquela época, a Segunda Guerra
Mundial havia começado, e Lamarr considerava
abandonar a carreira de atriz e oferecer suas habilidades
tecnológicas aos Estados Unidos para ajudar no esforço de guerra.
Seu conhecimento privilegiado sobre armamentos, adquirido ao
observar seu ex-marido e seus clientes, também era inestimável.
Embora os Estados Unidos ainda não tivessem entrado na guerra,
já forneciam suprimentos aos Aliados por via marítima, e tanto
embarcações mercantes quanto militares enfrentavam ameaças constantes de torpedos
alemães.
Lamarr estava a par das últimas novidades em tecnologia de torpedos
europeia graças ao convívio com os clientes de seu ex-marido. Ela
estava pensando em uma maneira de os navios Aliados impedirem que
seus torpedos controlados por rádio fossem sabotados por
navios alemães, que frequentemente interferiam com sucesso nos sinais
de rádio Aliados e tornavam os torpedos inúteis.
E se, em vez disso, os torpedos e os operadores se comunicassem
em mais de um sinal, "pulando" juntos para outra
frequência com frequência para escapar dos bloqueadores alemães?
Em 1940, ela conheceu George Antheil, um compositor modernista
apaixonado por tecnologia. Ele percebeu imediatamente que estava falando
com a mulher mais inteligente da sala, como recordou em suas
memórias de 1945. "Hedy é muito, muito inteligente", escreveu
ele. "Comparada com a maioria das atrizes que conhecemos, Hedy é uma gigante
intelectual."
Quando Lamarr contou a Antheil sobre sua teoria de "salto
de frequência",
ele ficou intrigado e conseguiu construir um protótipo do tipo de
tecnologia que ela idealizava. Ele era mais conhecido por obras que
apresentavam pianos mecânicos sincronizados com sinos, sirenes, hélices de
avião e outros sons estrondosos — composições que quase causaram um tumulto
durante sua estreia no Carnegie Hall em 1930.
Antheil ajudou a conceber uma invenção inspirada em pianos
mecânicos que utilizava mecanismos de relojoaria e bobinas de pianola para
alternar simultaneamente entre o operador e o receptor para uma frequência
diferente.
Inspirados por relatos de crescentes baixas no Atlântico,
eles decidiram submeter sua ideia ao recém-fundado Conselho Nacional de
Inventores (National Inventors Council), um programa
público-privado de aceleração criado para impulsionar invenções que
pudessem contribuir para o esforço de guerra. Em 1942,
receberam uma patente para seu "Sistema de Comunicações
Secretas" — cujos direitos concederam à Marinha dos Estados
Unidos.
O conceito fracassou "em grande parte porque a invenção
estava muito além das capacidades técnicas da época", escreveu
a historiadora Lisa A. Marovich no livro "Business and Economic History"
em 1998. Por fim, a Marinha decidiu não prosseguir com o dispositivo,
uma rejeição que Antheil sempre atribuiu à menção a pianos mecânicos na
patente.
Acontece que a ideia era tecnicamente sólida — apenas décadas à
frente de seu tempo.
O conceito de alta tecnologia de Hedy Lamarr
Lamarr continuou sua carreira cinematográfica, atingindo o
auge nas décadas de 1940 e 1950 com filmes como “Sansão e Dalila”,
antes de ver sua carreira declinar no final da década. Nos
bastidores, sua vida pessoal tempestuosa resultou em seis casamentos, seis
divórcios e três filhos. Lamarr tornou-se cidadã norte-americana em 1953.
Enquanto isso, a Marinha dos Estados Unidos mantinha engavetada
a tecnologia que ela havia desenvolvido. Mas, justamente quando a estrela
de Lamarr no cinema começou a declinar, a Guerra Fria levou
autoridades governamentais a revisitar algumas de suas tecnologias
rejeitadas da época da Segunda Guerra Mundial.
A Marinha começou a usar os conceitos de Lamarr e Antheil para desenvolver
sistemas de comunicação seguros para uma variedade de usos, mas nunca
creditou publicamente os inventores.
“A maior parte da tecnologia desenvolvida pelas ou para as
forças armadas incorporava os conceitos de salto de frequência de Lamarr e
Antheil” na década de 1960, escreveram Kenneth T. Klima e
Adriana Klima no livro “História da Marinha”, em 2019. O conceito criado pela
dupla permaneceu classificado até a década de 1980.
No entanto, poucos sabiam ou reconheciam quem havia
inventado o salto de frequência depois que o conceito se tornou de
domínio público. À medida que a estrela de Lamarr perdia o brilho,
a sua contribuição para a tecnologia permanecia oculta à vista de todos,
porém presente nos telefones, televisões e outras novas
tecnologias que a cercavam.
Mas, escreveram Klima e Klima, “eles não receberam nenhuma
atribuição, royalties ou crédito das forças armadas
ou da indústria de comunicações”. Durante anos, houve pouco
reconhecimento da invenção, exceto por uma coluna de jornal jocosa
de 1946 que afirmava que a famosa beleza de Lamarr e sua participação
no Conselho Nacional de Inventores haviam se provado uma ferramenta de
recrutamento notável para aspirantes a inventores.
Sua invenção com Antheil formou a
base para avanços nas telecomunicações como Wi-Fi usado na Internet, Bluetooth
e GPS.
Na foto vemos algumas pessoas trabalhando em seus notebooks, usando a Internet via Wi-Fi - que foi criada graças ao invento de Lamarr e Antheil. Foto de Michael Coghlan CC BY-SA 2.0
Uma mulher genial não reconhecida
Até recentemente, a inovação de Lamarr passou despercebida, mesmo seu
projeto tendo se tornado praticamente onipresente nas telecomunicações.
Enquanto isso, a ex-estrela de Hollywood cansou-se da vida pública e
tornou-se quase reclusa, falecendo em 2000 aos 85 anos.
Naquela época, o mundo científico já havia começado a reconhecer
suas contribuições, e Lamarr e Antheil foram homenageados com
prêmios. Mas sua maior honraria, a inclusão no Hall da Fama dos
Inventores Nacionais nos Estados Unidos, veio postumamente,
reconhecendo que Lamarr e seu parceiro inventor “nunca lucraram com sua
invenção durante suas vidas”.
Será que Lamarr tinha noção da importância que seu trabalho
alcançaria — ou de como ele abriu novos caminhos para as mulheres nas áreas de ciência, tecnologia,
engenharia e matemática (STEM)?
“Ela nunca falou sobre essa parte da sua vida”, disse a diretora
Alexandra Dean, cujo documentário “Bombshell: The Hedy Lamarr Story”
explora a vida e o legado da inventora, em uma entrevista de 2018.
“O pior é que estou sempre muito à frente do meu tempo”,
lamentou a própria Lamarr em sua autobiografia de 1966, chamado
“Êxtase e Eu: Minha Vida como Mulher”. “E isso é uma desvantagem para
mim.” Apesar de ser inovadora e criativa, escreveu Lamarr, ela teve poucas
oportunidades de expressar esse lado de si mesma em um mundo obcecado
por sua beleza e sensualidade.
“Se seus sonhos de retornar às telas
já haviam ficado para trás, a paixão de Hedy pela invenção permaneceu
com ela até o fim”, escreve Barton. Sua tecnologia sobreviveu a ela,
e ela é lembrada como uma lenda do cinema e uma figura fundadora inesperada
das telecomunicações modernas.




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