sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

NUNCA TIVE UM SOFA BRANCO



Várias leituras deste título são possíveis. Sobre fundo musical de violino lamentoso, a frustração de um sonho nunca realizado. Azares da vida, contingências econômicas, falta de decorador...

Existe também o caso “Não ligo para estas bobagens”. Pagode e sertanejo. Bunda não precisa de cor específica para pousar. Isso é frescura. Quero é sentar em qualquer lugar. Tá okey?

 Ou você talvez tenha preferido o estilo Churchill? Sofá e poltronas de couro escuro. Bem patriarcal. Fica ótimo com charutos e taças de campeonato de golfe. Na sala ao lado, a patroa assumiu seu lado Pompadour. Aqui o estofador encheu canapés, recamiers e cortinas com fartas grinaldas de flores. Uma orgia. Triunfou o estilo Cottage. Valsas e minuetos.

Em qual destes times você joga?

Quanto a mim, permitir-me-ei propor uma outra forma de interpretar a dita afirmação. Nunca ter usufruído de um sofá branco pode ser mera metáfora. Ao longo de quase noventa anos de perambulação por quatro continentes, raras vezes caminhei em trilhas abertas por outros.

Meu primeiro sofá, comprado em segunda mão - ou seria segundo corpo? - achei num depósito da rua São Bento em Lisboa, que nos idos do século passado ainda não era o atual refúgio dos antiquários sofisticados. Era de veludo vermelho. Em ótimo estado. Sessenta e cinco anos mais tarde ainda tenho saudade dele. Velho, sim, mas como era confortável! Voluptuosamente nele mergulhava e me submergia nas noites de frio frente à lareira, ouvindo Nina Simone a cantar Ne me quitte pas.

Pois é.... nunca tive um sofá branco. Nunca fui a Disney, não gostei de Miami e não irei a Dubai. Meu sonho de consumo, em matéria de viagem, é o Iêmen. Quem conhece diz que é um paraíso. Sonho irrealizável, já que despedaçado por guerras civis alimentadas pela Maior Democracia do Mundo. Herr Pato Donald.

Também não assisto ao noticiário da Globo. Limpinho demais. Não abriu a boca, já sabe o que vai falar. Como o Bolero de Ravel. Prefiro o jornal da Band, apesar do Oinegue ser um baita conservador.

Desde 1975 moro no centro histórico de Salvador. Bem antes de virar fashion já tinha um rooftop. Depois de viver por quarenta anos numa casa do tempo de Pedro II, me mudei – aos 89 anos – para uma casa recém construída, bem ao lado da anterior, com a mesma vista sobre a baía. Agora mais rico, tenho dois sofás. Um, forrado com uma colcha guatemalteca amarela tecida a mão, comprada em Chichicastenango, o outro com um pano africano fartamente colorido, oferecida por um amigo nigeriano. Tambores do Burundi. O motivo, repetido por centenas de vezes, é um olho grande e bem aberto, símbolo e resumo daquilo que tem sido minha vida.

Nunca poderia me ter contentado com a virgindade das neves e das noivas.

Dimitri Ganzelevitch                                                                                         A Tarde, sábado 7 de fevereiro 2026

 

 

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