Várias leituras deste título são possíveis. Sobre fundo musical de violino lamentoso, a frustração de um sonho nunca realizado. Azares da vida, contingências econômicas, falta de decorador...
Existe também
o caso “Não ligo para estas bobagens”. Pagode e sertanejo. Bunda não precisa de
cor específica para pousar. Isso é frescura. Quero é sentar em qualquer lugar. Tá
okey?
Ou você talvez tenha preferido o estilo
Churchill? Sofá e poltronas de couro escuro. Bem patriarcal. Fica ótimo com
charutos e taças de campeonato de golfe. Na sala ao lado, a patroa assumiu seu
lado Pompadour. Aqui o estofador encheu canapés, recamiers e cortinas com
fartas grinaldas de flores. Uma orgia. Triunfou o estilo Cottage. Valsas e minuetos.
Em qual destes
times você joga?
Quanto a
mim, permitir-me-ei propor uma outra forma de interpretar a dita afirmação.
Nunca ter usufruído de um sofá branco pode ser mera metáfora. Ao longo de quase
noventa anos de perambulação por quatro continentes, raras vezes caminhei em trilhas
abertas por outros.
Meu primeiro
sofá, comprado em segunda mão - ou seria segundo corpo? - achei num depósito da
rua São Bento em Lisboa, que nos idos do século passado ainda não era o atual refúgio
dos antiquários sofisticados. Era de veludo vermelho. Em ótimo estado. Sessenta
e cinco anos mais tarde ainda tenho saudade dele. Velho, sim, mas como era
confortável! Voluptuosamente nele mergulhava e me submergia nas noites de frio
frente à lareira, ouvindo Nina Simone a cantar Ne me quitte pas.
Pois é.... nunca
tive um sofá branco. Nunca fui a Disney, não gostei de Miami e não irei a
Dubai. Meu sonho de consumo, em matéria de viagem, é o Iêmen. Quem conhece diz
que é um paraíso. Sonho irrealizável, já que despedaçado por guerras civis alimentadas
pela Maior Democracia do Mundo. Herr Pato Donald.
Também não
assisto ao noticiário da Globo. Limpinho demais. Não abriu a boca, já sabe o
que vai falar. Como o Bolero de Ravel. Prefiro o jornal da Band, apesar do
Oinegue ser um baita conservador.
Desde 1975
moro no centro histórico de Salvador. Bem antes de virar fashion já tinha um rooftop.
Depois de viver por quarenta anos numa casa do tempo de Pedro II, me mudei –
aos 89 anos – para uma casa recém construída, bem ao lado da anterior, com a
mesma vista sobre a baía. Agora mais rico, tenho dois sofás. Um, forrado com
uma colcha guatemalteca amarela tecida a mão, comprada em Chichicastenango, o
outro com um pano africano fartamente colorido, oferecida por um amigo
nigeriano. Tambores do Burundi. O motivo, repetido por centenas de vezes, é um olho
grande e bem aberto, símbolo e resumo daquilo que tem sido minha vida.
Nunca
poderia me ter contentado com a virgindade das neves e das noivas.
Dimitri Ganzelevitch A Tarde, sábado 7 de fevereiro 2026
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