Mataram o “Orelha”, mas me lembrei do “Galdino”
Confesso ao leitor, assim de saída, que li a notícia e precisei reler. Não por dificuldade de compreensão, mas por incredulidade moral. Simples assim. Enquanto isso, o espanto ficou aqui, largado na calçada, olhando para o céu como quem pergunta onde foi que erramos outra vez.
Li a notícia e fiquei ali, parado diante da tela, como se o absurdo tivesse estendido a mão para me sacudir. Dois adolescentes suspeitos de agredir a ponto de terem que sacrificar o cão Orelha estão nos Estados Unidos. Dois ficaram no Brasil, a serem investigados. Os que partiram viajaram para fora, segundo a polícia uma viagem programada antes do episódio, mas e se não fosse assim expresso nessa formalidade burocrática que tudo explica e nada esclarece. Eu me pergunto se essa saída foi providencial ou organizada, fruto de um lance de sorte ou de um cálculo silencioso feito por mãos adultas que ordenam destinos de jovens enquanto a vida e a lei aguardam em fila Brasil afora
Orelha era mais que um cão comunitário. Era presença constante no dia a dia de moradores da Praia Brava, um personagem discretamente amado. Sua morte por maus tratos gerou comoção e espanto porque a violência gratuita contra um ser que simplesmente existia ao lado de todos rompeu uma linha tênue de civilidade.
E vira e mexe somos surpreendidos no Brasil por jovens que matam pessoas, como aconteceu com o índio Galdino, incendiado enquanto dormia, ou por jovens que matam animais como se estivessem ensaiando a insensibilidade que o mundo adulto tanto teme. São episódios que nos deixam atônitos e nos forçam a encarar a pergunta que nunca deveria ficar sem resposta É preciso um basta a essa indiferença tão perversa. Quanto mais vidas, humanas ou não, serão reduzidas a estatística ou a manchete passageira enquanto a sociedade se anestesia diante do sofrimento alheio
Não se trata apenas de justiça penal ou de rito processual. Trata-se de um país que precisa reavaliar seus valores mais básicos e decidir se a crueldade será sempre respondida com desdém ou com o rigor moral que uma comunidade sensível exige. Que Orelha não seja apenas lembrado por sua morte mas pelo que sua ausência exige de todos nós.
E é aí que mora o verdadeiro escândalo. Não apenas no crime, não apenas na viagem, não apenas na dúvida se foi fuga ou coincidência. O escândalo está em perceber que seguimos adiando o choque moral que deveria nos paralisar. Um cão morto, um indígena queimado, uma juventude que olha a vida como quem descarta um objeto quebrado. Orelha não pode voltar, Galdino não voltou, mas nós ainda estamos aqui, com a chance rara e incômoda de escolher se continuaremos assistindo a essas tragédias como quem boceja diante do noticiário ou se, enfim, aceitaremos que algo em nós também precisa ser julgado. Porque quando a crueldade se repete e a sociedade apenas observa, já não há inocentes absolutos, apenas cúmplices silenciosos.
Gregório José Lourenço Simão |
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