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sábado, 26 de setembro de 2026

AGRONEGÓCIO E ESCRAVIDÃO

 ONU cobra agronegócio por trabalho escravo no Brasil

Relatora da ONU disse nesta sexta-feira que "os interesses do agronegócio nunca devem ser priorizados sobre os direitos dos trabalhadores”

11/09/2026 | 05h30Atualização: 11/09/2026 | 10h01



A relatoria da ONU cobra a responsabilização de parcelas do agronegócio brasileiro por continuar a explorar trabalhadores e mantê-los em um regime análogo à escravidão. O informe sobre a situação brasileira foi apresentado nesta sexta-feira, diante do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra.

Katarina Schwarz, relatora da entidade contra o trabalho forçado, tomou a palavra para indicar as principais conclusões do informe que havia sido preparado por seu antecessor, Tomoya Obokata, que foi ao Brasil em agosto de 2025.

Segundo ela, o Brasil é um “importante exemplo” de um governo que assume a tarefa de lidar com o trabalho escravo. Mas alertou que, apesar disso, a “exploração continua” afetando principalmente populações marginalizadas, quilombolas, comunidades ribeirinhas e indígenas.

Sua avaliação é de que a falta de proteção a esses grupos é “profundamente preocupante”. Um dos aspectos apontados pelo informe é a “aguda falta de inspetores, especialmente nas areas mais distantes do país”.

Ela também alertou para o impacto da contratação de trabalhadores sem carteira assinada e sinalizou que a falta de responsabilização de empresas “continua preocupante”.

A relatora elogiou a existência da “lista suja”, mecanismo criado para denunciar e punir empresas. Mas alertou que a “interferência política” na elaboração da lista e das punições é “alarmante”.

Seu alerta foi contundente: “os interesses do agronegócio nunca devem ser priorizados sobre os direitos dos trabalhadores”.

No documento oficial, o texto diz:

“No Brasil, as formas contemporâneas de escravidão estão intimamente ligadas aos legados do colonialismo e do tráfico transatlântico de africanos escravizados. Pessoas de ascendência africana representam mais de 80% dos resgatados de formas contemporâneas de escravidão no país. A persistente discriminação racial, a extrema concentração fundiária e a predominância dos interesses agroindustriais na política nacional continuam a alimentar a desigualdade estrutural, a vulnerabilidade e a exploração laboral. Os povos indígenas também são altamente vulneráveis ​​à exploração laboral”.

 

Em outro trecho, o papel do agronegócio é uma vez mais indicado como um obstáculo:

“O Relator Especial também observou que os interesses comerciais são frequentemente priorizados em detrimento dos direitos humanos das populações que tradicionalmente habitam as terras em questão. Os interlocutores enfatizaram que o acesso à posse da terra é essencial para garantir seus meios de subsistência, preservar as práticas culturais e prevenir formas contemporâneas de escravidão. Até o momento, contudo, as medidas tomadas pelo Governo para desmantelar as poderosas estruturas que ameaçam as populações e o meio ambiente, particularmente na região amazônica, têm sido insuficientes”.

No documento, a relatoria da ONU destaca que “o Brasil encontra-se em um momento crítico, no qual a promoção de condições de trabalho justas e favoráveis para todos exige o enfrentamento de desigualdades estruturais profundamente enraizadas, moldadas pelos legados persistentes do tráfico transatlântico de escravos e do colonialismo”.

“Garantir a não discriminação no acesso ao trabalho decente deve ser acompanhado por políticas específicas que abordem as disparidades raciais, sociais, de gênero e regionais, particularmente aquelas que afetam afrodescendentes e populações indígenas e quilombolas”, insistiu.

Nesse contexto, ele defendeu a demarcação efetiva de terras não é apenas como uma questão de reconhecimento legal, mas também como “um passo fundamental para salvaguardar os direitos, os meios de subsistência e a integridade cultural das comunidades afetadas, visando reduzir sua vulnerabilidade estrutural às formas contemporâneas de escravidão”.

“Além disso, é necessária uma ação decisiva para deter crimes ambientais e outros, especialmente na região amazônica, que continuam a minar tanto os direitos humanos quanto a sustentabilidade ecológica”, disse.

Para ele, há uma “necessidade urgente” de fortalecer a proteção das vítimas e sobreviventes do trabalho escravo, garantindo o acesso à justiça e responsabilizando os perpetradores, “independentemente de sua condição socioeconômica ou política”.

“Como medida prioritária, o Governo deve intensificar os esforços para identificar e resgatar vítimas em áreas remotas e em domicílios particulares. Para tanto, o aumento do financiamento, do quadro de funcionários e do suporte tecnológico para os inspetores do trabalho, especialmente em regiões rurais remotas onde a exploração é mais comum, melhoraria significativamente a identificação e a intervenção junto às vítimas”, defendeu.

Ele ainda aponta o dedo às empresas e as cadeias de suprimentos, que “devem ser responsabilizadas por meio de requisitos de transparência mais rigorosos e obrigações de diligência devida, e deve-se garantir que o trabalho forçado não seja ocultado nos setores agrícola, de mineração ou industrial”.

Imigrantes

Outro destaque do informe é a situação dos imigrantes. Segundo o documento, o Brasil possui um “sólido marco legislativo em relação a migrantes, solicitantes de asilo e refugiados”. A Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017) reconhece os migrantes como sujeitos de direitos, incluindo o direito à igualdade de proteção trabalhista, à assistência jurídica integral, à formação e filiação a sindicatos e associações, ao acesso à saúde pública, aos serviços de assistência social e à previdência social, e ao acesso à educação pública.

Mas, segundo o relatório, “persistem desafios significativos, uma vez que migrantes e refugiados de diversas nacionalidades, incluindo bolivianos, paraguaios, haitianos, venezuelanos, peruanos, argentinos, senegaleses, congoleses e angolanos, são submetidos à escravidão contemporânea tanto em áreas urbanas quanto rurais”.

O informe aponta que eles trabalham principalmente em setores como a indústria têxtil, o comércio ambulante informal, a lavagem de carros, a construção civil, a coleta de lixo, o processamento de carne e outros serviços urbanos precários. A agricultura e a pecuária também repetem o modelo de exploração, onde prevalecem condições de trabalho informais, baixos salários, coerção e outras condições de trabalho abusivas, assédio sexual, violência e racismo.

Na indústria têxtil, por exemplo, mulheres bolivianas com quem o Relator Especial conversou durante a visita relataram trabalhar em turnos de 10 a 14 horas em oficinas clandestinas por apenas US$ 0,55 a US$ 1 por peça, muitas vezes sendo forçadas a viver dentro das fábricas em condições extremamente inadequadas.

“Trabalho infantil e casos de exploração e abuso sexual entre crianças migrantes também foram relatados, mas não parecem existir canais seguros e eficazes disponíveis para denunciar violações de direitos humanos que ocorrem nesses locais”, disse.

“A discriminação contínua, as dificuldades de acesso a empregos formais, moradia adequada e serviços básicos, as barreiras linguísticas e culturais e a falta de informação aumentam a vulnerabilidade de migrantes, solicitantes de asilo e refugiados à exploração”, destaca.

Ele aponta ainda que a insuficiente conscientização sobre direitos humanos e a falta de compreensão intercultural entre funcionários públicos locais e agentes da lei também contribuem para o aumento da vulnerabilidade.

O dedo é apontado ao setor privado também. “Alguns empregadores, segundo relatos, exploram a vulnerabilidade de migrantes em situação irregular por meio de coerção, exploração e controle”, disse.

“Os processos de documentação administrativa foram descritos como dispendiosos, lentos e inconsistentes entre os estados, com relatos de atrasos de meses ou até mesmo de um ano na emissão de documentos de reconhecimento de refugiados e recusas na renovação da documentação de migrantes”, lamentou.

 

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

 8 em cada 10 mulheres que recebem auxílio-moradia em Campinas têm filhos

  • Campinas concedeu 337 auxílios-moradia para vítimas de violência doméstica de 2023 a agosto de 2026. Do total de atendidas, 88,1% têm pelo menos um filho.

  • O número de benefícios pagos de janeiro a agosto de 2026 já superou o total registrado nos 12 meses do ano passado.

  • O benefício municipal temporário paga R$ 951 mensais por até 6 meses consecutivos. O valor deve ser utilizado exclusivamente para o pagamento de aluguel.

  • A maioria das beneficiárias tem entre 30 e 39 anos. Além disso, 60,2% das 337 mulheres atendidas no período são negras.

  • O governo estadual também oferece auxílio-aluguel de R$ 500. Na região de Campinas, 19 municípios aderiram à iniciativa e concederam 448 benefícios.

Violência contra a mulher — Foto: © Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

Violência contra a mulher — Foto: © Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

A Prefeitura de Campinas (SP) concedeu 337 benefícios de auxílio-moradia para vítimas de violência doméstica desde a criação do programa, em 2023, até agosto de 2026.

De acordo com a Secretaria Municipal de Assistência Social, do total de mulheres atendidas no período, 88,1% tinham ao menos um filho, sendo que a maioria era menor de 6 anos.

Os dados revelam que a oferta do benefício tem crescido nos últimos anos. O número de auxílios pagos de janeiro a agosto de 2026 superou os 12 meses do ano passado.

  • 2023: 20 benefícios
  • 2024: 75 benefícios
  • 2025: 107 benefícios
  • 2026: 135 benefícios (até agosto)

🏡 O auxílio-moradia é um benefício temporário emergencial concedido às vítimas que precisam deixar o lar por motivo de violência doméstica. As mulheres recebem R$ 951 por mês, por até seis meses consecutivos, e o valor deve ser usado exclusivamente para pagar aluguel.

Quem são as mulheres atendidas

Região de Campinas registra quatro casos de violência contra mulheres neste fim de semana

Região de Campinas registra quatro casos de violência contra mulheres neste fim de semana

Das mulheres que receberam o auxílio desde a criação do programa, 297 são mães e totalizam 718 filhos/dependentes registrados – dos quais 83% são menores de 18 anos.

  • 0 a 6 anos: 254
  • 7 a 12 anos: 215
  • 13 a 17 anos: 127
  • 18 anos ou mais: 122

O levantamento também indica que a maior parcela do benefício se concentra entre mulheres de 30 a 39 anos (34,4%). A faixa de 20 a 49 anos representa 88,1% do total de atendidas.

Vítimas de violência que receberam auxílio-moradia em Campinas por faixa etária
Números levam em consideração o total de mulheres atendidas desde o início do programa, em 2023, até agosto de 2026.
778484126126878727275511até 19 anos20 a 29 anos30 a 39 anos40 a 49 anos50 a 59 anos60 anos ou maissem informação0255075100125150
Fonte: Secretaria Municipal de Assistência Social

No recorte por cor, 60,2% das 337 beneficiadas ao longo do período são negras (pretas e pardas).

  • Pardas: 149
  • Brancas: 124
  • Pretas: 54
  • Amarelas: 2
  • Sem informação: 8

Como acessar o auxílio-moradia em Campinas

O benefício é exclusivo para mulheres em situação de violência acompanhadas pelos Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas) e o Abrigo Sara-M.

Para receber, é necessário:

  • apresentar boletim de ocorrência;
  • comprovar vulnerabilidade social;
  • ser encaminhada pela rede socioassistencial.

São necessários também documento de identidade com foto e CPF, além de comprovante de endereço.

Outras cidades

A Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo (SEDS) também disponibiliza auxílio-aluguel às vítimas de violência doméstica. O programa oferece uma ajuda de custo mensal de R$ 500 por seis meses, com possibilidade de renovação por igual período.

Na região de Campinas, 19 municípios aderiram ao programa. Desde a criação do programa, em fevereiro de 2025, até agosto de 2026, foram concedidos 448 benefícios na região, de acordo com informações enviadas pela pasta.

"Romper o ciclo da violência doméstica exige mais do que coragem, é necessário apoio real e condições concretas para um recomeço seguro. O auxílio-aluguel, além de um importante suporte financeiro, é uma ferramenta de autonomia e dignidade para que essas mulheres possam reescrever suas histórias longe do medo", afirma a secretária de Desenvolvimento Social, Andrezza Rosalém.

Auxílio-aluguel para vítimas da violência na região de Campinas

MUNICÍPIOMULHERES ATENDIDAS
Americana38
Artur Nogueira4
Campinas1
Espírito Santo do Pinhal30
Holambra1
Hortolândia44
Indaiatuba46
Itapira20
Jaguariúna45
Louveira11
Mogi Guaçu55
Pedreira22
Pinhalzinho3
Santo Antônio de Posse23
Santo Antônio do Jardim3
Serra Negra18
Socorro16
Sumaré57
Tuiuti11

Para solicitar o benefício, é necessário apresentar:

  • CPF;
  • comprovante de residência atualizado no Estado de São Paulo;
  • cópia da medida protetiva de urgência expedida pelo Poder Judiciário (Lei Maria da Penha);
  • comprovantes de renda que demonstrem que a renda familiar, até a separação, era de até dois salários mínimos;
  • comprovação de vulnerabilidade social (como o número do CadÚnico atualizado ou relatório psicossocial).

O cadastramento é feito pela rede municipal de assistência social nos municípios participantes. Após análise e aprovação, o valor é disponibilizado por meio de Poupança Social no Banco do Brasil, diretamente às beneficiárias.

Além do suporte financeiro, o programa articula outras políticas públicas municipais, ampliando o acesso a serviços de proteção social, orientação e acompanhamento às mulheres atendidas em todo o estado. Veja onde buscar atendimento:

  • Assistência Social: CRAS, CREAS e Centros de Referência de Atendimento à Mulher;
  • Saúde: Unidade Básica de Saúde (UBS), pronto-socorro e hospitais;
  • Segurança Pública: Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), distrito policial, batalhão da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros;
  • Sistema de Justiça: Ministério Público, Defensoria Pública e Ordem dos Advogados do Brasil;
  • Canais de orientação e denúncia: Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) e 190, para emergências.