O celular, vez ou outra me traz uma mensagem curiosa. Como em fevereiro último. Sou Piotr Koisanoff e devo acompanhar colecionadoras russas que patrocinam minha exposição em São Paulo. Uma vive entre Londres e Dubai, outra tem peças de Anish Kapoor e Louise Bourgeois no seu acervo e não me lembro da singularidade da terceira. Já fomos convidados pelo João Jorge Zicrano em SP e por Melânia Fugana no Rio. Gostaríamos muito de conhecer sua Casa-Museu, sua história de vida, sua galeria etc.
Na hora
respondi que a casa-museu não existia mais e que não teria absolutamente nada
que pudesse interessar tão prestigiosas colecionadoras. Mas o cara insistiu e
dias depois uma delegação russa invadiu meu bazar. Dois seguranças com cara de
poucos amigos, uma guia local um tanto desnorteada pelo aparato, o tal Piotr
que desde o primeiro momento me fez pena por tanta subserviência e as três
preciosas, parecidíssimas, entre 28 e 35 anos, lindas, olhos claros amendoados,
pele perfeitamente leitosa, as três vestidas de branco e preto. Roupa discreta,
obviamente de grife famosa, nenhuma joia mas obviamente pertencendo à
oligarquia putinesca.
Olharam com
a mais profunda indiferença meus Vauluizo Bezerra, Emma Valle, Faróleo, Cisco
Jimenez e Mário Cravo. A vista sobre a baía não suscitou nenhum comentário e
foram embora sem ter me dirigido uma só palavra, apesar de falarem inglês.
Não
estranhei, não fiquei ofendido. Conheço esta raça que se desloca em limusines brancas
e jaguar, se hospeda no Ritz, Pierre e Gritti, e para comprar uma obra de arte,
esta tem que ter sido exposta em Kassel, na Bienal de Veneza e custar um número
respeitável de zeros à direita.
Às vezes
inauguram um museu ou fazem doações longamente elogiadas na imprensa
internacional. Poderia listar vários exemplos. O Museu Souyama de Carlos Slim
em México, o Thyssen, em Madri e a coleção de Joe Berardes em Lisboa são – apesar
de possuírem algumas excepcionais obras-primas - realizações em grande parte organizadas para
fins deslavados de ostentação. ”Pour épater le bourgeois”, como dizem os
franceses.
Em feliz
contrapartida também existem os colecionadores apaixonados, obsessivos, mas cuidadosamente
criteriosos que levam uma vida inteira a juntar, peça por peça, conjuntos que
respiram sensibilidade e conhecimento. Calouste Gulbenkian em Lisboa, Franz
Meyer em México, Wallace em Londres, Jaquemart-André e Nissim de Camondo em
Paris e aqui, em Salvador, a nível com certeza mais modesto, o Costa Pinto e o
belíssimo conjunto barroco do pernambucano Abelardo Rodrigues escondido pelo
Ipac não se sabe por que motivo. Se é que exista algum bom motivo.
Turistas e
estudiosos que fiquem assando na praia. Cultura não está no programa.

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