Me alegrei tanto de voltar a Belém depois de quinze anos! Águas turvas das amazônias, mangueiras sombreando as avenidas, ribeiras pontuadas de brancas garças e aquelas folhas que são o segredo da culinária mais misteriosa das Américas.
A festa
maior seria o prometido almoço do Lá em Casa. Mas com a morte do chef Paulo
Martins, o famoso templo da gula paraense fechou em 2021. A notícia me deixou
desorientado. E agora, Claudine? Com minha velha companheira de tantas
andanças, resolvi passear pelo Ver-o-Peso e o mercado de artesanato, agora de
toldo novo. Obrigado, Cop30! Mas, salvo uma ou outra exceção, sempre as mesmas
bugigangas para turismo de massa.
O jeito
seria encontrar um restaurante correto na Estação das Docas, genial adaptação
dos velhos galpões portuários. Copiar a iniciativa, em vez das divagações
medíocres da FMLF, seria uma saudável solução para nosso moribundo Comércio,
mas com a prefeitura que temos...
Pelos comentários
do Tripadvisor, o Bera parecia o mais confiável. Depressão. O tacacá e o pato
no tucupi eram tão abomináveis que não seríamos mais capazes de tentar a mesma
escolha até o fim da viagem. Da grosseria do serviço prefiro não detalhar.
Tanto tinha elogiado a culinária de Belém a minha amiga que a desastrosa
experiência tirou uma enorme fatia de nosso entusiasmo inicial. A compensação
seria o honesto restaurante do Mangal das Garças que virou nossa cantina pelo
resto da estadia, a cem metros do hotel, com um excelente serviço e uma vista
deslumbrante. Recomendo o garçom Alisson, amável e rápido.
Mais sorte
tivemos com os chocolates. Após a Maison du Chocolat, de qualidade média,
descobrimos a Gaudens, premiada com toda razão pela Academy of Chocolate de
Londres.
Finalmente
consegui visitar o Parque Goeldi que, nas vezes anteriores, estava sempre
fechado, sempre em obras. Um poético pedaço amansado das selvas de minha
infância povoadas por tarzans e janes voando de cipó em cipó. Sejamos honestos:
não gosto de jardins zoológicos nem de qualquer tipo de gaiola. Tive pena do
jacaré e das preguiças, das jiboias e dos tucanos. Mas valeu o rico acervo de
culturas indígenas, tão desprezadas pela nossa evoluída sociedade. Na cafeteria
do museu, nos encantamos com as suculentas quiches. Teria gostado de assistir
aos vídeos, mas os museólogos esquecem dos que não podem ficar muito tempo em
pé. A mesma observação vale para o excelente conjunto do Museu de Arte Sacra
sem um só banco e que também peca por uma falta dramática de informações.
“Proveniência: Secult” Por favor!
Sempre tive
um fascínio por Belém, mas como concordar com um centro histórico abandonado,
imundo, moradores de rua drogados acampando debaixo de plásticos pretos de saco
de lixo?
Dimitri Ganzelevitch

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