Após duas semanas em terra de faraó – eu falei faraó, ó,ó,ó – nunca mais serei o mesmo. Não por causa de Akhaenaton, nem de Tutankamon, mas pela minha surpreendente relação com o último rei do Egito. Eu falei King Farouk. Cadê Fuad? O Fuad não conta: era um neném, reinou um ano e partiu para a Suíça. Você não sabia com quem estava falando.
Começou no
Cosmopolitan Hotel - Bin Taalab Street, 1, perto da Praça Tahrir – estilo luxuoso kitsch, quando, com extrema
amabilidade, o recepcionista me deu a chave do quarto, primeiro andar. Na
porta, uma placa dourada: ”King Farouk”. Não sei se algum rei, exilado ou
reinante, alguma noite aqui dormiu. Antessala, salinha com sofá, poltrona e
televisão e o dormitório com cama de serralho e mais uma televisão. Mesmo assim,
continuei com a mesma simplicidade.
No quinto
dia, voamos para Luxor. Do avião direto para o barco Sudan que inspirou Agatha
Christie. Na porta de minha cabine, a placa dourada “King Farouk” confirmou
minha significância. Será mesmo que o Faruque Amade Fuade Ismail Ibraim Maomé
Ali Ibne Aga roncou e fez xixi em tão diminuto espaço? Será? Longo
passeio pelo bíblico Nilo. Nada mudou desde os amores de Cleópatra e Júlio
Cesar. Ao voltar a Luxor, a recepção do Winter Palace tinha mais uma gentileza
para mim. A placa dourada da porta informava que o quarto estava inteiramente
decorado com a mobília do King Farouk. Mega dossel e fotografia oficial de Sua
Majestade incluídos. Desta vez, pela beleza da vista sobre os jardins do hotel
posso acreditar que aqui o rei poderia muito bem ter dormido. Mesmo assim,
verifiquei que os lençóis tinham sido trocados.
Após quatro
noites na vizinhança de templos e túmulos faraónicos – Ei, Karnak! Ei, Apchetsut!
Tu-Tank-Amon! – um trem nos levou, entre paisagens desérticas à esquerda e
verdejantes à direita, até Assuam onde nos esperava o Old Cataract, delírio
sultanesco com colunatas, fontes, arcadas, lustres e espelhos mil. Corredor de
vinte mil léguas. Esperava que tivesse a costumeira placa King Farouk em metal
dourado. Mas tive que engolir a deprimente realidade. Nada. Placa nenhuma. A
suíte tinha living com sofá, duas poltronas, televisão e sacada, e quarto com
cama orgíaca, janela e sacada. E mais uma televisão. Mas de placa King Farouk, nada. Tinha-me
acostumado a ser saudado obsequiosamente, não por causa das gorjetas, mas pelo evidente
parentesco com Sua Majestade Farouk I, Rei do Egito e do Sudão, soberano da
Núbia, do Cordofão e de Darfur.
Fazer o quê?
Protestar. Mas a quem, a Osíris? Melhor fingir que não é nada, não ligo para
estas bobagens. Afinal viajo incógnito, sou igual a qualquer um. Agora, que a
letra da música do Olodum é para lá de ruim, disso não resta a menor dúvida.
Dimitri Ganzelevitch
A Tarde, sábado 27 de junho 2026
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