quarta-feira, 24 de junho de 2026

QUE REI SOU EU?



Após duas semanas em terra de faraó – eu falei faraó, ó,ó,ó – nunca mais serei o mesmo. Não por causa de Akhaenaton, nem de Tutankamon, mas pela minha surpreendente relação com o último rei do Egito. Eu falei King Farouk. Cadê Fuad? O Fuad não conta: era um neném, reinou um ano e partiu para a Suíça. Você não sabia com quem estava falando.

Começou no Cosmopolitan Hotel - Bin Taalab Street, 1, perto da Praça Tahrir –  estilo luxuoso kitsch, quando, com extrema amabilidade, o recepcionista me deu a chave do quarto, primeiro andar. Na porta, uma placa dourada: ”King Farouk”. Não sei se algum rei, exilado ou reinante, alguma noite aqui dormiu. Antessala, salinha com sofá, poltrona e televisão e o dormitório com cama de serralho e mais uma televisão. Mesmo assim, continuei com a mesma simplicidade.

No quinto dia, voamos para Luxor. Do avião direto para o barco Sudan que inspirou Agatha Christie. Na porta de minha cabine, a placa dourada “King Farouk” confirmou minha significância. Será mesmo que o Faruque Amade Fuade Ismail Ibraim Maomé Ali Ibne Aga roncou e fez xixi em tão diminuto espaço? Será? Longo passeio pelo bíblico Nilo. Nada mudou desde os amores de Cleópatra e Júlio Cesar. Ao voltar a Luxor, a recepção do Winter Palace tinha mais uma gentileza para mim. A placa dourada da porta informava que o quarto estava inteiramente decorado com a mobília do King Farouk. Mega dossel e fotografia oficial de Sua Majestade incluídos. Desta vez, pela beleza da vista sobre os jardins do hotel posso acreditar que aqui o rei poderia muito bem ter dormido. Mesmo assim, verifiquei que os lençóis tinham sido trocados.

Após quatro noites na vizinhança de templos e túmulos faraónicos – Ei, Karnak! Ei, Apchetsut! Tu-Tank-Amon! – um trem nos levou, entre paisagens desérticas à esquerda e verdejantes à direita, até Assuam onde nos esperava o Old Cataract, delírio sultanesco com colunatas, fontes, arcadas, lustres e espelhos mil. Corredor de vinte mil léguas. Esperava que tivesse a costumeira placa King Farouk em metal dourado. Mas tive que engolir a deprimente realidade. Nada. Placa nenhuma. A suíte tinha living com sofá, duas poltronas, televisão e sacada, e quarto com cama orgíaca, janela e sacada. E mais uma televisão.  Mas de placa King Farouk, nada. Tinha-me acostumado a ser saudado obsequiosamente, não por causa das gorjetas, mas pelo evidente parentesco com Sua Majestade Farouk I, Rei do Egito e do Sudão, soberano da Núbia, do Cordofão e de Darfur.

Fazer o quê? Protestar. Mas a quem, a Osíris? Melhor fingir que não é nada, não ligo para estas bobagens. Afinal viajo incógnito, sou igual a qualquer um. Agora, que a letra da música do Olodum é para lá de ruim, disso não resta a menor dúvida.

Dimitri Ganzelevitch

A Tarde, sábado 27 de junho 2026

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