Rua Chile quer devolver o Centro Histórico aos soteropolitanos
Nova entidade criada para impulsionar a revitalização da primeira rua do
Brasil aposta em segurança
Por Pedro
Resende
21/06/2026 -
"Se o
soteropolitano não voltar a frequentar aquela região, não adianta só o turista
estar lá. Nosso principal cliente tem que ser a população da cidade". A
frase é de Antonio
Barretto Junior, presidente da Associação
dos Empreendedores da Rua Chile e Entorno (Arce), entidade criada oficialmente
em junho de 2026 para coordenar os esforços de requalificação de uma das áreas
mais simbólicas do Brasil.
A Rua Chile, primeira rua oficialmente urbanizada do país, foi durante décadas o coração comercial e cultural de Salvador. Um cenário de vitrines elegantes, personagens folclóricos e da vida pública da cidade. A partir do final dos anos 1960, porém, entrou em decadência, esvaziada pelo crescimento de novos centros comerciais e pelo abandono do Centro Histórico.
A retomada começou timidamente na década de 2010,
com a chegada de empreendimentos como o Fera Palace Hotel e o Fasano Salvador,
que atraíram um ciclo de investimentos estimado hoje em R$ 1 bilhão entre obras
públicas e privadas. A Arce, de acordo com Barretto, nasce para dar
organicidade e continuidade a esse movimento.
"Nosso papel é ser um parceiro ativo e propositivo do poder público e privado", diz o empresário, que garante atrair novos negócios para todas as camadas sociais, mas sem perder o caráter popular que a torna única. Nesta entrevista, Barretto ainda fala sobre a estratégia de segurança já em operação na rua, os projetos de moradia em desenvolvimento e os planos para o calendário cultural do segundo semestre.
O
senhor acompanha a transformação de Salvador há décadas, tanto no setor público
quanto na iniciativa privada, mas existe uma relação pessoal com o Centro
Histórico, além da parte empresarial?
Com certeza. Minha infância foi frequentando a loja
Sloper, levado pela minha mãe, morrendo de medo da Mulher de Roxo, que era uma
das grandes personagens da Rua Chile, assim como o Guarda Pelé, que ficava
naquela esquina da descida da Ladeira da Praça. Tenho memórias afetivas muito
fortes dessa época. Essas memórias afetivas pessoais existem.
Depois, tive o privilégio de trabalhar na
Secretaria de Cultura e Turismo como diretor executivo de turismo durante seis
anos – quatro na gestão de ACM Neto, de 2017 a 2021, e dois na gestão do
prefeito Bruno Reis. Nesse período, a gente entregou nessa região equipamentos
culturais muito icônicos, como a Casa do Carnaval e a Cidade da Música.
Deixamos também todo o projeto da Casa das
Histórias de Salvador com o Arquivo Público totalmente pronto, que os
secretários que nos sucederam executaram brilhantemente. Então, essa simbiose
com aquela região da cidade é muito intensa.
O
grande motivador da Arce é justamente resgatar essa identidade?
Exatamente. É o resgate do contexto histórico e da
importância que a Rua Chile tem para o Brasil, não apenas para Salvador. Ela
foi e é a primeira rua do Brasil. Essa importância histórica precisa ser
resgatada. O glamour dela precisa ser recuperado. E o senso de pertencimento
dos soteropolitanos em relação ao Centro Histórico precisa ser retomado. Esse é
o maior desafio hoje: fazer com que o soteropolitano entenda o Centro Histórico
no seu íntimo. Não é só para o turista. Se o soteropolitano não voltar a
frequentar aquela região, não adianta só o turista estar lá.
A gente não vai atingir o principal objetivo. Nosso
principal cliente tem que ser a população da cidade. A região passou por uma
degradação muito intensa a partir do final dos anos 60 e 70, e ficou abandonada
durante muitos anos. Só a partir da década de 2010 é que ela começa a retomar,
com empreendedores que efetivamente apostaram na região quando todo mundo
achava loucura investir ali. Essas âncoras visionárias trouxeram régua e
compasso para essa revitalização, associados, obviamente, ao poder público.
A partir do momento em que a Prefeitura passou a
investir na recuperação de monumentos históricos na Cidade Baixa e na própria
Rua Chile, com a obra da Avenida 7, e o Governo do Estado resolveu investir na
Rua Chile também, as duas obras se encontraram justamente na porta do Fasano.
Essa convergência trouxe toda a base necessária para atrair investidores. Aí
você vê o Governo do Estado com o leilão do Palácio dos Esportes, depois com o
leilão do Palácio Rio Branco. As duas grandes âncoras atraíram uma terceira, o
Palacete Tira-Chapéu.
A
região abraçou hotéis, restaurantes e empreendimentos de alto padrão. É uma
estratégia deliberada de se aproximar de uma camada social de maior poder
aquisitivo?
É uma estratégia, sim, porque o marketing é sempre
feito pelo aspiracional. Mas não é só para atender essa classe social. A Rua
Chile é do povo. O Centro Histórico é do povo. A gente precisa ter todas as
camadas sociais frequentando aquela região. Esses empreendimentos de luxo
trazem o balizador aspiracional, mas já estamos atraindo outros segmentos.
O Silva, por exemplo, é um restaurante de classe
média e está lá. Essa semana, depois de a Arce ser inaugurada, já fomos
procurados por dois outros chefs querendo se instalar na região, atendendo
também a outras camadas da população, não só a mais abastada.
É natural que, a partir do momento em que você
começa uma revitalização com a régua alta – como foi a instalação dos hotéis
Fera e Fasano – empreendedores desse perfil acabem sendo atraídos primeiro. Mas
isso não significa que a Rua Chile vai ter só esse padrão.
Do outro lado do Fera Palace, você tem o Hotel
Colonial Chile, que é de classe média. O artista plástico Menelaw Sete,
festejado na Itália, abriu um ateliê de vendas ali ao lado da Casa do
Boqueirão. A gente acaba atraindo vários segmentos, e é isso que queremos: a
revitalização em várias camadas sociais.
Quais
são os primeiros passos concretos da Arce?
A primeira coisa foi tornar a Rua Chile a rua mais
segura de Salvador. Não basta dizer que é segura. É preciso transmitir a
sensação de segurança. A Polícia Militar e a Guarda Municipal entenderam nossa
proposta de integrar uma segurança privada aos efetivos já atuantes no
território.
Trouxemos monitoramento digital por câmeras com
reconhecimento facial, ligadas a uma central 24 horas por dia, 7 dias por
semana. Instalamos dois postos de vigilância privada fixos: um na bifurcação da
Rua Ruy Barbosa com a Rua Chile, em frente ao painel de Carybé no edifício
Bráulio Xavier, e outro na esquina da entrada da Rua da Misericórdia. Além de
totens de vigilância ao longo das ruas Chile e da Ajuda, e uma motocicleta com
vigilante circulando entre a Castro Alves e a Praça da Sé.
O segundo ponto é atrair investidores para repovoar
a Rua Chile do ponto de vista de moradia. O Palácio Castro Alves está
oferecendo moradias de alto padrão, com unidades de 90 a 170 m². Mas temos
outros projetos em fase final de desenvolvimento com dois e três quartos. A
moradia é fundamental para sedimentar o comércio local e atrair novos
empreendedores.
E
como fica o eixo cultural?
Hoje estamos muito bem servidos. Temos três
galerias tradicionais – a Galatea, a Ernesto Bitencourt Galeria e a Fala Espaço
das Artes. Há um polo gastronômico que se formou organicamente e continua
crescendo. E trouxemos como associada honorária uma empresa de administração de
shopping centers – que administra o Shopping Barra, o Paseo e o Itaigara –
justamente para olhar a região e seu entorno como um grande shopping a céu
aberto.
Estamos nesse momento atraindo comerciantes com
propostas efetivas de implantação de comércio qualificado. Vários
empreendedores de shopping estavam presentes no nosso evento de lançamento e já
estão olhando a região para seus próximos investimentos.
No calendário cultural, a Prefeitura vem fazendo um
trabalho bacana e muito alinhado com o perfil atual da Rua Chile. Temos um
coreto na Praça Municipal com atrações familiares, forró pé de serra, ou seja,
fugimos daquele modelo de megaeventos com megapalcos, o que foi muito salutar
para o território. Estamos dialogando com a Prefeitura para ter uma
convergência nesse calendário. E posso dar um spoiler: junto ao Cine Glauber
Rocha, estamos com uma proposta de lançar o segundo Festival de Cinema da Rua
Chile para o segundo semestre.
Além disso, vamos conversar com Fernando Guerreiro,
da Fundação Gregório de Matos, sobre o projeto Coro Comeu, na Ladeira da
Barroquinha, que está sendo um grande sucesso. O entorno da Rua Chile também
está muito bem contemplado, a Associação Comercial da Bahia entrou como
parceira institucional, e já estamos conversando com investidores que fizeram
aportes significativos na compra de seis prédios no Comércio.
Eles estão vendo que o movimento está muito bacana
e procurando a gente para somar forças para que o bairro do Comércio entre
também nessa esteira de desenvolvimento. A região está num momento de retomada
real, não pontual. O que a Arce quer é ser o fio condutor que une poder
público, iniciativa privada e a cidade para que a primeira rua do Brasil volte
a ser, de fato, de todos os soteropolitanos.
COMENTÁRIO DO BLOGUEIRO.- A melhor forma de devolver o Centrom Histórico aos soteropolitanos, não é com certeza esvaziar os imóveis para instalar mais e mais hoteis para o predador turismo de massa.
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