sexta-feira, 30 de outubro de 2026

FOGO BRANDO DA SAUDADE

Jorge papapá




A minha infância foi cheia de coisas boas! Quando volto ao Alto do Pará, lá pelos anos 70, tenho a impressão de que a memória abre uma velha janela e deixa entrar novamente os cheiros, os sabores, os sons e as travessuras de um tempo em que a felicidade cabia em coisas muito pequenas.
Naquele tempo, a rua era uma extensão da nossa casa, o quintal era território de aventuras e qualquer tarde podia se transformar numa festa.
Lembro que a varanda da minha casa, no Alto do Pará, número 5, tinha um piso liso, perfeito para nossas disputas de futebol de botão. Ali aconteciam verdadeiros campeonatos, com direito a rivalidades, escalações, torcidas e muita discussão sobre arbitragem. Eu, Didia, Samuel, Dadau, Nonô, Abelha, irmão de Didia, e outros meninos da rua passávamos horas naquele campeonato interminável.
Meu time se chamava Corinthians. Acho até que minha paixão pelo Corinthians de hoje começou ali, entre botões, goleiros improvisados e gols imaginários. Naquela varanda, cada botão era um craque e cada partida tinha a importância de uma final de campeonato.
Mas nossas aventuras não se limitavam ao futebol de botão. De vez em quando, a meninada organizava uma programação diferente: fazer um cozinhado!
E não era qualquer cozinhado. Era uma verdadeira operação gastronômica, com planejamento, divisão de tarefas e uma certa dose de transgressão. O lugar escolhido quase sempre era o quintal da casa de Rosinha, filha de dona Nita e Ferrugem, nossos vizinhos do lado.
A operação começava com uma espécie de assalto coletivo às dispensas de nossas casas. Cada menino ficava encarregado de trazer alguma coisa. Um aparecia com tomate, outro com cebola, alguém conseguia um pedaço de carne, outro trazia arroz e não faltava quem contribuísse com os temperos. Era uma arrecadação clandestina, feita na base da criatividade e da cumplicidade. Cada um chegava com sua pequena contribuição para aquela grande aventura culinária.
No quintal, acendíamos uma fogueira, improvisávamos nossas panelas e começava o ritual. A fumaça subia, a lenha estalava e os ingredientes iam se encontrando numa mistura que não obedecia a nenhuma receita. Éramos pequenos cozinheiros de uma gastronomia inventada na hora, sem livro, sem medidas e, principalmente, sem chef.
O resultado era uma gororoba deliciosa! E o mais curioso é que, algumas vezes, ficava até melhor do que a comida de casa. Talvez porque tivesse um ingrediente que nenhuma receita consegue ensinar: a liberdade de fazer, a alegria de dividir e o prazer de comer aquilo que nossas próprias mãos haviam preparado.
Naquele quintal, ninguém era apenas convidado. Todos eram cozinheiros, fornecedores e comensais. A panela era de todos, a fome era de todos e a felicidade também.
Mas havia outras delícias que faziam parte daquele cardápio afetivo da infância. Às vezes, no meio de uma partida de botão, ouvíamos uma voz surgindo lá longe, atravessando a rua:
— Barcelona!
Era o vendedor de picolé. Barcelona era o nome do picolé, mas acabamos batizando também o vendedor com o nome do produto. Quando aquela voz se aproximava, o campeonato era imediatamente interrompido. Os botões podiam esperar. Havia uma prioridade maior: um picolé gelado para refrescar a tarde.
Tinha também o vendedor de taboca. Esse não precisava gritar. Seu anúncio vinha pelo ar, no tilintar de um triângulo que parecia tocar uma música especialmente composta para abrir o apetite da meninada. Aquele som metálico vinha dobrando as esquinas, anunciando uma felicidade crocante.
Mas a grande sensação daquela época era mesmo a abafabanca!
Ah, a abafabanca! Aquela maravilha colorida, congelada em pequenos cubos, era uma espécie de joia da gastronomia popular. Tinha gosto de fruta, cor de festa e temperatura de felicidade. Eram sorvetes improvisados, feitos para refrescar a vida de quem ainda não sabia que a felicidade podia vir embrulhada numa simples folha de papel.
Naquele tempo, geladeira era artigo de luxo. Pelo que me lembro, só os petrolheiros tinham esse privilégio. Eram eles os donos da tecnologia do frio, os guardiões domésticos do gelo e, consequentemente, os grandes fornecedores daquela iguaria.
As casas que tinham geladeira também se transformavam em pequenos pontos de venda. Era só bater na porta, pedir uma abafabanca e receber aquele cubinho colorido embrulhado numa folha de papel. Não havia embalagem sofisticada, marca registrada ou propaganda. Havia apenas uma geladeira, uma folha de papel e uma criança com os olhos brilhando diante de uma preciosidade gelada.
Hoje, quando revisito aquelas lembranças, percebo que nossa infância tinha uma gastronomia muito particular. O cozinhado no quintal de Rosinha, o picolé Barcelona, a taboca e a abafabanca eram partes de um mesmo universo de descobertas. Cada um tinha seu sabor, sua história e seu lugar na nossa memória.
A gente não tinha muita coisa, mas tinha tempo. Tinha rua, tinha quintal, tinha fogueira, tinha amizade e tinha uma capacidade extraordinária de transformar quase nada em alguma coisa maravilhosa.
Talvez o segredo do nosso cozinhado fosse justamente esse: cada menino levava um ingrediente, mas todos colocavam um pouco de si. E a panela, sem saber, acabava ensinando uma lição que a vida inteira levaríamos conosco: quando cada um oferece o que tem, a partilha pode produzir sabores que dinheiro nenhum consegue comprar.
O tempo passou. As geladeiras se multiplicaram, os freezers ficaram cheios, os sorvetes ganharam sabores, nomes estrangeiros e embalagens coloridas. Mas nenhuma dessas novidades conseguiu reproduzir o gosto daquelas tardes.
Porque o nosso cozinhado não era apenas comida. Era amizade fervendo numa panela, infância assando na fogueira e felicidade servida em porções generosas.
E desconfio que, até hoje, existe um menino dentro de mim que sente o cheiro de uma fogueira, escuta o tilintar de um triângulo ou ouve alguém gritar Barcelona e imediatamente volta para o Alto do Pará.
Talvez seja por isso que algumas lembranças nunca saem da gente. Continuam cozinhando lentamente dentro da memória, no fogo brando da saudade.

Jorge papapá

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