terça-feira, 1 de setembro de 2026

UMA ESTRELA DE DOZE PONTAS

 

Vista do alto, uma vila portuguesa se transforma em uma estrela de 12 pontas: muralhas, baluartes e revelins cercam um núcleo histórico com 2,5 quilômetros de fortificações



Do alto, Almeida deixa de parecer apenas uma vila cercada por muralhas e assume uma geometria quase desenhada com régua. Na fronteira leste de Portugal, a fortificação cria uma estrela de 12 pontas que envolve ruas e casas dentro de um sistema militar construído para controlar cada aproximação.

Essa forma não surgiu para produzir uma imagem bonita vista do céu. Ela resulta de séculos de disputas na região da raia, de técnicas defensivas modernas e de obras que transformaram um antigo núcleo medieval em uma das fortificações abaluartadas mais marcantes do país.

A estrela de 12 pontas nasce da engenharia militar

🏰 1297: Tratado de Alcanizes integra Almeida definitivamente em Portugal.
🧱 1641: Começam as obras da fortaleza moderna de traçado abaluartado.
💥 1810: Explosão do paiol antecede a rendição diante das tropas de Massena.

O desenho visto do ar combina seis baluartes e seis revelins, total que explica as doze pontas descritas pelo Visit Portugal. O conjunto rodeia um espaço com 2.500 metros de perímetro, enquanto muralhas de cantaria e um amplo fosso criavam obstáculos sucessivos para qualquer força atacante.

Os baluartes avançavam para fora da linha principal e permitiam observar e atingir áreas que ficariam escondidas atrás de uma muralha simples. Os revelins, instalados diante das cortinas e dentro do fosso, acrescentavam outra camada de defesa. O município informa que o Baluarte de São João de Deus possui 28 canhoneiras, enquanto o de São Pedro tem 10. Entre os revelins, o de Santo António chega a 555 metros de contorno. Assim, a estrela não funciona como ornamento, mas como consequência direta de um sistema pensado para reduzir pontos vulneráveis.

Por que a fronteira transformou a vila em fortaleza?

Porque Almeida ocupa uma posição estratégica num planalto próximo da Espanha. O portal oficial de turismo português situa a vila a cerca de 12 km da linha de fronteira, enquanto o município registra que o território passou definitivamente para Portugal com o Tratado de Alcanizes de 1297. A localização tornou a praça importante para vigiar uma das entradas terrestres do reino.

Depois da Restauração da independência portuguesa, essa função ganhou uma forma nova. O Património Cultural de Portugal informa que a construção das muralhas modernas começou em 1641 e adotou uma planta hexagonal. A obra envolveu o núcleo urbano existente e substituiu a lógica defensiva medieval por uma fortificação adaptada à artilharia. Hoje, as Muralhas da Praça de Almeida estão classificadas como Monumento Nacional, reconhecimento que protege um desenho criado originalmente para a guerra e que ainda determina a leitura da vila.

Vista do alto, uma vila portuguesa se transforma em uma estrela de 12 pontas: muralhas, baluartes e revelins cercam um núcleo histórico com 2,5 quilômetros de fortificações
Posição geográfica estratégica transformou a vila em importante praça defensiva militar – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

1810 muda a história dentro das muralhas

A fortificação enfrentou seu episódio mais destrutivo durante a terceira invasão francesa de Portugal. Em 26 de agosto de 1810, durante o cerco conduzido pelas forças de André Massena, o paiol do castelo explodiu e provocou danos enormes no interior da praça. A destruição comprometeu edifícios e partes do sistema defensivo, acelerando a rendição.

Documentos divulgados pelo Município de Almeida mostram a escala do impacto. Um levantamento posterior registrou que, das 718 moradas existentes no recinto antes da explosão, apenas 180 permaneciam habitáveis. Também houve ruína quase total em trechos da muralha entre os baluartes de São Francisco e Santo António. A estrela resistiu como estrutura, mas a vida dentro dela sofreu uma ruptura profunda que marcou a memória local.

Vinte salas subterrâneas escondem outra Almeida

TipoFoco
DefesaSeis baluartes e seis revelins formam as 12 pontas do conjunto.
SubsoloVinte casas abobadadas serviam como abrigo e armazém de víveres.

No subsolo do Baluarte de São João de Deus, as casamatas revelam que a defesa não terminava nas muralhas. O município descreve 20 casas subterrâneas cobertas por abóbadas de volta perfeita, concebidas para abrigar pessoas e armazenar mantimentos. O espaço também possuía cisterna própria e poço, recursos essenciais quando um cerco isolava a população dentro da praça.

A fortaleza incluía ainda três portas abertas em túneis e cobertas por abóbadas, além de portas falsas destinadas a confundir invasores. Essa infraestrutura mostra como arquitetura, logística e sobrevivência se misturavam. As casamatas podiam guardar víveres e acolher moradores em situação de guerra, enquanto poço e cisterna reforçavam a autonomia interna. Vista do céu, a geometria chama atenção primeiro, mas, no nível do chão e abaixo dele, cada espaço revela uma função ligada à resistência prolongada.

Almeida é para olhar visitar com calma

A estrela de Almeida resume séculos de fronteira em uma única forma: 12 pontas, 2.500 metros de perímetro, muralhas, fosso e espaços subterrâneos construídos para trabalhar em conjunto. A vila preserva dentro desse desenho ruas, edifícios e marcas de episódios que mudaram a história portuguesa. Por isso, a melhor maneira de entender o lugar é combinar duas escalas, observar primeiro a geometria completa e depois caminhar por suas estruturas. Se você gosta de história militar e cidades onde o traçado urbano ainda conta o passado, Almeida merece uma visita sem pressa.

OS 50 ANOS DO MUSEU DO PONTAL

 

Por
Carolina Torres
— Rio de Janeiro

Obra de Mestre Vitalino no acervo do Museu do Pontal, que terá show de Lia de Itamaracá

Quando se encantou por esculturas de Mestre Vitalino e de outros artistas de Caruaru (PE) em 1951, o pintor francês Jacques Van de Beuque (1922-2000), recém-chegado ao Brasil, não poderia imaginar o que se tornaria a coleção de arte popular que começava ao adquirir algumas obras do grupo. Em 1976, o acervo — então já com cerca de quatro mil obras — estava abrigado num sítio no Recreio e passou a ser visitável, dando início ao Museu do Pontal, que neste fim de semana comemora 50 anos de História e cinco da nova sede, na Barra, com mais de dez mil peças de 300 artistas de 23 estados brasileiros.

    Para celebrar o duplo marco, os diretores e curadores Lucas Van de Beuque e Angela Mascelani (neto e nora de Jacques), preparam um grande festival gratuito — como tudo que acontece no espaço —, com shows de nomes como Lia de Itamaracá, Siba e Mestre Solano; apresentação de grupos de expressões populares, do bumba meu boi a bate-bolas; visitas guiadas, entre outras atividades, além da inauguração de mostra de Véio (Cícero Alves dos Santos), premiado escultor sergipano.

    Obras de Mestre Vitalino que integram o acervo do Museu do Pontal — Foto: Custódio Coimbra
    Obras de Mestre Vitalino que integram o acervo do Museu do Pontal — Foto: Custódio Coimbra

    — A gente está chamando internamente de “festival dos festivais” — conta Lucas. — Esse vai ser o 17º em cinco anos. Já tivemos festival circense, indígena, amazônico... Vamos reunir um pouco disso tudo.

    Visitada por mais de 400 mil pessoas, a nova sede foi pensada justamente para receber eventos. Após anos de lutas contra inundações que passaram a acometer o museu antigo a partir de 2011, os diretores decidiram ampliar o projeto inicial de Jacques. Mantendo a convergência entre arte e natureza, Angela e Lucas apostaram num conceito de museu-praça, tornando a bonita área externa, bem maior na Barra, em um espaço de convivência com agenda intensa de manifestações culturais.

    Entrada da antiga sede do Museu do Pontal. Casa foi fundada em 1976 — Foto: Ana Branco/Agência O Globo
    Entrada da antiga sede do Museu do Pontal. Casa foi fundada em 1976 — Foto: Ana Branco/Agência O Globo

    — Temos três vezes mais visitantes do que na antiga sede. Com os eventos, demos um jeito de fazer com que as pessoas frequentem sempre o museu — conta Lucas, que celebra a relação afetiva do público com o espaço. — Na última festa junina, uma pessoa nos contou que nomeou a filha de Lia porque assistiu à Lia de Itamaracá no nosso primeiro arraiá, em 2022.

    Homenageada da festa junina inaugural, que depois virou tradição, a cirandeira pernambucana é um dos destaques do “festival dos festivais”. Outra atração, que também faz referência à trajetória do museu, é a nova exposição “Véio – A escuta do sertão” (abertura sábado, às 15h30, com presença do artista). Presente na coleção de Jacques desde a década de 1970, o artista de 79 anos ganha uma de suas maiores retrospectivas, dividida em cinco núcleos que abrangem 60 anos de produção, que vai de esculturas figurativas a abstratas, feitas com troncos, raízes e galhos.

    A festa junina do Museu do pontal já se tornou uma tradição na região — Foto: Divulgação/Ratão Diniz
    A festa junina do Museu do pontal já se tornou uma tradição na região — Foto: Divulgação/Ratão Diniz

    Para chegar à seleção de 300 peças, os curadores fizeram um mapeamento, que revelou mais de 650 obras em 50 coleções. O extenso processo de pesquisa está aliado ao objetivo de exaltar trajetórias dos artistas de camadas populares. Em 2024, o Pontal realizou a primeira exposição panorâmica do xilógrafo e poeta J. Borges pouco antes de sua morte, aos 88 anos. Também já foram celebradas produções de nomes como Sérgio Vidal, Jair Gabriel, Roxinha e Marcelo Conceição.

    — Esses artistas precisam ter esse registro. Às vezes suas obras até são conhecidas, mas sua visão artística não. O museu também foca nesse reconhecimento de autoria. Como grupos invisibilizados, esses artistas foram apropriados. Hoje, são reverenciados. Esse é um papel importante que o museu vem cumprindo há 50 anos — comenta Angela.

    Obra de Véio que em cartaz no Museu do Pontal — Foto: Germana Monte
    Obra de Véio que em cartaz no Museu do Pontal — Foto: Germana Monte

    Além de mapeamento e aquisição de obras, os curadores também produzem filmes — dois deles, “Artistas cazumbas” e “José Bezerra, artista”, estão na programação do festival. Até então, já foram 23 exposições, dentre elas o sucesso “Festas, sambas e outros carnavais”, a maior já feita, vista por mais 100 mil visitantes desde o ano passado e prorrogada por tempo indeterminado. E a ideia é seguir nesse ritmo.

    — Um museu de arte dedicado a artistas das camadas populares, um museu vivo, museu-praça. Essas são as características principais do Pontal — finaliza Lucas.

    Linha do tempo

    1951
    Jacques conhece Mestre Vitalino e outros artistas de Caruaru e inicia a coleção.
    1974
    Aquisição do sítio no Recreio para abrigar o acervo.
    1976
    Grande exposição de arte popular no MAM, com acervo e curadoria de Jacques. No mesmo ano, o Museu Casa do Pontal abre as portas ao público.
    2009
    O museu passa a receber exposições temporárias.
    2011
    Após uma série de obras no entorno, começam inundações recorrentes.
    2016
    Tem início a construção da nova sede.
    2020
    Para iniciar a transferência de seu acervo, o antigo espaço fecha as portas.
    2021
    Abre a nova sede. No ano seguinte, ocorre o primeiro Arraiá.
    2026
    Celebração de 50 anos de fundação e cinco da sede.

    Destaques da programação

    Sábado (29)

    • 11h30: Capoeira com Mestre Feinho
    • 14h30: Exibição de “José Bezerra, artista”
    • 15h: Show de Zé Bezerra + Trio Pernambucano
    • 15h30: Abertura da exposição “Véio”
    • 17h30: Bate-bolas Brilhetes de Anchieta
    • 18h: Show de Siba
    • 19h30: Edmilson dos Teclados
    • 20h15: Lia de Itamaracá com Quarteto da Ciranda

    Lia de Itamaracá — Foto: Divulgação/Ytallo Barreto
    Lia de Itamaracá — Foto: Divulgação/Ytallo Barreto

    Domingo (30)

    • 11h: Artista circense Horácio Storani
    • 13h15: Exibição de “Artistas cazumbas”
    • 13h45: Boi Muleque Garboso
    • 15h30: Mestre Solano com Noites do Norte
    • 17h: Aturiá
    • 18h30: Trio Forrozão

    Os dois dias terão visitas musicadas e oficinas, sujeitas a lotação.

    Para chegar: O estacionamento estará fechado. Haverá vans gratuitas de ida e volta, saindo do metrô Jardim Oceânico (acesso A - Lagoa), com paradas no New York City Center (ponto dos condomínios) e no estacionamento do Terminal Alvorada. Saídas entre 10h e 19h30 (sáb) e 10h e 18h30 (dom).

    Serviço

    Onde: Av. Célia Ribeiro da Silva Mendes 3.300, Barra. Festival: Sáb (29), das 10h às 22h. Dom (30), das 10h às 20h. Visitação: Qui a dom, das 10h às 18h. Quanto: grátis, com contribuição voluntária.