Ricardo
Noblat - jornalista
Digo
suspeitos porque à luz das leis é o que eles são. Mas é difícil acreditar na
inocência deles. Não só pelo volume de indícios e de provas reunidas pela
Lava-Jato e oferecidas ao exame de todos nós, como também pelo relato
circunstanciado, repleto de detalhes críveis e escabrosos, dos delatores
ouvidos até aqui, sujeitos a penas maiores se mentirem ao juiz Sérgio Moro.
O
conceito de roubo dos políticos, e dos que azeitam seu mau comportamento, é
propositadamente estreito. Roubo seria apenas receber dinheiro de propina. Não
seria roubo receber dinheiro omitido à Justiça. No caso, seria apenas um
arraigado costume. Tampouco seria receber dinheiro para defender os interesses
daqueles que os ajudaram a ser eleitos. É do jogo. Não é, Lula?
O
ensaio de delação de Cláudio Melo Filho, ex-diretor da Odebrecht em Brasília,
expôs as vísceras de um sistema político que apodreceu há muito tempo, mas que
resiste a ser enterrado. Dá conta dos gastos da empresa no valor de cerca de
R$90 milhões com pagamentos de propinas, caixa dois e doações legais para
campanhas de 52 políticos entre 2006 e 2014.
Do
total, pelo menos R$17 milhões foram pagos a parlamentares em troca da
aprovação de matérias que favoreceram a Odebrecht. Melo Filho cita 14 Medidas
Provisórias aprovadas ou modificadas para se ajustar às necessidades da
construtora. Era a Odebrecht aplicando um dos seus mais caros princípios, o da “Confiança
no Ser Humano, no seu potencial e na sua vontade de se desenvolver”.
Entre
os políticos que pediram dinheiro à empresa ou que aceitaram dinheiro para
beneficiá-la, estão os presidentes da República, da Câmara e do Senado, quatro
ministros, dois ex-ministros, o líder do governo no Congresso, os líderes do PMDB,
do DEM e do PT no Senado, um senador do PP e outro do PSB, e o presidente do
PSDB, Aécio Neves. Fora Lula, Pezão e Alckmin.
Como
o presidente Michel Temer imagina reagir ao duro baque que o alcançou
pessoalmente, como também aos seus auxiliares de copa e cozinha? Dirá que os
R$10 milhões doados pela Odebrecht ao PMDB pagaram despesas de sua campanha na
chapa de Dilma em 2014? Se disser, correrá o risco de ver a chapa impugnada
pela Justiça Eleitoral, o que parece possível de acontecer.
Temer
não reagirá. Estão próximas as festas do fim do ano. Janeiro é o mês de férias.
Fevereiro, de carnaval. Quem sabe tudo não se acomoda até lá? Será um erro. Primeiro
porque o verão da Lava-Jato promete ser abrasador. Segundo porque a paciência
dos brasileiros com Temer está perto do fim. Sua popularidade despenca. Aumenta
o pessimismo com a economia.
Os
que se deixaram corromper não são culpados só por isso. Deveriam responder pelo
crime de subverter a vontade dos que votaram neles. Não foram eleitos para
roubar e muito menos para minar o regime democrático. Mas foi o que fizeram e
continuarão a fazer se não forem varridos.
Essa tarefa é nossa antes de ser da
Justiça, que se acocorou diante de Renan.

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