domingo, 6 de setembro de 2026

AS CORDAS DA MINHA MEMÓRIA

 



Jorge papapá
Há lembranças que não envelhecem.
Elas ficam guardadas em algum lugar da gente, esperando que o tempo, com suas mãos pacientes, venha buscá-las de volta. Quando isso acontece, não voltamos apenas ao passado. Voltamos a ser quem éramos.
Talvez por isso eu goste tanto de lembrar das viagens que meu pai fazia para a roça.
Meu pai nasceu em Irará, no interior da Bahia. Em 1955, veio para Salvador com minha mãe e sete filhos. Primeiro moraram na Avenida San Martin. Depois, a família foi morar na Avenida Santo Antônio, no Largo do Tanque, onde nascemos eu e mais três irmãos: Edson, o Dinho; Everaldo, o Beco; e Oséas, o Oseinha.
Meu avô João de Barba, pai de meu pai, foi quem trouxe seus filhos — meu pai, tio Chico e tio Tonho — para trabalhar no porto de Salvador.
A vida, às vezes, começa com uma mudança de endereço, mas carrega dentro dela uma mudança muito maior. Meu avô trouxe os filhos para a cidade, mas a cidade nunca conseguiu arrancar deles o cheiro da terra.
Meu pai continuava sendo um homem da roça.
De vez em quando, a saudade apertava e ele inventava uma viagem para visitar meus avós maternos, seu Avelino e dona Petronilia.
Eles já estavam velhinhos, mas continuavam trabalhando na terra. A roça era a vida deles. Talvez porque para algumas pessoas a terra não seja apenas um lugar onde se planta. É também onde se plantam lembranças.
A viagem até lá era longa.
A gente descia do ônibus na beira da estrada e seguia caminhando no meio da madrugada, atravessando fazendas. Meu pai ia na frente, abrindo caminho com uma vara de pau. Meu irmão mais novo vinha montado nos ombros dele. Eu, Beco e minha mãe seguíamos atrás.
Eu era menino e achava aquela caminhada apenas uma aventura.
Hoje, tantos anos depois, vejo outra coisa.
Vejo meu pai carregando um filho nos ombros e uma família inteira dentro do coração.
Vejo aquele homem abrindo caminho na escuridão, como se soubesse que, quando se tem filhos, é preciso caminhar primeiro para que os outros possam caminhar depois.
A noite era grande. O caminho, maior ainda.
Mas havia uma certeza: no fim daquela estrada estava a casa do vô Avelino.
E algumas casas da infância nunca desaparecem.
Mesmo quando as paredes caem, elas continuam de pé dentro da memória.
Depois que meu avô morreu, continuamos fazendo aquela viagem para visitar tia Julinha, irmã de minha mãe. Ela permaneceu morando na mesma casa com meu tio Pedro Lalut.
Tio Pedro foi uma das pessoas mais bonitas que conheci.
Ele tinha um jeito muito próprio de demonstrar amor: chegava carregado.
Quando vinha para Salvador, trazia beijus de vários tipos, farinha, carne-seca, galinha e outras coisas que sabia que nós gostávamos.
Era uma festa.
Os beijus não duravam dois dias.
Hoje acho graça quando lembro disso. Mas talvez aqueles beijus desaparecessem tão depressa porque não eram apenas beijus.
Eram pedaços da roça.
Eram pedaços da família.
Eram pedaços de um lugar que chegavam embrulhados nas mãos de tio Pedro.
Na infância, a gente não sabe dar nome às coisas. Só muitos anos depois entende que determinados momentos eram felicidade.
Na roça, também visitávamos outros parentes. Tio João de Aceno era um deles. Era casado com tia Donzinha, uma mulher linda, de cabelos loiros que desciam até a cintura como uma cachoeira de ouro, que fazia questão de nos receber da melhor maneira possível.
A gente gostava de montar cavalo, andar pelos caminhos e comer aquelas comidas que tinham um sabor que a cidade nunca conseguiu reproduzir.
Talvez porque a comida da roça tivesse outro ingrediente.
A memória.
Foi também nesse mundo que conheci a primeira pessoa que vi tocar violão.
Meu primo Epitácio, filho de tia Julinha.
Eu devia ter cinco ou seis anos.
Ele tinha um violão velho, surrado, talvez um tanto desafinado.
Mas o que ouvi naquele momento não foi desafinação.
Foi um chamado.
Fiquei olhando para aquele instrumento e para as mãos de Epitácio. As cordas vibravam e, de algum modo, alguma coisa também começou a vibrar dentro de mim.
Eu ainda não sabia que música era aquilo.
Não sabia que uma melodia podia nascer de algumas cordas.
Não sabia que palavras podiam encontrar notas e virar canção.
Não sabia que, muitos anos depois, eu também escreveria músicas.
Mas talvez a música já soubesse.
Talvez ela estivesse esperando por mim havia muito tempo.
Hoje penso que ela pode ter começado antes mesmo daquele violão.
Talvez estivesse no canto dos pássaros da roça.
No barulho das porteiras.
No vento passando pelas árvores.
Nos passos de meu pai durante aquelas caminhadas de madrugada.
Na voz de minha mãe.
Na algazarra dos irmãos.
No cheiro da comida de dona Petronilia.
Nos beijus que tio Pedro trazia para Salvador.
Ou talvez estivesse até na voz da minha vó Belmira.
Minha vó Belmira, mãe de meu pai, era cega. Morava com tia Sebastiana, irmã de meu pai, pelas bandas do fim de linha do São Caetano.
Eu gostava de visitá-la.
Sentava perto dela e lia a Bíblia.
Eu achava que estava sendo os olhos de minha avó.
Hoje penso que era o contrário.
Talvez fosse ela quem estivesse me ensinando a enxergar.
Porque existem pessoas que enxergam com os olhos e não veem.
E existem aquelas que, mesmo privadas da visão, conseguem perceber coisas que muitos de nós passamos a vida inteira sem perceber.
Vó Belmira me ensinou, sem saber que ensinava, que a palavra também pode ser uma forma de luz.
E talvez tenha sido essa luz que me acompanhou até a música.
Quando penso naquela infância, percebo que minha história musical não começou quando fiz minha primeira canção.
Começou muito antes.
Começou em Irará.
Começou na mudança para Salvador.
Começou no Largo do Tanque.
Começou nas viagens para a roça.
Começou na vara de pau que abria caminho pela escuridão.
Começou nas mãos de meu pai.
Começou na voz de minha vó Belmira.
E, talvez, tenha encontrado sua primeira melodia naquele violão velho que meu primo Epitácio tocava.
Um violão surrado.
Um pouco desafinado.
Mas capaz de abrir dentro de um menino uma janela para um mundo que ele ainda não conhecia.
Hoje, quando olho para tudo isso, percebo que aquela estrada para a roça era muito mais do que uma viagem para visitar os avós.
Era uma estrada para dentro de mim.
Eu ainda não sabia.
Meu pai também não.
Epitácio muito menos.
Mas alguma coisa já estava sendo construída.
A infância plantava.
O tempo regava.
A vida haveria de colher.
Talvez seja por isso que, tantos anos depois, quando pego um violão, ainda consigo ouvir, lá no fundo, o menino que fui.
Ele está lá.
Sentado em algum canto daquela casa da roça, olhando para Epitácio tocar.
E acho que, se eu pudesse perguntar a ele o que sentiu naquele instante, ele talvez não soubesse responder.
Criança não sabe explicar certas coisas.
Apenas sente.
Mas eu, hoje, sei.
Aquele menino estava ouvindo o começo da própria história.
Antes de existir a canção, existia a estrada.
Antes de existir o músico, existia o menino.
E antes que eu soubesse fazer música, a música já fazia morada em mim.

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