Enquanto militares da base recorrem ao Uber e trabalham como garçons para fechar as contas, proposta de reajuste chega ao Senado e expõe abismo nos quartéis: o mesmo adicional rende R$ 58,85 na base e mais de R$ 6 mil no topo
Proposta de reajuste dos
militares avança no Senado enquanto relatos de praças fazendo Uber e
trabalhando como garçons expõem pressão financeira, e regras de remuneração
mostram que o adicional pode variar de R$ 58,85 a mais de R$ 6 mil.


Proposta de reajuste dos militares avança no Senado e expõe contraste: adicional vai de R$ 58,85 na base a mais de R$ 6 mil no topo. - Imagem: Reprodução
Relatos de soldados, cabos e sargentos trabalhando como motoristas de aplicativo para complementar a renda, além de casos de militares da reserva e reformados atuando como garçons, vigias e em outras atividades, vêm alimentando uma discussão que agora ganhou um novo capítulo em Brasília.
Uma proposta que pede valorização dos soldos, recomposição das perdas inflacionárias e reajustes periódicos para os militares das Forças Armadas deixou de ser apenas uma ideia popular e passou oficialmente a tramitar no Senado.
A iniciativa foi transformada na Sugestão Legislativa 29/2026, chegou à Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa em 7 de agosto e, no dia 18, foi entregue ao senador Styvenson Valentim para elaboração de relatório.
Por trás da pressão salarial está uma estrutura remuneratória na qual a distância entre a base e o topo vai muito além do soldo.
Um dos exemplos mais claros aparece no Adicional de Compensação por Disponibilidade Militar.
No caso de um recruta com soldo de R$ 1.177, o percentual legal de 5% corresponde a R$ 58,85.
Já um general de Exército, almirante de esquadra ou tenente-brigadeiro do ar recebe percentual de 41% sobre soldo de R$ 14.711, o equivalente a R$ 6.031,51.
Trata-se da mesma parcela remuneratória, mas não do mesmo percentual: a própria legislação estabelece índices diferentes conforme o posto ou a graduação.
Mais de 20 mil apoios levaram reivindicação ao Senado
A mobilização começou no portal e-Cidadania com a proposta intitulada “Valorização do Soldo dos Militares das FFAA e Reajuste Anual Inflacionário”.
A iniciativa alcançou 20.331 apoios, ultrapassando o número necessário para ser encaminhada ao Senado como sugestão legislativa.
O texto pede a criação de um mecanismo para atualizar periodicamente o soldo-base dos militares.
Também propõe um reajuste complementar destinado a compensar inflação que, segundo os autores, não teria sido integralmente coberta pelas correções anteriores.
Outro ponto pede que índices de aumento concedidos aos servidores públicos civis federais sejam aplicados simultaneamente aos militares.
Para as graduações iniciais, como recrutas e soldados, a proposta é ainda mais específica: garantir que o soldo permaneça com margem real acima do salário mínimo nacional.
A ideia, porém, não equivale a um reajuste aprovado.
A SUG 29/2026 está em tramitação na CDH. Styvenson Valentim deverá apresentar relatório, e caberá à comissão decidir o destino da sugestão.
Soldo vai de R$ 1.177 a R$ 14.711
A tabela em vigor desde janeiro de 2026 já apresenta uma grande diferença entre os extremos da carreira.
Um marinheiro-recruta, recruta ou soldado-recruta possui soldo de R$ 1.177.
O terceiro-sargento recebe R$ 4.177.
O segundo-sargento chega a R$ 5.209, enquanto o primeiro-sargento recebe R$ 5.988.
Um suboficial ou subtenente alcança R$ 6.737.
Entre os oficiais, um capitão recebe R$ 9.976, um major R$ 12.108 e um coronel R$ 12.505.
No topo, um general de Exército, almirante de esquadra ou tenente-brigadeiro recebe R$ 14.711.
Somente nessa tabela, a distância entre o recruta e o posto mais elevado é de aproximadamente 12,5 vezes.
O soldo, entretanto, é apenas o ponto de partida.
O mesmo adicional acrescenta R$ 58,85 na base e R$ 6.031,51 no topo
O Adicional de Compensação por Disponibilidade Militar foi criado pela reforma do sistema de proteção social dos militares.
A parcela remunera características próprias da profissão, especialmente a disponibilidade permanente e a dedicação exclusiva.
O percentual varia conforme a posição hierárquica.
No topo, almirantes de esquadra, generais de Exército e tenentes-brigadeiros recebem 41%.
Coronéis e capitães de mar e guerra ficam em 32%.
Majores recebem 20%, capitães 12%, enquanto diversas posições iniciais permanecem na faixa de 5%.
É justamente a combinação entre percentuais diferentes e soldos diferentes que produz o contraste.
Cinco por cento de R$ 1.177 resultam em R$ 58,85.
Quarenta e um por cento de R$ 14.711 resultam em R$ 6.031,51.
Isso significa que somente esse adicional recebido no topo supera o soldo integral de R$ 5.988 de um primeiro-sargento.
A comparação não representa o contracheque completo de todos os militares. Cursos, funções, gratificações, condições especiais e descontos alteram os valores individuais.
Ela demonstra, porém, como uma mesma rubrica remuneratória pode produzir resultados drasticamente diferentes ao longo da hierarquia.
Dados do próprio Exército mostram diferença ainda maior no pagamento bruto
Há um dado oficial que amplia a dimensão dessa distância.
O Comando do Exército publica informações sobre a remuneração bruta média efetivamente registrada em cada posto e graduação.
Na posição de abril de 2026, um recruta apresentava remuneração bruta média de R$ 1.303,61.
Um cabo engajado aparecia com R$ 3.929,58.
O terceiro-sargento alcançava R$ 6.077,95; o segundo-sargento, R$ 9.195,40; o primeiro-sargento, R$ 11.401,69; e o subtenente, R$ 15.094,80.
No oficialato, a média chegava a R$ 24.786,73 para major, R$ 28.441,99 para coronel e R$ 41.633,48 para general de Exército.
Na prática, isso coloca a remuneração bruta média registrada no topo em cerca de 32 vezes a média observada para o recruta.
É importante não interpretar esses números como uma tabela salarial fixa.
O próprio documento do Exército mostra que a remuneração média é formada por soldo e diferentes parcelas, como adicionais de habilitação, disponibilidade, representação e outras vantagens que dependem da situação funcional.
Um general de Exército, por exemplo, aparece com média de R$ 41.633,48, mas isso não significa que todo general receba exatamente esse valor.
Da mesma forma, os R$ 1.303,61 são uma média bruta para a categoria registrada, antes dos descontos.
Recruta continua abaixo do salário mínimo no soldo
Outro ponto utilizado pelos apoiadores da proposta aparece na comparação com o salário mínimo.
Desde janeiro de 2026, o mínimo nacional está fixado em R$ 1.621.
O soldo de R$ 1.177 de um recruta fica, portanto, R$ 444 abaixo desse valor.
Mesmo adicionando isoladamente os R$ 58,85 correspondentes aos 5% de disponibilidade, o resultado seria de R$ 1.235,85.
A comparação exige uma ressalva.
O serviço militar possui regime jurídico próprio e não funciona como uma relação trabalhista comum regida pelas mesmas regras aplicadas ao emprego civil.
Militares também podem receber alimentação, fardamento, assistência médico-hospitalar e, dependendo da situação, alojamento e outras estruturas fornecidas pela instituição.
Ainda assim, é justamente a distância monetária entre soldo e salário mínimo que levou a proposta do e-Cidadania a pedir proteção específica para as graduações iniciais.
Soldos já foram reajustados antes da nova pressão
A reivindicação chegou ao Senado mesmo depois de uma atualização recente da tabela.
A Lei nº 15.167 estabeleceu aumentos em etapas, com efeitos financeiros em abril de 2025 e uma nova tabela a partir de 1º de janeiro de 2026.
No topo, o soldo passou de R$ 13.471 para R$ 14.711.
Para o terceiro-sargento, foi de R$ 3.825 para R$ 4.177.
O soldo do recruta passou de R$ 1.078 para R$ 1.177.
A existência da SUG 29/2026, portanto, não significa que os militares tenham ficado sem reajuste recente.
O argumento dos apoiadores é outro: criar um mecanismo permanente de correção, vinculado à preservação do poder de compra, em vez de depender exclusivamente de reajustes pontuais aprovados em determinados momentos.
Uber e garçom colocaram contracheque fora dos quartéis
Foi fora das tabelas oficiais que a discussão ganhou sua face mais sensível.
Em maio, o Sociedade Militar publicou relatos envolvendo militares da Marinha, Exército e Aeronáutica que procuraram outras atividades para complementar a renda.
Entre os episódios estavam o de um suboficial reformado trabalhando como motorista de aplicativo e o de um segundo-sargento RM1 atuando como garçom.
Também foram mencionados trabalhos como vigia e outras atividades paralelas.
Posteriormente, outra reportagem do site reuniu relatos específicos de soldados, cabos e sargentos fazendo Uber ou procurando outros bicos para aumentar a renda familiar.
Até salário dos generais já provocou discussão pública
A insatisfação não aparece exclusivamente na base.
Em setembro de 2025, durante audiência no Senado, o então ministro da Defesa José Múcio Monteiro também reclamou da remuneração dos integrantes do topo da carreira.
Ao defender as Forças Armadas, Múcio afirmou que um general, após cerca de 50 anos de serviço, iria para casa recebendo aproximadamente R$ 24 mil, citando ainda as constantes transferências e seus impactos sobre a vida familiar.
A fala provocou reação de militares e familiares.
Comentários posteriormente reunidos pelo Sociedade Militar questionaram a ênfase dada aos generais e citaram justamente soldados, cabos e sargentos trabalhando como motoristas de aplicativo.
O episódio mostrou que a discussão remuneratória atravessa diferentes níveis da hierarquia, mas é percebida de maneiras muito distintas dependendo da posição ocupada.
Cursos e carreira aumentam ainda mais as diferenças
O adicional de disponibilidade também não é a única parcela capaz de separar soldo de remuneração final.
O documento oficial do Exército mostra forte peso do adicional de habilitação, relacionado aos cursos realizados ao longo da carreira.
Em abril, a média dessa parcela aparecia em apenas R$ 5,69 no grupo dos recrutas, enquanto alcançava R$ 10.739,03 entre generais de Exército, considerando a média dos militares daquele posto apresentada na tabela.
Há ainda adicional militar, gratificação de representação, adicional de permanência, compensações associadas a determinadas atividades e gratificações ligadas à localidade.
Isso ajuda a explicar por que olhar somente para os R$ 14.711 do general ou para os R$ 6.737 do subtenente não revela o valor médio efetivamente pago.
Também explica por que a distância observada na folha pode ser bem maior do que aquela sugerida pela tabela básica de soldos.
Agora a reivindicação está nas mãos de um relator
A principal novidade de agosto está justamente no caminho institucional da reivindicação.
Quando a mobilização ultrapassou os 20 mil apoios, ela ainda era uma ideia apresentada por uma cidadã no e-Cidadania.
Agora, a proposta tem número próprio no Senado, SUG 29/2026, está formalmente na Comissão de Direitos Humanos e possui um senador responsável por elaborar relatório.
Até o momento, não houve aprovação de reajuste, criação de correção automática nem mudança na remuneração dos militares.
O que mudou foi o estágio da discussão.
Enquanto relatos de integrantes da base continuam expondo militares procurando renda complementar fora dos quartéis, o Senado passa a analisar uma reivindicação que pede justamente mudanças permanentes no sistema de reajuste.
E os números oficiais ajudam a mostrar por que o assunto provoca tanta discussão: entre os extremos da carreira, o mesmo adicional previsto em lei pode significar R$ 58,85 para um recruta e R$ 6.031,51 no topo, enquanto a remuneração bruta média divulgada pelo próprio Exército vai de R$ 1.303,61 a R$ 41.633,48.
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