sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O ABANDONO DO PATRIMÔNIO

Este casarão, provavelmente do princípio do século XVIII, em pleno centro do Pelourinho, nunca foi restaurado, nem na gestão ACM. Foto D. Ganzelevitch

Quando você aterrissa no aeroporto de Paris, quais são as primeiras imagens que lhe dão as boas-vindas ao longo dos corredores e escaladas rolantes? Museus, catedrais, palácios e castelos medievais. Imagens que são a identidade específica da terra que você irá descobrir. Idem em Lisboa ou em Bogotá.  

Em Salvador será recebido por fotos de praias. Com muita sorte, terá direito a um pedacinho do elevador Lacerda ou do farol da Barra. Do Solar do Unhão, de uma roda de samba, do Museu Costa Pinto ou da casa de Jorge Amado, nem sombra.

Não é mera coincidência. Toda nossa política é orientada para o turismo de massa. Cerveja e fio dental. Desembarca aos milhares, por poucas horas, gastando o mínimo, aquele mesmo turismo que motiva manifestações de repúdio em Barcelona e Veneza porque acaba com a identidade, a cultura, o poder aquisitivo e até a culinária dos habitantes. Que se amontoa nos Air Bnb, que engorda os blocos de carnaval, compra a canga made in Taiwan com a bandeira nacional para posar sua bunda na areia de Itacaré. Que levanta a mãozinha com o celular ligado no show do Bell ou da Vevete, mas que nunca jamais entrará na galeria Pierre Verger, não assistirá a uma peça de teatro e muito menos comprará uma obra de arte ou sequer um livro.


O turismo cultural é desprezado, embora seja o que mais gasta e menos depreda. Casal, família ou pequenos grupos. Fica mais tempo para descobrir segredos. Irá até Itaparica, Boipeba, Cachoeira e Chapada Diamantina. Deixará a Bahia decepcionado com o abandono do patrimônio e a bagunça dos museus. Com toda razão. Depois da maquiagem do Santo Antônio pela Conder – anos 2020/2022 – nem manutenção se fez. A fachada da Igreja do Boqueirão restaurada em 2010 pela bagatela de 3 mi, nunca teve a mínima manutenção. Hoje, parcialmente interditada, a fachada caindo aos pedaços ameaça os transeuntes.  No sábado 22 de agosto organizei um protesto pela escada dessa mesma igreja, que a dupla Conder/Iphan vandalizou em 2022 e nunca consertou. Hoje temos doze (12!) igrejas interditadas pela Codesal por perigo de desabamento. Entre elas, as da Boa Viagem, do Carmo e a “Golden Church” São Francisco, que até matou uma turista.

Desde a intervenção da terceirizada Pejota – cujos donos pai e filhos estão presos por corrupção - no bairro de Santo Antônio em 2022 que empregava qualquer técnico desde que fosse novato e barato, nunca se mexeu nem uma pedra do calçamento. Ninguém fiscaliza os absurdos que descaracterizam as fachadas. Das promessas do Rui Costa em restaurar o Cine-Teatro Jandaia, o vento levou.

Agora, a cereja do bolo. A prefeitura tem a ideia genial de pedir aos proprietários para restaurar as fachadas da baixa dos Sapateiros. Promete pagar 50% dos gastos. Piada...

Dimitri  Ganzelevitch

A Tarde, 5 de agosto 2026

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