Quando você aterrissa no aeroporto de Paris, quais são as primeiras imagens que lhe dão as boas-vindas ao longo dos corredores e escaladas rolantes? Museus, catedrais, palácios e castelos medievais. Imagens que são a identidade específica da terra que você irá descobrir. Idem em Lisboa ou em Bogotá.
Em Salvador será recebido por fotos de praias. Com muita
sorte, terá direito a um pedacinho do elevador Lacerda ou do farol da Barra. Do
Solar do Unhão, de uma roda de samba, do Museu Costa Pinto ou da casa de Jorge
Amado, nem sombra.
Não é mera coincidência. Toda nossa política é orientada
para o turismo de massa. Cerveja e fio dental. Desembarca aos milhares, por
poucas horas, gastando o mínimo, aquele mesmo turismo que motiva manifestações
de repúdio em Barcelona e Veneza porque acaba com a identidade, a cultura, o
poder aquisitivo e até a culinária dos habitantes. Que se amontoa nos Air Bnb, que
engorda os blocos de carnaval, compra a canga made in Taiwan com a bandeira
nacional para posar sua bunda na areia de Itacaré. Que levanta a mãozinha com o
celular ligado no show do Bell ou da Vevete, mas que nunca jamais entrará na
galeria Pierre Verger, não assistirá a uma peça de teatro e muito menos
comprará uma obra de arte ou sequer um livro.
O turismo cultural é desprezado, embora seja o que mais gasta e menos depreda. Casal, família ou pequenos grupos. Fica mais tempo para descobrir segredos. Irá até Itaparica, Boipeba, Cachoeira e Chapada Diamantina. Deixará a Bahia decepcionado com o abandono do patrimônio e a bagunça dos museus. Com toda razão. Depois da maquiagem do Santo Antônio pela Conder – anos 2020/2022 – nem manutenção se fez. A fachada da Igreja do Boqueirão restaurada em 2010 pela bagatela de 3 mi, nunca teve a mínima manutenção. Hoje, parcialmente interditada, a fachada caindo aos pedaços ameaça os transeuntes. No sábado 22 de agosto organizei um protesto pela escada dessa mesma igreja, que a dupla Conder/Iphan vandalizou em 2022 e nunca consertou. Hoje temos doze (12!) igrejas interditadas pela Codesal por perigo de desabamento. Entre elas, as da Boa Viagem, do Carmo e a “Golden Church” São Francisco, que até matou uma turista.
Desde a intervenção da terceirizada Pejota – cujos donos pai
e filhos estão presos por corrupção - no bairro de Santo Antônio em 2022 que
empregava qualquer técnico desde que fosse novato e barato, nunca se mexeu nem
uma pedra do calçamento. Ninguém fiscaliza os absurdos que descaracterizam as
fachadas. Das promessas do Rui Costa em restaurar o Cine-Teatro Jandaia, o
vento levou.
Agora, a cereja do bolo. A prefeitura tem a ideia genial de
pedir aos proprietários para restaurar as fachadas da baixa dos Sapateiros.
Promete pagar 50% dos gastos. Piada...
Dimitri Ganzelevitch
A Tarde, 5 de agosto 2026

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