sexta-feira, 2 de abril de 2021

VAN GOGH SÓ PARA MIM

 


Apareceram quase que de um dia para outro, as três juntas como os Reis Magos, a Santa Trindade ou as Virtudes Teologais, com suas amplas folhas parecendo asas, no vaso onde coloco tudo aquilo que varro no meu terraço com vista para o porto e as ilhas. Não demorei a descobrir que se tratava de girassóis. Van Gogh só para mim. Por enquanto cada flor olha para uma direção diferente. Aguardemos.

O outono chegou com seu mormaço pegajoso, suas baratas tamanho GG e suas chuvas raivosas. Imagine um fim de dia, nuvens cinzentas uniformizando a baía e o céu. O sol não passa de uma moeda sem brilho nem valor. Itaparica, mera pincelada. Hesitaremos entre Turner e Monet. Mas se de repente o vento rasgar a cortina e reaparecerem, na costumeira orgia de cores tropicais, os cargueiros enferrujados e os brancos ferry-boats, então uma abstração de Nicolas de Stäel surgirá, só para mim.

Com junho renascente, se as vacinas o permitirem, estarei pelo Pelourinho enfeitado, passeando de manhã bem cedinho a contemplar e fotografar as bandeirinhas de Alfredo Volpi. Só para mim e para Antônio, João, Pedro, Paulo...

Fui sempre um visual com memória treinada para peneirar os museus de meio mundo. Vejo Carybé numa roda de capoeira e Jean-Baptiste Debret quando passa o vendedor de vassouras debaixo de minha janela. Na feira de São Joaquim – o maior espetáculo ao ar livre da capital, esqueça o carnaval – é Pierre Verger que reencontro a cada carregador, cada barraca de farinha, cada amontoado de panelas de barro.

Como num jogo da internet, as formas e as cores se transformam para se reordenarem em novas composições lembrando outras obras, outros artistas. Você sabe qual é o pedaço de que mais gosto entre o Farol e o Porto da Barra? Aquele, bem escondido, que alterna pequenos bancos de areia com rochas obscuras e dilaceradas, perto do Hospital Espanhol onde as marinas de Pancetti surgem sem pedir licença. Quando ainda podia ir até os Alagados numa boa, esbarrava com magras mães de Portinari e opulentas sedutoras de Di Cavalcanti.

Em manchas de umidade dos velhos muros de bairros esquecidos, descubro Pollock, Soulages e José Guerrero. Um conjunto de porcelanas ou de vidros me lembram Giorgio Morandi. Uma simples fruta abandonada numa bancada enegrecida ou um amontoado de bicicletas enferrujadas e lá está o mexicano Gabriel Orozco que hospedei por quase um mês, ainda jovem e desconhecido, com a esposa Maria na minha casa da rua Direita de Santo Antônio.

Defina sua vida. Uma pista caótica de grandes e pequenas pedras? Um triste e angustiante calvário? Uma loucura psicodélica? Para mim, é uma enciclopédica exposição de obras de artistas dançando na ciranda de um céu movediço, mutante...

Dimitri Ganzelevitch 

A Tarde, sábado 3 de abril de 2021

 

 

 

 

OS GIRASSOIS DE VAN GOGH

 

130 anos depois, porque é que continuamos fascinados com os girassóis de van Gogh?

Entre 1886 e 1889, Vincent van Gogh pintou uma série de 7 quadros de girassóis, para ele um símbolo de felicidade e gratidão. Depois da sua morte, tornaram-se nas suas pinturas mais famosas. Porquê?




Uma das obras mais famosas da National Gallery, em Londres, é um vaso com 14 girassóis pintado por Vincent van Gogh em 1888, provavelmente no mês de agosto, em Arles. A pintura é considerada uma das mais bem executadas da série de sete que o pintor holandês criou entre o verão de 1888 e janeiro de 1889, na localidade no sul de França onde se estabeleceu no último período da sua vida. A flor tinha um simbolismo especial para van Gogh, que começou a pintá-la compulsivamente quando se encontrava em Paris, na casa do irmão Theo. Paul Gauguin, que passou uma temporada com ele em Arles, reparou nisso e, tal como as milhares de pessoas que todos os anos se deslocam à sala da National Gallery para ver os girassóis de van Gogh, também ele se deixou enfeitiçar por eles. Não foi por acaso que o único retrato que pintou do artista durante o tempo que passou na Casa Amarela foi Vincent Pintando Girassóis. Gauguin identificava van Gogh com a flor, tal como ele próprio se revia nela: “Como sabes, as peónias são de Jeannin, as malvas-rosas são de Quost e os girassóis, bem, os girassóis são meus”; declarou a Theo. E de facto os girassóis tornaram-se na flor de Vincent van Gogh.

Ao longo da sua vida, van Gogh pintou vários quadros em que estas flores surgem, sendo a série de sete que executou em Arles a partir do verão de 1888 a mais importante. Esta foi motivada pela chegada iminente de Paul Gauguin à Casa Amarela, onde, nesse ano, tinha alugado dois quartos no piso térreo e dois no primeiro andar. O pintor esperava transformar o número dois da Place Lamartine numa residência para artistas. O convite que tinha enviado a Gauguin — que tinha conhecido meses antes numa exposição que tinha organizado num restaurante em Paris — era um primeiro passo na realização desse sonho.  Inicialmente, o artista holandês tinha planeado criar 12 quadros com estas flores para decorar as paredes da Casa Amarela, mas acabou por completar apenas quatro. Gauguin tinha mostrado interesse nas pinturas que mostravam ramos de girassóis em cima de uma mesa que van Gogh tinha executado em Paris e exposto no restaurante Grand Bouilon e foi provavelmente por isso que o pintor decidiu regressar ao tema em Arles.


Paul Gauguin ficou impressionado com as naturezas-mortas de van Gogh com ramos de girassóis em jarras. O único retrato que fez do companheiro mostra-o a pintar as suas flores favoritas  (Créditos: VCG Wilson/Corbis via Getty Images)Vários meses depois do envio do convite, Paul Gauguin chegou a Arles. Viveu na Casa Amarela durante cerca de dois meses. A relação entre os dois pintores depressa se deteriorou e, em dezembro, o francês fez as malas e partiu. van Gogh estava internado no hospital. Tinha tido um colapso mental e cortado uma parte da orelha. O triste episódio tornou-se num dos mais famosos da sua curta vida. Nunca mais se voltaram a ver, mas continuaram a corresponder-se.  Numa dessas cartas, Gauguin pediu ao companheiro se podia ficar com um dos seus girassóis que, na sua opinião, “era um exemplo perfeito de um estilo que era completamente Vincent”. Em vez de enviar um dos originais já terminados, van Gogh decidiu fazer outras três cópias. Paul Gauguin não chegou a ver nenhuma das duas porque, algures durante a execução, o pintor terá mudado de ideias. Apesar de lisonjeado pelo pedido, “não queria oferecê-las”, salientou Nienke Bakker, curadora da exposição sobre os girassóis patente no Museu Van Gogh, em Amesterdão, ao The New York Times. “Se Gauguin não tivesse pedido um dos quadros, quem sabe se as outras versões teriam sido feitas.”

Apesar de nunca ter recebido os girassóis que pediu, Paul Gauguin nunca se esqueceu deles. “Gauguin estava impressionado com os girassóis, que elogiava repetidamente e que pediu como presente. Anos depois, no Pacífico Sul, pintou algumas imagens de girassóis numa aparente homenagem ao seu antigo colega de casa”, afirmou Martin Gayford, autor do livro The Yellow House: Van Gogh, Gauguin, and the Nine Turbulent Weeks in Arles, à BBC.

Em 1901, durante a sua segunda estadia no Taiti, Paul Gauguin pintou um ramo de flores dentro de um cesto. As flores parecem estar em diferentes fases, tal como as que van Gogh costumava pintar (Créditos: Wikimedia Commons)

Estes últimos vasos de girassóis encontram-se atualmente em diferentes museus, em Filadélfia, Amesterdão e Tóquio. A cópia que está no Museu Van Gogh esteve sempre com a família até à sua doação, em 1973. Dos restantes quatro, apenas dois se encontram expostos ao público, em Munique e em Londres. Um foi destruído durante um incêndio provocado pelo bombardeamento de Osaka pelos exército dos Estados Unidos da América durante a Segunda Guerra Mundial e o outro faz parte de numa coleção privada norte-americana. Este último, o mais antigo de todos, não é exibido desde 1948, quando foi emprestado durante um mês ao Museu de Arte de Cleveland. Ao contrário das cópias da National Gallery e do Museu Van Gogh, consideradas as mais bem conseguidas das sete, esta não tem o característico fundo amarelo — os três girassóis, colocados dentro de uma jarra verde, surgem em frente a uma parede azul-turquesa.

As pinturas são todas diferentes, como explicou Ella Hendriks, conservadora e responsável por um recente projeto de estudo dos girassóis da National Gallery e do Museu Van Gogh, ao The New York Times. “Apesar de a paleta básica ser a mesma, existem muitas cores diferentes que foram usadas, diferenças nas texturas e o trabalho do pincel também não é igual”, explicou. Para criar a série de sete girassóis, Vincent van Gogh recorreu a várias técnicas, como os pontos típicos dos pontilhistas e as pinceladas esculturais e rápidas, e quebrou algumas regras que eram tidas como sagradas, como explica o museu londrino no seu site. Naquele tempo, era comum pintar o fundo com uma cor oposta à do objeto retratado, mas van Gogh fez precisamente o contrário e colocou amarelo sobre amarelo nas versões mais tardias dos seus girassóis. No exemplar que faz parte da coleção do Museu Van Gogh, em Amesterdão, usou apenas três tons de amarelo em todo o quadro.

O exemplar que faz parte da coleção da National Gallery, Jarra com Quatorze Girassóis, faz parte da primeira série de quadros, pintados em agosto de 1888 em Arles. Van Gogh voltou ao tema em janeiro do ano seguinte (Créditos: Wikimedia Commons)

O objetivo de Vincent van Gogh não era tanto fazer uma cópia exata da natureza, mas antes expressar as suas próprias emoções, como ele próprio explicou numa carta enviada a Theo pouco antes de iniciar a série de flores amarelas: “Em vez de tentar apresentar exatamente o que tenho diante dos meus olhos, uso a cor de forma mais arbitrária para me expressar”, escreveu. Este uso particular do cor influenciou profundamente a arte moderna, em especial os expressionistas que lhe seguiram.

“Gostava de pintar de forma a que (…) toda gente conseguisse percebê-lo de olhos fechados”, disse uma vez. Por outro lado, e no caso específico dos girassóis, estes permitiam-lhe “expôr os seus métodos de trabalho, a forma como abordava os motivos e as preocupações específicas que tinha ao pintar. Os girassóis que colocava num vaso de manhã cedo requeriam tratamento urgente, pois murchavam ao fim de algumas horas. Este facto permitiu-lhe justificar um procedimento que, para sua satisfação, representava um fim em si próprio. Um pintor não habituado a um trabalho rápido nunca conseguira captar a beleza que, minuto a minuto, se ia consumindo. Era o amarelo dos girassóis que transmitia toda a magia, aquela cor do sul a que van Gogh já prestara homenagem ao pintar a sua casa de amarelo”, escreveu Ingo F. Walther.

Van Gogh adorava amarelo. Como é explicado no site da National Gallery, esta cor era, para ele, um símbolo de felicidade. Era por isso natural que se sentisse atraído pelos girassóis, pela sua “cor vibrante” e também pela sua forma. “O girassol é uma planta muito forte e resistente. É elegante e refinada. Ele chamava-lhe ‘girassol rústico’. Tem a aspereza e a falta de polidez do campo, de que ele gostava muito”, afirmou Nienke Bakker no catálogo da exposição atualmente patente no museu de Amesterdão, citado pelo Artsy. O poeta simbolista e crítico francês Gabriel-Albert Aurier foi mais longe, declarando que a “paixão obsessiva” de van Gogh pela flor estava relacionada com aquela que ele tinha pelo “disco solar”, que ele adorava “fazer brilhar” como uma chama nos céus dos seus quadros. Mas, para o pintor, o verdadeiro significado era ainda mais profundo — era de “gratidão”, como ele próprio admitiu em 1890 numa carta à irmã Wil.

Martin Bailey, autor de The Sunflowers Are Mine: The Story of Van Gogh’s Masterpiece, acredita que, “se olharmos mesmo para as pinturas, percebemos que eles [os girassóis] estão em diferentes fases”: alguns ainda não floriram, uns estão completamente abertos e outros estão já a perder as pétalas e a morrer. “Van Gogh está a falar sobre o ciclo da vida. Tudo flore e tudo morre, e depois volta a nascer”, disse ao The Telegraph, acrescentando que “achamos que conhecemos os quadros dos girassóis tão bem porque já os vimos reproduzidos centenas de vezes, mas as pessoas não olham mesmo para eles”. De tal forma que, para a grande maioria, os girassóis do pintor são apenas um e não sete. “Nem sequer se apercebem que são uma série”, declarou Bailey, desta vez à BBC.

Talvez porque o que verdadeiramente fascina na série de pinturas do artista holandês não são as pinturas em si, mas a figura do homem que as executou. “A popularidade dos Girassóis é, por um lado, uma combinação da sua beleza, impacto emocional e um toque da condição humana e, por outro, do fascínio do público com a fama, o dinheiro e o mito. Existe qualquer coisa aqui para toda a gente”, defendeu Leo Janson, curador no Museu Van Gogh, ao mesmo canal de televisão britânico. “Temos de aceitar o facto de que as pessoas adoram a obra de van Gogh por causa dos quatros em si e por causa do homem que os pintou e da história que existe por trás dele. Torna-se muito difícil separar van Gogh, o homem, de van Gogh, o artista”, afirmou Bailey ao The Independent. Para o especialista, isto não é necessariamente mau. O que interessa é que, independentemente da razão, “as pessoas” cheguem “à sua arte”, uma das mais marcantes do final do século XIX.

Vincent van Gogh não chegou a sentir o gosto da fama de que hoje goza. O artista morreu a 29 de julho de 1890, dois dias depois de ter disparado sobre o próprio peito. As suas últimas palavras terão sido, de acordo com o testemunho do seu irmão Theo, “a tristeza vai durar para sempre”. Ao saber do seu suicídio, Claude Monet, que tinha elogiado os girassóis expostos no restaurante de Paris, questionou: “Como é que um homem que amava tanto as flores e a luz que as retratou tão bem podia ter vivido tão infeliz?”. Mesmo na morte, as flores que o holandês “amava tanto” nunca o abandonaram — durante anos, o seu médico e amigo Paul Gachet, plantou girassóis junto à sua campa.

AS TRÊS IRMÃS DE VAN GOGH

 EL PAÍS

As irmãs Van Gogh tomam a palavra

Correspondência entre Anna, Elisabeth e Willemien, publicada pela primeira vez, joga luz sobre as relações familiares do pintor


Imagens no Museu Van Gogh, em Amsterdã, das irmãs do pintor, Anna, Willemien e Elisabeth. / MUSEU VAN GOGH EM AMSTERDÃ/ ARQUIVO TRALBAUT

A vida e destinos diferentes de Anna, Elisabeth e Willemien van Gogh, as três irmãs de Vincent, o famoso pintor holandês, passaram quase despercebidos pela potência avassaladora do legado fraterno. Ainda que o artista tenha dependido economicamente de seu irmão Theo, que sempre disse que sua obra seria reconhecida, e assim aconteceu após sua morte. Muito antes de que sua assinatura bastasse para valer milhões, seus quadros serviram para ajudar Willemien, a mais nova das três. Os problemas mentais afetaram vários membros da família, e a venda de parte dos 17 quadros que ela tinha em casa permitiu custear sua entrada em 1902 em um hospital especializado, onde ficou internada por 39 anos. De certo modo, foi como se Vincent (1853-1890), por fim, conseguisse devolver a ajuda que recebeu em vida.

Graças ao estudo das 900 cartas conservadas de Vincent van Gogh parece se saber quase tudo sobre o artista. Menos conhecida é a correspondência entre suas irmãs, formada por centenas de cartas guardadas no arquivo do museu do pintor, em Amsterdã. Por estarem escritas em língua holandesa não despertaram o interesse internacional das de seu irmão, que também se expressava em inglês e francês, mas mostram mulheres com personalidade própria marcada pelas convenções sociais e a passagem do século XIX ao XX. Em uma delas Anna, a mais velha, que manteve uma relação distante com Vincent, admite em 1909 seu assombro pelo preço obtido pela venda de uma de suas telas para pagar os cuidados de Willemien. Ela o diz à sua cunhada, Jo Bonger, viúva de Theo van Gogh, com estas palavras: “Que valor. Quem poderia imaginar que Vincent contribuiria dessa forma ao sustento econômico de Wil [o apelido familiar da mais nova]. Theo sempre disse que isso aconteceria, mas que surpresa”, escreve. Recebeu pela pintura 600 florins da época, por volta de 6.800 euros de 2016 (aproximadamente 23.250 reais pelo câmbio de 2016), segundo cálculos do International Institute of Social History, de Amsterdã. Ainda muito longe dos 13 milhões de euros (88 milhões de reais) pagos em Paris nesta quinta-feira em um leilão da Sotheby’s por Scène de rue à Montmartre (Cena de Rua em Montmartre).

Willemien nasceu em 1862 e morreu em 1941, e seu destino parecia selado: tomou conta de seus pais e poderia ter feito carreira como enfermeira, mas queria dar um toque religioso ao seu trabalho social. O mesmo que fazia Vincent quando tentou ser pregador, e tal como refletiu depois em seus quadros sobre a dureza da vida camponesa. A jovem estudou Religião e deu aulas em uma escola, e no melhor momento de sua vida recebeu condecorações públicas pelo bom trabalho na comissão executiva da Exposição Nacional do Trabalho da Mulher. Celebrada em 1898, em Haia, coincidiu com a coroação da rainha Guilhermina, bisavó de Guilherme, o rei atual. A decadência chegou pouco depois, em 1902: Willemien tinha 40 anos e foi internada no hospital para doenças mentais, onde terminou seus dias, aos 79

Imagens no Museu Van Gogh, em Amsterdã, das irmãs do pintor, Anna, Willemien e Elisabeth. / MUSEU VAN GOGH EM AMSTERDÃ/ ARQUIVO TRALBAUT

As cartas foram analisadas pelo historiador de arte holandesa Willem-Jan Verlinden em seu livro De zussen Van Gogh (As irmãs Van Gogh), cuja tradução ao inglês será publicada em abril pela Thames & Hudson no Reino Unido e nos Estados Unidos. Ele as considera um tesouro porque as irmãs estavam eclipsadas. “São mulheres muito interessantes que de certo modo não tiveram mais fama por estar sujeitas à sociedade da época”, como afirma, em conversa por telefone. Em sua opinião, Vincent e Willemien foram pioneiros no enfoque social de seu trabalho e, além disso, ambos escreviam e tinham dotes artísticos. Também defende que temos uma imagem equivocada da família. “Na verdade, o pai era um pastor protestante liberal e junto com sua esposa, Anna Cornelia Carbentus, educou todos os seus filhos para que pudessem se defender sozinhos”. Mas é verdade que os problemas do pintor “os sobrecarregaram e prejudicavam a autoridade do progenitor com sua congregação”, acrescenta.

Carta escrita por Elisabeth, a irmã de Van Gogh. COLEÇÃO PRIVADA COLECCIÓN PRIVADA

Verlinden também recupera a biografia de Elisabeth, a segunda irmã, nascida em 1859, que é um exemplo de tudo o que poderia ter dado certo e acabou se perdendo por culpa das pressões sociais. Obteve o diploma de professora, mas aceitou ser a dama de companhia de uma senhora de boa família que estava doente e tinha quatro filhos. Elisabeth e Jean Philippe, o marido de sua patroa, acabaram se apaixonando e tiveram uma filha que batizaram de Hubertine.

O drama de Elisabeth

Para evitar falatório, Elisabeth deu à luz na França, colocaram o sobrenome Van Gogh na menina e a deixaram com uma viúva que recebia um pagamento por isso. A criança nunca morou com seus pais, apesar de terem se casado quando o pai enviuvou e tiveram outros quatro filhos. Sua mãe quis adotá-la, mas o pai preferiu não se arriscar a boatos. Hubertine tinha 35 anos quando, em 1922, Elisabeth propôs que ela voltasse aos Países Baixos; tarde demais. Sua existência foi descoberta por um jornalista francês nos anos sessenta porque vendida postais de porta em porta dizendo que era sobrinha do pintor. Mesmo tendo recebido ajuda da família holandesa a partir de então, morreu sozinha aos 83 anos.

A mais independente, ao mesmo tempo responsável com sua família, foi Anna, a irmã mais velha, que veio ao mundo em 1855. Deu aulas de inglês e francês e trabalhou em uma escola particular em Welwyn (Reino Unido). Tomou conta da família quando o pai morreu e levou Willemien ao hospital mental, onde a visitava. Casada e com dois filhos, Anna admirava o trabalho do pintor, mas dizia que não gostava dele porque os humilhava com sua atitude. Mas quando Vincent já havia falecido, ela convidava especialistas à sua casa para que explicassem a ela sua obra pictórica. Segundo Verlinden, era sua forma de compensar a difícil relação que tiveram.

O LEGADO ITALIANO

“Legado italiano”, filme que conta a história da imigração italiana no Brasil, já está disponível no catálogo da Netflix.

O comovente filme que revisita os 145 anos da chegada dos italianos à Serra Gaúcha teve estreia nos cinemas do Brasil em novembro do ano passado, mas foi prejudicado por conta das restrições devido a covid-19.

As filmagens de “Legado italiano” se passam no Norte da Itália, de onde veio boa parte deles, e na Serra Gaúcha.

Dirigido por Marcia Monteiro, o filme “Legado italiano” é uma coprodução da Camisa Listrada com a Globo Filmes, a Globo News e a Celeiro Produções.



quinta-feira, 1 de abril de 2021

RELIGIÃO E MILÍCIAS

LISBOA...

 Lisboa é a segunda cidade mais saudável do mundo para a vida familiar




ntre os critérios em análise, pela seguradora britânica CIA Landlord, destacam-se o padrão de vida, a taxa de criminalidade, o número de escolas, o número de atividades ao ar livre disponíveis, o arrendamento de uma casa e o custo dos serviços

UM GRANDE ARQUITETO

FRANCIS KÉRÉ



Primeiro filho de uma família humilde de Gando – aldeia com cerca de três mil habitantes localizada em Burkina Faso, na África Ocidental – Keré é reconhecido internacionalmente por seu trabalho visionário e com intensa atuação social.



Formado pela Universidade Técnica de Berlim, está há mais de uma década à frente do celebrado escritório Kéré Architecture e da Fundação Kéré. Ao longo da carreira, desenvolveu trabalhos em países por todo o mundo, incluindo Mali, Quênia, Uganda, Alemanha e Estados Unidos. Foi reconhecido por premiações, como o Aga Khan Award for Architecture (2004) e o Global Holcim Award (2012), e selecionado para executar o Serpentine Pavilion 2017, na Inglaterra.




 

Na África, continente mãe do arquiteto, consagrou-se como agente de transformação. Revolucionou com projetos de escolas, vilas, bibliotecas e centros culturais erguidos usando métodos construtivos locais junto a concepções sustentáveis e participação ativa da comunidade.


O mote de seu trabalho é melhorar as condições de vida das pessoas em locais pobres do continente e, para tanto, vê a tecnologia como aliada no combate ao déficit habitacional, sendo significativa para reduzir o custo das construções. Em entrevista recente ao jornal O Globo, declarou: “arquitetura é um serviço para a humanidade. Seja uma pequena casa na África ou um grande museu na Europa, o que importa são as pessoas”.


Em sua aldeia foi o primeiro a a ser enviado para a escola, pois seu pai, o chefe da aldeia, queria que seu filho mais velho aprendesse a ler e traduzir suas cartas; como não existia nenhuma escola em Gando, Diébédo Kéré teve que deixar sua família quando tinha 7 anos para morar com seu tio na cidade. 



Depois de terminar seus estudos, ele se tornou carpinteiro e recebeu uma bolsa da Carl Duisberg Society para fazer um estágio na Alemanha como supervisor em auxílio ao desenvolvimento. Estudou na Universidade Técnica de Berlim (Tu Berlin), graduando-se em 2004



Ao completar seus estudos, Kéré concebeu o projeto para primeira Escola Primária em Gando, a pequena aldeia onde nasceu, no sul de seu país. Usando matérias primas locais e arquitetura sustentável, tal projeto ganhou o Prêmio Aga Khan de Arquitetura, em 2004. Possui projetos em Mali, Quênia, Uganda, Alemanha, Iêmen, China e Estados Unidos. Uma das preocupações de Kére em seus projetos é com o meio ambiente. 

Em 2005, conseguiu fundar sua empresa, a Kéré Architecture, com sede em Berlim.



Recebeu prêmios como: Global de Arquitetura Sustentável, em 2009; BSI Swiss Architectural Award, em 2010 e Schelling Architecture Award, em 2014.



Francis Kéré é um arquiteto que se dedica a criar propostas que melhoram as condições de vida das pessoas em comunidades pobres da África, tendo engajamento social

. Em 2017, ele aceitou o cargo de professor de "Design e Participação Arquitetônica" na Universidade Técnica de Munique (Alemanha), no mesmo ano foi convidado a projetar um pavilhão para a prestigiada Serpentine Gallery, em Londres