Sou rato de
templos, mesquitas, catedrais e museus. Qual o queijo me convenceria a
enfrentar a primavera gelada e ensolarada da Noruega senão a curiosidade de conhecer
melhor a obra do Edvald Munch? Para ele “A
arte era considerada como uma arma destinada a lutar contra a sociedade’’ Google dixit. A doença e a morte, a
fragilidade e a transitoriedade da vida marcam sua trajetória.
Claro que
você sabe quem é, o Grito sendo para os países nórdicos o que a Monalisa é para
os latinos. Ao sorriso calmo de uma jovem oponha-se a solidão angustiada de um
ser - homem ou mulher, a ambiguidade contribui – perdido no crepúsculo de uma
ponte que não o levará a parte nenhuma. Outro mistério, eu vi, é explicar isso como
tentava fazer uma professora a um rebanho de criancinhas de sete a dez anos
sentadas no chão da sala escura reservada a dita obra.
Quando
entrei, ás onze horas da manhã em ponto, assim exigia minha reserva, fui
recebido no primeiro andar do recém-inaugurado museu por uma retrospectiva da
portuguesa Paula Rego. Sorte minha já que na antevéspera tinha perdido a Casa
das Histórias em Cascais. No templo de meus ídolos, colocá-la-ia no mesmo altar
que Lucian Freud e que o anfitrião do momento. Contraponto a tantas cansativas
instalações que só servem para masturbar o ego do autor e do curador e que o
vento do esquecimento levará sem remorso. Nem todo mundo é Marcel Duchamp, mas
muitos se acham. Você sabia que tem crítico que só admite analisar uma obra se tiver
texto explicativo acoplado? Não se questiona a contemporaneidade de uma Paula
Rego como é indubitável que sua obra atravessará gerações sem o mínimo
questionamento quanto a sua importância na contribuição para a história da
arte.
Não foi
difícil sair do universo perturbador da portuguesa para mergulhar na angústia
vanguardista do norueguês. Entre tantas obras impactantes, talvez quatro
retratos – uma mulher, três homens – foram as que mais me surpreenderam pela
acuidade em evidenciar o caráter de cada um. Na minha opinião, subjetiva como
toda opinião, talvez somente um Goya tenha chegado a tamanho leitura da alma de
um retratado.
Cultura
cansa e dá fome. Hesitando entre dois andares de exposições, resolvi dar um
tempo e subi até o último piso para almoçar e curtir a vista panorâmica sobre a
pequena capital (menos de setecentos mil habitantes). Pelo menos os arquitetos espanhóis
Herreros e Richter não caíram no erro dos colegas do novo museu arqueológico do
Cairo que colocaram o restaurante no térreo em vez de aproveitar a fabulosa vista
sobre as pirâmides. Desfrutando de meu salmão, pude também usufruir do panorama
de terras delicadamente recortadas pelas águas que muito contribui ao encanto verde
e azul de Oslo.
Dimitri Ganzelevitch
A Tarde, sábao 25 julho 2026
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