sábado, 25 de julho de 2026

O GRITO DE OSLO

                        foto: d. ganzelevitch


Sou rato de templos, mesquitas, catedrais e museus. Qual o queijo me convenceria a enfrentar a primavera gelada e ensolarada da Noruega senão a curiosidade de conhecer melhor a obra do Edvald Munch? Para ele “A arte era considerada como uma arma destinada a lutar contra a sociedade’’ Google dixit. A doença e a morte, a fragilidade e a transitoriedade da vida marcam sua trajetória.

Claro que você sabe quem é, o Grito sendo para os países nórdicos o que a Monalisa é para os latinos. Ao sorriso calmo de uma jovem oponha-se a solidão angustiada de um ser - homem ou mulher, a ambiguidade contribui – perdido no crepúsculo de uma ponte que não o levará a parte nenhuma. Outro mistério, eu vi, é explicar isso como tentava fazer uma professora a um rebanho de criancinhas de sete a dez anos sentadas no chão da sala escura reservada a dita obra.

Quando entrei, ás onze horas da manhã em ponto, assim exigia minha reserva, fui recebido no primeiro andar do recém-inaugurado museu por uma retrospectiva da portuguesa Paula Rego. Sorte minha já que na antevéspera tinha perdido a Casa das Histórias em Cascais. No templo de meus ídolos, colocá-la-ia no mesmo altar que Lucian Freud e que o anfitrião do momento. Contraponto a tantas cansativas instalações que só servem para masturbar o ego do autor e do curador e que o vento do esquecimento levará sem remorso. Nem todo mundo é Marcel Duchamp, mas muitos se acham. Você sabia que tem crítico que só admite analisar uma obra se tiver texto explicativo acoplado? Não se questiona a contemporaneidade de uma Paula Rego como é indubitável que sua obra atravessará gerações sem o mínimo questionamento quanto a sua importância na contribuição para a história da arte.

Não foi difícil sair do universo perturbador da portuguesa para mergulhar na angústia vanguardista do norueguês. Entre tantas obras impactantes, talvez quatro retratos – uma mulher, três homens – foram as que mais me surpreenderam pela acuidade em evidenciar o caráter de cada um. Na minha opinião, subjetiva como toda opinião, talvez somente um Goya tenha chegado a tamanho leitura da alma de um retratado.

Cultura cansa e dá fome. Hesitando entre dois andares de exposições, resolvi dar um tempo e subi até o último piso para almoçar e curtir a vista panorâmica sobre a pequena capital (menos de setecentos mil habitantes). Pelo menos os arquitetos espanhóis Herreros e Richter não caíram no erro dos colegas do novo museu arqueológico do Cairo que colocaram o restaurante no térreo em vez de aproveitar a fabulosa vista sobre as pirâmides. Desfrutando de meu salmão, pude também usufruir do panorama de terras delicadamente recortadas pelas águas que muito contribui ao encanto verde e azul de Oslo. 

Dimitri Ganzelevitch

A Tarde, sábao 25 julho 2026

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