Não quero
nem choro nem vela, nem um monte de outras coisas totalmente descartáveis e
inúteis. Vivi e hei de finar ateu. Assim que de missa, incensos e orações, nem
pensar. De música, um sambinha de roda, uns minutos de Vivaldi e “Je ne regrette
rien” por Edith Piaf. Serei, durante 48 horas, tema de curtos lamentos nas
redes sociais e umas entrelinhas nos jornais locais. A imprensa não precisa de quaisqueres notícias?
Último
desejo. Que ninguém se atreva a escrever, seja onde for, metáforas execravelmente
piegas do tipo “ Foi para outra dimensão”, “Virou estrela” ou “Agora, está em
plano superior”. E muito menos que fui sentar à direita do Senhor. Com o medo
que tenho de alturas, prefiro, de muito, assar lentamente no segundo subsolo de
Hades, de preferência à sua esquerda.
Por favor...
Diga ou escreva simplesmente estas duas palavrinhas: “Dimitri morreu”. É fato.
Igual a tantos trilhões pelo passado e talvez mais pelo futuro, com ajuda dos
Trump, Netanyahu, Bolsonaro, Putin e outros aiatolás. Quem precisa de
planejamento familiar?
Uma coisa é
certa: Nunca terei meu nome substituindo o nome tradicional de algum lugarejo.
Além de minha definitiva insignificância, nada me parece pior que trocar a
nomenclatura original de qualquer cidade pelo nome de algum figuraço do
momento, geralmente político com currículo semeado de buracos negros e logo
esquecido pelos seus moradores.
Ainda choro, sim, que com este
péssimo hábito tenham desaparecido apelações tão poéticas como Quaraçu, Bom
Conselho, Mimosa do Oeste, Vila Paratigi, Traripe, São João de Itanhem ou Perna
Aberta.
Quando eu morrer, que se celebre um
ritual lembrando o Dia de los Muertos mexicano. Um farto almoço com bacalhau e moquecas,
sucos de divinas frutas tropicais, cachaças e batidas. Coloquem acima do buffet
uma foto minha da época áurea, quando tinha cabelo e bem antes de aparecer do
nada esta barriga inconveniente que, sempre e por onde for, me precede.
Durante o tempo que me coube, tentei
não ser totalmente inútil à sociedade que me acolheu, apesar do pavio curto,
língua e escritos acerados. Gostei de viver e aproveitei, o quanto pude, tudo
aquilo que passou por perto de mim ou que, deliberadamente, provoquei.
Ninguém ache que a ideia de virar pó
me seduz, mas a verdade é que curti tão intensamente cada momento, mesmo os
mais pedregosos, que irei embora com a sensação de ter abusado da abundância do
banquete oferecido.
Agora, sejamos claros: não tenho a
mínima intenção de deixar a festa solar. Nunca gostei de sombra. Posso
sussurrar um segredo no seu ouvido? Cientistas anunciaram no princípio do novo
milênio que já nasceu o homem que viverá 150 anos. Estou convencido, por mil
pequenos detalhes, de que este homem sou eu.
Dimitri Ganzelevitch
A Tarde / Sábado 31 de outubro 2026
COMENTÁRIO DO BLOGUEIRO.- A foto ilustrando este texto para minha coluna no jornal baiano A Tarde foi tirada quando me deixei pintar a face em homenagem ao Dia dos Finados de 2025 em Tepotzlan / México.

Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirO seu texto expressa exatamente a minha indignação. Escrevi um livro que traz uma hipótese ficcional, mas de tão boa, bem que poderia ser investigada enquanto ainda estou respirando. "As Cinzas do Grande Conquistador no Novo Mundo" tem tudo para se tornar o próximo "papel higiênico" de pastores, padres, bispos e até mesmo de cardeais e papas.
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