sábado, 31 de outubro de 2026

QUANDO EU MORRER

Não quero nem choro nem vela, nem um monte de outras coisas totalmente descartáveis e inúteis. Vivi e hei de finar ateu. Assim que de missa, incensos e orações, nem pensar. De música, um sambinha de roda, uns minutos de Vivaldi e “Je ne regrette rien” por Edith Piaf. Serei, durante 48 horas, tema de curtos lamentos nas redes sociais e umas entrelinhas nos jornais locais. A imprensa não precisa de quaisqueres notícias?

Último desejo. Que ninguém se atreva a escrever, seja onde for, metáforas execravelmente piegas do tipo “ Foi para outra dimensão”, “Virou estrela” ou “Agora, está em plano superior”. E muito menos que fui sentar à direita do Senhor. Com o medo que tenho de alturas, prefiro, de muito, assar lentamente no segundo subsolo de Hades, de preferência à sua esquerda.

Por favor... Diga ou escreva simplesmente estas duas palavrinhas: “Dimitri morreu”. É fato. Igual a tantos trilhões pelo passado e talvez mais pelo futuro, com ajuda dos Trump, Netanyahu, Bolsonaro, Putin e outros aiatolás. Quem precisa de planejamento familiar?

Uma coisa é certa: Nunca terei meu nome substituindo o nome tradicional de algum lugarejo. Além de minha definitiva insignificância, nada me parece pior que trocar a nomenclatura original de qualquer cidade pelo nome de algum figuraço do momento, geralmente político com currículo semeado de buracos negros e logo esquecido pelos seus moradores.

Ainda choro, sim, que com este péssimo hábito tenham desaparecido apelações tão poéticas como Quaraçu, Bom Conselho, Mimosa do Oeste, Vila Paratigi, Traripe, São João de Itanhem ou Perna Aberta.

Quando eu morrer, que se celebre um ritual lembrando o Dia de los Muertos mexicano. Um farto almoço com bacalhau e moquecas, sucos de divinas frutas tropicais, cachaças e batidas. Coloquem acima do buffet uma foto minha da época áurea, quando tinha cabelo e bem antes de aparecer do nada esta barriga inconveniente que, sempre e por onde for, me precede.

Durante o tempo que me coube, tentei não ser totalmente inútil à sociedade que me acolheu, apesar do pavio curto, língua e escritos acerados. Gostei de viver e aproveitei, o quanto pude, tudo aquilo que passou por perto de mim ou que, deliberadamente, provoquei.

Ninguém ache que a ideia de virar pó me seduz, mas a verdade é que curti tão intensamente cada momento, mesmo os mais pedregosos, que irei embora com a sensação de ter abusado da abundância do banquete oferecido.

Agora, sejamos claros: não tenho a mínima intenção de deixar a festa solar. Nunca gostei de sombra. Posso sussurrar um segredo no seu ouvido? Cientistas anunciaram no princípio do novo milênio que já nasceu o homem que viverá 150 anos. Estou convencido, por mil pequenos detalhes, de que este homem sou eu.

Dimitri Ganzelevitch

A Tarde / Sábado 31 de outubro 2026

COMENTÁRIO DO BLOGUEIRO.- A foto ilustrando este texto para minha coluna no jornal baiano A Tarde foi tirada quando me deixei pintar a face em homenagem ao Dia dos Finados de 2025 em Tepotzlan / México. 

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. O seu texto expressa exatamente a minha indignação. Escrevi um livro que traz uma hipótese ficcional, mas de tão boa, bem que poderia ser investigada enquanto ainda estou respirando. "As Cinzas do Grande Conquistador no Novo Mundo" tem tudo para se tornar o próximo "papel higiênico" de pastores, padres, bispos e até mesmo de cardeais e papas.

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