quinta-feira, 28 de outubro de 2021
quarta-feira, 27 de outubro de 2021
MAIS UMA CACHACINHA!
A cada texto publicado neste centenário jornal, recebo comentários, geralmente elogiosos, o que é ótimo para meu ego.
Mas em 2 de
outubro passado, um anônimo escreveu no meu blog: “Acho o senhor muito chato
quando toma uma cachaça na intenção da reforma do centro histórico”. Confesso
ter dado uma bela risada. Só faltou dar a marca da tal.
Bem, aqui estou, novamente com minha cachaça, a me queixar do eterno pas-de-deux do IPHAN com a Prefeitura. Ambos adoram, geralmente na calada da noite, derrubar velhos casarões.
Mas era sem
contar com a (conveniente) burocracia da SEDUR. Na segunda-feira 25, no
princípio desta semana, uma empresa concretizou o vandalismo sem mais demora,
com o aval da Fundação Mário Leal Ferreira que, em 24 anos de existência, ainda
nada entendeu do centro histórico de Salvador.
Estamos no
direito de saber, e de forma transparente, se não é pedir muito, cinco pontos. Quem
teve conhecimento do orçamento da obra? Porque o IPHAN mudou de decisão? Porque
a SEDUR não considerou a segunda decisão do IPHAN? Quanto custou aos cofres
públicos ou, em outros termos, quanto ganhou a empresa nesta inútil empreitada?
Como foi escolhida?
O topo da
pirâmide continua ignorando seu compromisso social com os princípios
elementares da democracia. Muito se fala em transparência, mas é só para
permitir a boiada passar.
Também não
se entende o papel do IPAC neste caso. Nada tem a opinar? Pelas informações
obtidas, a proprietária de mais dois imóveis vizinhos não tem a mínima condição
financeira de restaurá-los. A desapropriação seria, portanto, a medida certa
para salvar este patrimônio.
É evidente
que as obras (inacabadas até hoje) da CONDER nesta rua, com retroescavadeiras,
marteletes, betoneiras e caminhões durante um ano e meio, com altíssimo nível
de vibrações, só podiam prejudicar o casario do antigo bairro. Não será difícil
adivinhar que outros problemas e acidentes advirão a curto e médio prazo.
Para quem se
preocupa com o abandono do patrimônio cultural e artístico da capital e do
resto do estado, as perspectivas são alarmantes. E não é uma ou outra veleidade
pontual, mal projetada e mal executada que irá nos confortar.
Dimitri Ganzelevitch
A Tarde, sábado 30 de outubro 2021
O EDIFÍCIO CAPANEMA...
...e o acervo de Lúcio Costa
Por Rosana Miranda
Os últimos acontecimentos relacionados à transferência de acervos de dois grandes arquitetos brasileiros Paulo Mendes da Rocha e Lúcio Costa para a Casa de Arquitetura de Portugal, colocou em cheque o destino futuro das documentações de arquitetura brasileira e sua importância para a formação cultural de nosso país, quando elas ficam restritas à decisão do âmbito privado.
São patrimônio material enquanto acervo, e imaterial enquanto pensamento representante da cultura de um povo.
Soma-se a este fato a notícia recente da possibilidade de venda do próprio edifício Gustavo Capanema como se este fosse apenas mais um edifício público vazio sem a menor importância cultural.
O corre que as razões noticiadas que levaram à doação do acervo de Lúcio Costa para Portugal, que antes era abrigado pelo Instituto Tom Jobim, foi a falta de um lugar adequado e de pessoal para a preservação daquele acervo, apesar de seu site realizado com apoio da CEF e Petrobras, ser um dos mais adequados e fáceis de consulta no campo da arquitetura.
O Brasil perdeu um pedaço da obra e pensamento da sua mais expressiva personalidade que marcou a entrada do Brasil na modernidade.
Evidente que a digitalização e a disponibilização por meio virtual garante algum tipo de acesso a documentos. Mas, muito diferente é ver a linguagem, a textura e a qualidade de desenhos feitos à mão de um profundo conhecedor da arquitetura e cultura brasileiras.
Os brasileiros perderam os documentos da trajetória do brasileiro que projetou Brasília e que dedicou a sua vida a cuidar da beleza do nosso patrimônio como diretor do IPHAN, órgão que funcionou até pouco tempo no próprio edifício Capanema.

Esse edifício foi projetado por Lúcio Costa e construído entre os anos de 1937 e 1943, para ser o berço da educação e cultura no país como sede do Ministério da Educação e Cultura, exemplo da arquitetura moderna e situado na cidade que foi a capital da República até sua transferência a Brasília.
O Rio de Janeiro é também a cidade da antiga Escola Nacional de Belas Artes onde dirigiu e lecionou Lúcio Costa, hoje ligada à UFRJ, e assim, a cidade pode vir a ser a casa dos arquitetos brasileiros.
A ideia de transformar o edifício Gustavo Capanema no local do Centro de Documentação da Arquitetura e Urbanismo Brasileiros é uma ideia latente que vem circulando entre alguns arquitetos pelas redes sociais desde que se anunciou a venda do edifício, e, mais ainda agora com a travessia do Atlântico do acervo de Lúcio Costa.
Essa é uma proposta que deveria ser fruto de uma parceria de gestão entre o poder público e as instituições afetas à guarda e pesquisa de nosso patrimônio arquitetônico. Entre elas destaco o IPHAN, a UFRJ, IAB, O CAU, a Biblioteca Nacional, o Arquivo Nacional e a Cidade do Rio de Janeiro, e a filiação e apoio de todas as faculdades de arquitetura públicas ou privadas do país.
