terça-feira, 1 de setembro de 2026

OS 50 ANOS DO MUSEU DO PONTAL

 

Por
Carolina Torres
— Rio de Janeiro

Obra de Mestre Vitalino no acervo do Museu do Pontal, que terá show de Lia de Itamaracá

Quando se encantou por esculturas de Mestre Vitalino e de outros artistas de Caruaru (PE) em 1951, o pintor francês Jacques Van de Beuque (1922-2000), recém-chegado ao Brasil, não poderia imaginar o que se tornaria a coleção de arte popular que começava ao adquirir algumas obras do grupo. Em 1976, o acervo — então já com cerca de quatro mil obras — estava abrigado num sítio no Recreio e passou a ser visitável, dando início ao Museu do Pontal, que neste fim de semana comemora 50 anos de História e cinco da nova sede, na Barra, com mais de dez mil peças de 300 artistas de 23 estados brasileiros.

    Para celebrar o duplo marco, os diretores e curadores Lucas Van de Beuque e Angela Mascelani (neto e nora de Jacques), preparam um grande festival gratuito — como tudo que acontece no espaço —, com shows de nomes como Lia de Itamaracá, Siba e Mestre Solano; apresentação de grupos de expressões populares, do bumba meu boi a bate-bolas; visitas guiadas, entre outras atividades, além da inauguração de mostra de Véio (Cícero Alves dos Santos), premiado escultor sergipano.

    Obras de Mestre Vitalino que integram o acervo do Museu do Pontal — Foto: Custódio Coimbra
    Obras de Mestre Vitalino que integram o acervo do Museu do Pontal — Foto: Custódio Coimbra

    — A gente está chamando internamente de “festival dos festivais” — conta Lucas. — Esse vai ser o 17º em cinco anos. Já tivemos festival circense, indígena, amazônico... Vamos reunir um pouco disso tudo.

    Visitada por mais de 400 mil pessoas, a nova sede foi pensada justamente para receber eventos. Após anos de lutas contra inundações que passaram a acometer o museu antigo a partir de 2011, os diretores decidiram ampliar o projeto inicial de Jacques. Mantendo a convergência entre arte e natureza, Angela e Lucas apostaram num conceito de museu-praça, tornando a bonita área externa, bem maior na Barra, em um espaço de convivência com agenda intensa de manifestações culturais.

    Entrada da antiga sede do Museu do Pontal. Casa foi fundada em 1976 — Foto: Ana Branco/Agência O Globo
    Entrada da antiga sede do Museu do Pontal. Casa foi fundada em 1976 — Foto: Ana Branco/Agência O Globo

    — Temos três vezes mais visitantes do que na antiga sede. Com os eventos, demos um jeito de fazer com que as pessoas frequentem sempre o museu — conta Lucas, que celebra a relação afetiva do público com o espaço. — Na última festa junina, uma pessoa nos contou que nomeou a filha de Lia porque assistiu à Lia de Itamaracá no nosso primeiro arraiá, em 2022.

    Homenageada da festa junina inaugural, que depois virou tradição, a cirandeira pernambucana é um dos destaques do “festival dos festivais”. Outra atração, que também faz referência à trajetória do museu, é a nova exposição “Véio – A escuta do sertão” (abertura sábado, às 15h30, com presença do artista). Presente na coleção de Jacques desde a década de 1970, o artista de 79 anos ganha uma de suas maiores retrospectivas, dividida em cinco núcleos que abrangem 60 anos de produção, que vai de esculturas figurativas a abstratas, feitas com troncos, raízes e galhos.

    A festa junina do Museu do pontal já se tornou uma tradição na região — Foto: Divulgação/Ratão Diniz
    A festa junina do Museu do pontal já se tornou uma tradição na região — Foto: Divulgação/Ratão Diniz

    Para chegar à seleção de 300 peças, os curadores fizeram um mapeamento, que revelou mais de 650 obras em 50 coleções. O extenso processo de pesquisa está aliado ao objetivo de exaltar trajetórias dos artistas de camadas populares. Em 2024, o Pontal realizou a primeira exposição panorâmica do xilógrafo e poeta J. Borges pouco antes de sua morte, aos 88 anos. Também já foram celebradas produções de nomes como Sérgio Vidal, Jair Gabriel, Roxinha e Marcelo Conceição.

    — Esses artistas precisam ter esse registro. Às vezes suas obras até são conhecidas, mas sua visão artística não. O museu também foca nesse reconhecimento de autoria. Como grupos invisibilizados, esses artistas foram apropriados. Hoje, são reverenciados. Esse é um papel importante que o museu vem cumprindo há 50 anos — comenta Angela.

    Obra de Véio que em cartaz no Museu do Pontal — Foto: Germana Monte
    Obra de Véio que em cartaz no Museu do Pontal — Foto: Germana Monte

    Além de mapeamento e aquisição de obras, os curadores também produzem filmes — dois deles, “Artistas cazumbas” e “José Bezerra, artista”, estão na programação do festival. Até então, já foram 23 exposições, dentre elas o sucesso “Festas, sambas e outros carnavais”, a maior já feita, vista por mais 100 mil visitantes desde o ano passado e prorrogada por tempo indeterminado. E a ideia é seguir nesse ritmo.

    — Um museu de arte dedicado a artistas das camadas populares, um museu vivo, museu-praça. Essas são as características principais do Pontal — finaliza Lucas.

    Linha do tempo

    1951
    Jacques conhece Mestre Vitalino e outros artistas de Caruaru e inicia a coleção.
    1974
    Aquisição do sítio no Recreio para abrigar o acervo.
    1976
    Grande exposição de arte popular no MAM, com acervo e curadoria de Jacques. No mesmo ano, o Museu Casa do Pontal abre as portas ao público.
    2009
    O museu passa a receber exposições temporárias.
    2011
    Após uma série de obras no entorno, começam inundações recorrentes.
    2016
    Tem início a construção da nova sede.
    2020
    Para iniciar a transferência de seu acervo, o antigo espaço fecha as portas.
    2021
    Abre a nova sede. No ano seguinte, ocorre o primeiro Arraiá.
    2026
    Celebração de 50 anos de fundação e cinco da sede.

    Destaques da programação

    Sábado (29)

    • 11h30: Capoeira com Mestre Feinho
    • 14h30: Exibição de “José Bezerra, artista”
    • 15h: Show de Zé Bezerra + Trio Pernambucano
    • 15h30: Abertura da exposição “Véio”
    • 17h30: Bate-bolas Brilhetes de Anchieta
    • 18h: Show de Siba
    • 19h30: Edmilson dos Teclados
    • 20h15: Lia de Itamaracá com Quarteto da Ciranda

    Lia de Itamaracá — Foto: Divulgação/Ytallo Barreto
    Lia de Itamaracá — Foto: Divulgação/Ytallo Barreto

    Domingo (30)

    • 11h: Artista circense Horácio Storani
    • 13h15: Exibição de “Artistas cazumbas”
    • 13h45: Boi Muleque Garboso
    • 15h30: Mestre Solano com Noites do Norte
    • 17h: Aturiá
    • 18h30: Trio Forrozão

    Os dois dias terão visitas musicadas e oficinas, sujeitas a lotação.

    Para chegar: O estacionamento estará fechado. Haverá vans gratuitas de ida e volta, saindo do metrô Jardim Oceânico (acesso A - Lagoa), com paradas no New York City Center (ponto dos condomínios) e no estacionamento do Terminal Alvorada. Saídas entre 10h e 19h30 (sáb) e 10h e 18h30 (dom).

    Serviço

    Onde: Av. Célia Ribeiro da Silva Mendes 3.300, Barra. Festival: Sáb (29), das 10h às 22h. Dom (30), das 10h às 20h. Visitação: Qui a dom, das 10h às 18h. Quanto: grátis, com contribuição voluntária.

    O BAIXO SOLDO DOS SOLDADOS

     Enquanto militares da base recorrem ao Uber e trabalham como garçons para fechar as contas, proposta de reajuste chega ao Senado e expõe abismo nos quartéis: o mesmo adicional rende R$ 58,85 na base e mais de R$ 6 mil no topo

    Proposta de reajuste dos militares avança no Senado enquanto relatos de praças fazendo Uber e trabalhando como garçons expõem pressão financeira, e regras de remuneração mostram que o adicional pode variar de R$ 58,85 a mais de R$ 6 mil.

    Alisson Ficher

    Enquanto militares da base recorrem ao Uber e trabalham como garçons para fechar as contas, proposta de reajuste chega ao Senado e expõe abismo nos quartéis: o mesmo adicional rende R$ 58,85 na base e mais de R$ 6 mil no topo

    Proposta de reajuste dos militares avança no Senado e expõe contraste: adicional vai de R$ 58,85 na base a mais de R$ 6 mil no topo. - Imagem: Reprodução

    Relatos de soldados, cabos e sargentos trabalhando como motoristas de aplicativo para complementar a renda, além de casos de militares da reserva e reformados atuando como garçons, vigias e em outras atividades, vêm alimentando uma discussão que agora ganhou um novo capítulo em Brasília.

    Uma proposta que pede valorização dos soldos, recomposição das perdas inflacionárias e reajustes periódicos para os militares das Forças Armadas deixou de ser apenas uma ideia popular e passou oficialmente a tramitar no Senado.

    A iniciativa foi transformada na Sugestão Legislativa 29/2026, chegou à Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa em 7 de agosto e, no dia 18, foi entregue ao senador Styvenson Valentim para elaboração de relatório.

    Por trás da pressão salarial está uma estrutura remuneratória na qual a distância entre a base e o topo vai muito além do soldo.

    Um dos exemplos mais claros aparece no Adicional de Compensação por Disponibilidade Militar.

    No caso de um recruta com soldo de R$ 1.177, o percentual legal de 5% corresponde a R$ 58,85.

    Já um general de Exército, almirante de esquadra ou tenente-brigadeiro do ar recebe percentual de 41% sobre soldo de R$ 14.711, o equivalente a R$ 6.031,51.

    Trata-se da mesma parcela remuneratória, mas não do mesmo percentual: a própria legislação estabelece índices diferentes conforme o posto ou a graduação.

    Mais de 20 mil apoios levaram reivindicação ao Senado

    A mobilização começou no portal e-Cidadania com a proposta intitulada “Valorização do Soldo dos Militares das FFAA e Reajuste Anual Inflacionário”.

    A iniciativa alcançou 20.331 apoios, ultrapassando o número necessário para ser encaminhada ao Senado como sugestão legislativa.

    O texto pede a criação de um mecanismo para atualizar periodicamente o soldo-base dos militares.

    Também propõe um reajuste complementar destinado a compensar inflação que, segundo os autores, não teria sido integralmente coberta pelas correções anteriores.

    Outro ponto pede que índices de aumento concedidos aos servidores públicos civis federais sejam aplicados simultaneamente aos militares.

    Para as graduações iniciais, como recrutas e soldados, a proposta é ainda mais específica: garantir que o soldo permaneça com margem real acima do salário mínimo nacional.

    A ideia, porém, não equivale a um reajuste aprovado.

    A SUG 29/2026 está em tramitação na CDH. Styvenson Valentim deverá apresentar relatório, e caberá à comissão decidir o destino da sugestão.

    Soldo vai de R$ 1.177 a R$ 14.711

    A tabela em vigor desde janeiro de 2026 já apresenta uma grande diferença entre os extremos da carreira.

    Um marinheiro-recruta, recruta ou soldado-recruta possui soldo de R$ 1.177.

    O terceiro-sargento recebe R$ 4.177.

    O segundo-sargento chega a R$ 5.209, enquanto o primeiro-sargento recebe R$ 5.988.

    Um suboficial ou subtenente alcança R$ 6.737.

    Entre os oficiais, um capitão recebe R$ 9.976, um major R$ 12.108 e um coronel R$ 12.505.

    No topo, um general de Exército, almirante de esquadra ou tenente-brigadeiro recebe R$ 14.711.

    Somente nessa tabela, a distância entre o recruta e o posto mais elevado é de aproximadamente 12,5 vezes.

    O soldo, entretanto, é apenas o ponto de partida.

    O mesmo adicional acrescenta R$ 58,85 na base e R$ 6.031,51 no topo

    O Adicional de Compensação por Disponibilidade Militar foi criado pela reforma do sistema de proteção social dos militares.

    A parcela remunera características próprias da profissão, especialmente a disponibilidade permanente e a dedicação exclusiva.

    O percentual varia conforme a posição hierárquica.

    No topo, almirantes de esquadra, generais de Exército e tenentes-brigadeiros recebem 41%.

    Coronéis e capitães de mar e guerra ficam em 32%.

    Majores recebem 20%, capitães 12%, enquanto diversas posições iniciais permanecem na faixa de 5%.

    É justamente a combinação entre percentuais diferentes e soldos diferentes que produz o contraste.

    Cinco por cento de R$ 1.177 resultam em R$ 58,85.

    Quarenta e um por cento de R$ 14.711 resultam em R$ 6.031,51.

    Isso significa que somente esse adicional recebido no topo supera o soldo integral de R$ 5.988 de um primeiro-sargento.

    A comparação não representa o contracheque completo de todos os militares. Cursos, funções, gratificações, condições especiais e descontos alteram os valores individuais.

    Ela demonstra, porém, como uma mesma rubrica remuneratória pode produzir resultados drasticamente diferentes ao longo da hierarquia.

    Dados do próprio Exército mostram diferença ainda maior no pagamento bruto

    Há um dado oficial que amplia a dimensão dessa distância.

    O Comando do Exército publica informações sobre a remuneração bruta média efetivamente registrada em cada posto e graduação.

    Na posição de abril de 2026, um recruta apresentava remuneração bruta média de R$ 1.303,61.

    Um cabo engajado aparecia com R$ 3.929,58.

    O terceiro-sargento alcançava R$ 6.077,95; o segundo-sargento, R$ 9.195,40; o primeiro-sargento, R$ 11.401,69; e o subtenente, R$ 15.094,80.

    No oficialato, a média chegava a R$ 24.786,73 para major, R$ 28.441,99 para coronel e R$ 41.633,48 para general de Exército.

    Na prática, isso coloca a remuneração bruta média registrada no topo em cerca de 32 vezes a média observada para o recruta.

    É importante não interpretar esses números como uma tabela salarial fixa.

    O próprio documento do Exército mostra que a remuneração média é formada por soldo e diferentes parcelas, como adicionais de habilitação, disponibilidade, representação e outras vantagens que dependem da situação funcional.

    Um general de Exército, por exemplo, aparece com média de R$ 41.633,48, mas isso não significa que todo general receba exatamente esse valor.

    Da mesma forma, os R$ 1.303,61 são uma média bruta para a categoria registrada, antes dos descontos.

    Recruta continua abaixo do salário mínimo no soldo

    Outro ponto utilizado pelos apoiadores da proposta aparece na comparação com o salário mínimo.

    Desde janeiro de 2026, o mínimo nacional está fixado em R$ 1.621.

    O soldo de R$ 1.177 de um recruta fica, portanto, R$ 444 abaixo desse valor.

    Mesmo adicionando isoladamente os R$ 58,85 correspondentes aos 5% de disponibilidade, o resultado seria de R$ 1.235,85.

    A comparação exige uma ressalva.

    O serviço militar possui regime jurídico próprio e não funciona como uma relação trabalhista comum regida pelas mesmas regras aplicadas ao emprego civil.

    Militares também podem receber alimentação, fardamento, assistência médico-hospitalar e, dependendo da situação, alojamento e outras estruturas fornecidas pela instituição.

    Ainda assim, é justamente a distância monetária entre soldo e salário mínimo que levou a proposta do e-Cidadania a pedir proteção específica para as graduações iniciais.

    Soldos já foram reajustados antes da nova pressão

    A reivindicação chegou ao Senado mesmo depois de uma atualização recente da tabela.

    A Lei nº 15.167 estabeleceu aumentos em etapas, com efeitos financeiros em abril de 2025 e uma nova tabela a partir de 1º de janeiro de 2026.

    No topo, o soldo passou de R$ 13.471 para R$ 14.711.

    Para o terceiro-sargento, foi de R$ 3.825 para R$ 4.177.

    O soldo do recruta passou de R$ 1.078 para R$ 1.177.

    A existência da SUG 29/2026, portanto, não significa que os militares tenham ficado sem reajuste recente.

    O argumento dos apoiadores é outro: criar um mecanismo permanente de correção, vinculado à preservação do poder de compra, em vez de depender exclusivamente de reajustes pontuais aprovados em determinados momentos.

    Uber e garçom colocaram contracheque fora dos quartéis

    Foi fora das tabelas oficiais que a discussão ganhou sua face mais sensível.

    Em maio, o Sociedade Militar publicou relatos envolvendo militares da Marinha, Exército e Aeronáutica que procuraram outras atividades para complementar a renda.

    Entre os episódios estavam o de um suboficial reformado trabalhando como motorista de aplicativo e o de um segundo-sargento RM1 atuando como garçom.

    Também foram mencionados trabalhos como vigia e outras atividades paralelas.

    Posteriormente, outra reportagem do site reuniu relatos específicos de soldados, cabos e sargentos fazendo Uber ou procurando outros bicos para aumentar a renda familiar.

    Até salário dos generais já provocou discussão pública

    A insatisfação não aparece exclusivamente na base.

    Em setembro de 2025, durante audiência no Senado, o então ministro da Defesa José Múcio Monteiro também reclamou da remuneração dos integrantes do topo da carreira.

    Ao defender as Forças Armadas, Múcio afirmou que um general, após cerca de 50 anos de serviço, iria para casa recebendo aproximadamente R$ 24 mil, citando ainda as constantes transferências e seus impactos sobre a vida familiar.

    A fala provocou reação de militares e familiares.

    Comentários posteriormente reunidos pelo Sociedade Militar questionaram a ênfase dada aos generais e citaram justamente soldados, cabos e sargentos trabalhando como motoristas de aplicativo.

    O episódio mostrou que a discussão remuneratória atravessa diferentes níveis da hierarquia, mas é percebida de maneiras muito distintas dependendo da posição ocupada.

    Cursos e carreira aumentam ainda mais as diferenças

    O adicional de disponibilidade também não é a única parcela capaz de separar soldo de remuneração final.

    O documento oficial do Exército mostra forte peso do adicional de habilitação, relacionado aos cursos realizados ao longo da carreira.

    Em abril, a média dessa parcela aparecia em apenas R$ 5,69 no grupo dos recrutas, enquanto alcançava R$ 10.739,03 entre generais de Exército, considerando a média dos militares daquele posto apresentada na tabela.

    Há ainda adicional militar, gratificação de representação, adicional de permanência, compensações associadas a determinadas atividades e gratificações ligadas à localidade.

    Isso ajuda a explicar por que olhar somente para os R$ 14.711 do general ou para os R$ 6.737 do subtenente não revela o valor médio efetivamente pago.

    Também explica por que a distância observada na folha pode ser bem maior do que aquela sugerida pela tabela básica de soldos.

    Agora a reivindicação está nas mãos de um relator

    A principal novidade de agosto está justamente no caminho institucional da reivindicação.

    Quando a mobilização ultrapassou os 20 mil apoios, ela ainda era uma ideia apresentada por uma cidadã no e-Cidadania.

    Agora, a proposta tem número próprio no Senado, SUG 29/2026, está formalmente na Comissão de Direitos Humanos e possui um senador responsável por elaborar relatório.

    Até o momento, não houve aprovação de reajuste, criação de correção automática nem mudança na remuneração dos militares.

    O que mudou foi o estágio da discussão.

    Enquanto relatos de integrantes da base continuam expondo militares procurando renda complementar fora dos quartéis, o Senado passa a analisar uma reivindicação que pede justamente mudanças permanentes no sistema de reajuste.

    E os números oficiais ajudam a mostrar por que o assunto provoca tanta discussão: entre os extremos da carreira, o mesmo adicional previsto em lei pode significar R$ 58,85 para um recruta e R$ 6.031,51 no topo, enquanto a remuneração bruta média divulgada pelo próprio Exército vai de R$ 1.303,61 a R$ 41.633,48.


    DEPUTADOS INVESTIGADOS

     Deputados investigados no STF ampliam patrimônio em R$ 33,9 milhões

    Os parlamentares aparecem em investigações conduzidas pela Polícia Federal entre 2020 e 2026

    Laís GouveiaPublicado em 24 de agosto de 2026 

    212

    Sóstenes CavalcanteSóstenes Cavalcante

    247 – Nove deputados federais investigados em processos no Supremo Tribunal Federal (STF) registraram, em conjunto, aumento de R$ 33,9 milhões no patrimônio declarado à Justiça Eleitoral entre 2022 e 2026. Levantamento publicado pelo UOL nesta segunda-feira (24), com base nos registros de candidatura apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostra que o maior crescimento foi o do deputado Fernando Coelho Filho (União Brasil-PE), cujos bens aumentaram R$ 13,3 milhões no período.

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    Os parlamentares aparecem em investigações conduzidas pela Polícia Federal entre 2020 e 2026 envolvendo suspeitas de desvios de emendas parlamentares, irregularidades em licitações e uso da cota parlamentar. Os procedimentos chegam ao Supremo em razão do foro por prerrogativa de função. Como parte dos processos tramita sob sigilo, o levantamento considerou deputados que já tiveram a participação nas apurações tornada pública por operações policiais ou pedidos formulados pela PF.

    Integram a relação Carlos Jordy (PL-RJ), Dal Barreto (União Brasil-BA), Elmar Nascimento (União Brasil-BA), Félix Mendonça Júnior (PDT-BA), Fernando Coelho Filho (União Brasil-PE), Júnior Mano (PSB-CE), Juscelino Filho (União Brasil-MA), Pastor Gil (PL-MA) e Sóstenes Cavalcante (PL-RJ). A maior parte disputa a reeleição em 2026. Jordy concorre ao Senado pelo Rio de Janeiro, enquanto Júnior Mano é candidato a primeiro suplente de senador na chapa de Cid Gomes (PSB).

    Fernando Coelho Filho lidera a expansão patrimonial registrada no grupo. Em 2022, o deputado declarou R$ 3,7 milhões em bens. Neste ano, o valor passou a R$ 17,1 milhões, avanço de aproximadamente 362%. A declaração mais recente inclui ações, direitos creditórios, imóvel e veículo. Coelho Filho e seu pai, o ex-senador Fernando Bezerra Coelho, foram alvos da Polícia Federal em fevereiro deste ano em uma investigação sobre suspeitas relacionadas a emendas destinadas a Petrolina, em Pernambuco, e possíveis fraudes em licitações.

    Outro crescimento expressivo aparece nas declarações de Dal Barreto. O deputado do União Brasil declarou R$ 7,3 milhões em 2022 e R$ 14,7 milhões em 2026, praticamente dobrando o patrimônio informado à Justiça Eleitoral. Entre os bens estão terrenos, participações empresariais e investimentos. Barreto foi alvo da sexta fase da Operação Overclean, deflagrada em outubro de 2025, quando a PF apreendeu seu telefone celular em uma investigação sobre suspeitas de fraude em licitações e desvio de emendas.

    Também investigado no âmbito da Operação Overclean, Elmar Nascimento passou de R$ 2,5 milhões em patrimônio declarado em 2022 para R$ 8,5 milhões neste ano. A relação de bens apresentada à Justiça Eleitoral inclui imóveis, um jet-ski e um quadriciclo. O deputado não foi alvo direto de mandado na quinta fase da operação, mas integrantes de sua família foram alcançados pelas medidas determinadas na investigação.

    Pastor Gil está entre os parlamentares incluídos no levantamento e já foi condenado pela Primeira Turma do STF em uma ação penal relacionada ao desvio de emendas. Em março de 2026, o colegiado condenou por unanimidade Gil e Josimar Maranhãozinho (PL-MA), entre outros réus, por corrupção passiva. A decisão ainda está sujeita a recursos e não transitou em julgado. O patrimônio declarado por Pastor Gil aumentou R$ 552 mil entre as duas eleições. Em 2026, ele informou possuir imóvel, terreno, veículo, aplicações financeiras, saldo bancário e R$ 100 mil em espécie.

    No Rio de Janeiro, Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, e Carlos Jordy foram alvos da Operação Galho Fraco, realizada pela Polícia Federal em dezembro de 2025 e relacionada ao uso da cota parlamentar. Na ocasião, policiais apreenderam cerca de R$ 470 mil em um flat utilizado por Sóstenes. O deputado afirmou, à época, que o dinheiro tinha origem na venda de um imóvel em Minas Gerais.

    Sóstenes havia declarado cerca de R$ 5 mil em recursos bancários em 2022. Na eleição deste ano, apresentou patrimônio cerca de R$ 595 mil superior, incluindo R$ 500 mil em espécie vinculados à venda do imóvel e um terreno de R$ 100 mil em Brasília.

    Carlos Jordy, por sua vez, registrou crescimento de R$ 982 mil. Entre os bens informados em 2026 está um apartamento em Niterói avaliado em R$ 1 milhão, adquirido com entrada de R$ 321 mil e financiamento pelo prazo de 35 anos, além de R$ 33 mil em aplicações de renda fixa. Em 2022, o deputado havia informado patrimônio total de R$ 122 mil.

    Júnior Mano declarou R$ 371 mil em bens quando disputou a eleição de 2022, ainda filiado ao PL. Agora no PSB, o parlamentar informou R$ 997 mil, aumento de R$ 625,8 mil. Ele não disputa novo mandato de deputado federal: concorre como primeiro suplente de Cid Gomes na eleição para o Senado pelo Ceará.

    Juscelino Filho, ex-ministro das Comunicações, apresentou a menor variação nominal entre os nomes destacados pelo levantamento: R$ 163,4 mil. O patrimônio declarado por ele em 2026 é de R$ 4,6 milhões. O parlamentar já foi alvo de desdobramentos das operações Odoacro e Benesse, que investigam suspeitas de desvios de emendas, irregularidades em licitações e corrupção em contratos de pavimentação no município maranhense de Vitorino Freire.

    Cristiano Pavini, coordenador de projetos da Transparência Brasil, afirmou ao UOL que variações expressivas precisam ser justificadas e podem funcionar como elemento de atenção para órgãos responsáveis pela fiscalização. Segundo ele, esquemas de desvio de recursos públicos podem utilizar valores “camuflados” e “laranjas”, além de empresas de fachada e contratos informais.

    Pavini também chama atenção para o que a Transparência Brasil denomina “emendas paralelas”: recursos aprovados pelo Congresso e incorporados ao Orçamento de forma que deixam de carregar os mecanismos usuais de identificação associados às emendas parlamentares. Ao explicar o risco de perda de rastreabilidade, afirmou: “Não são mais emendas, mas os parlamentares tratam como se fossem”.

    Em resposta à reportagem, Dal Barreto atribuiu a evolução de seu patrimônio à atividade empresarial, afirmou que os bens foram adquiridos de forma lícita e devidamente declarados e informou estar à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos. Félix Mendonça Júnior, por sua vez, disse que o crescimento patrimonial decorreu de uma herança de R$ 4,6 milhões recebida após a morte do pai, em 2020, e declarada à Receita Federal.

    Carlos Jordy, Elmar Nascimento, Fernando Coelho Filho, Júnior Mano, Juscelino Filho, Pastor Gil e Sóstenes Cavalcante também foram procurados pelo UOL, mas não haviam apresentado resposta até a atualização da reportagem publicada na manhã desta segunda-feira.