Presidente Lula:
Como decano do movimento LGBT brasileiro, embora crítico ao PT e ao lulismo, declarei no vídeo que divulguei antes de sua vitória declarei: “Eu não sou petista nem lulista mas vou votar no 13 porque Lula é hoje a salvação da pátria contra a barbárie ”. Meu voto foi um compromisso com a democracia e com a esperança de que nossa cidadania deixasse de conviver com o medo.
Reconheço: o senhor foi o presidente do Brasil que mais falou e defendeu a cidadania LGBT. Mas sua condição de simpatizante e aliado gay-friendly, não bastou para enfrentar nossa principal tragédia: a violência que ameaça milhões de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. A solidariedade presidencial precisa se transformar em proteção efetiva à vida.
Segundo dados do Grupo Gay da Bahia, o Brasil permanece campeão mundial de mortes violentas de LGBT. Em 2025, foram documentadas 257 mortes, entre homicídios e suicídios: uma a cada 34 horas! Esses números têm nome, rosto, família e uma vida interrompida. A pequena redução em relação ao ano anterior merece registro, mas não autoriza acomodação diante de uma tragédia persistente.
São números reunidos num trabalho beneditino pelo GGB, organização que fundei em 1980. Continuamos realizando uma tarefa obrigatória do poder público. Precisamos de estatísticas oficiais sistemáticas sobre as vítimas e de conhecer a população que se pretende proteger. O Censo de 2022 não investigou orientação sexual nem identidade de gênero. Cabe ao seu governo garantir que essa invisibilidade seja superada nas pesquisas demográficas.
Minha segunda cobrança é a punição severa dos crimes de homofobia e transfobia, enquadrados pelo STF, em 2019, na Lei do Racismo. A decisão histórica precisa chegar às delegacias, às investigações e aos tribunais. Denúncias devem ser acolhidas, a motivação discriminatória apurada e os responsáveis punidos. A impunidade transmite aos agressores uma mensagem de tolerância estatal.
Terceiro: políticas públicas eficientes, cientificamente planejadas, com orçamento, metas e avaliação de resultados. A violência começa dentro de casa, na humilhação e na expulsão familiar; continua na escola, no trabalho e nas instituições que deveriam amparar. É preciso prevenir o abandono, acolher quem perdeu o lar e garantir educação, saúde, trabalho e segurança.
Presidente, nossa sobrevivência exige coordenação federal com estados e municípios e participação das organizações LGBT. Quem sofre violência não pode esperar o próximo discurso. O apoio que lhe dei autoriza esta cobrança: transforme sua defesa da cidadania em ação capaz de impedir a próxima morte. A hora de agir é hoje.
.Luiz Mott
A TARDE, 30.10.2026

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