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Por Samuel Pinusa, g1 CE
A Prefeitura de São Gonçalo do Amarante, no Ceará, afirmou que a obra da estátua do Diabo construída na Taíba é regular e obedeceu à legislação municipal. O monumento possui 11 metros de altura e fica localizado no templo Palácio Estrela Negra da Quimbanda (conheça mais sobre a quimbanda abaixo).
A prefeitura informou que a emissão da Licença Ambiental e do Alvará de Construção pelo Município ocorreu de acordo com a legislação e foi concedida após autorização do Governo do Estado.
Segundo a gestão municipal, como o empreendimento é localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) das Dunas do Litoral Oeste foi necessária autorização da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Mudança do Clima (SEMA).
A inauguração da estátua foi realizada durante uma cerimônia que comemorou os 29 anos da casa religiosa chefiada por Mãe Rainha das Trevas, no último dia 25 de julho. A feiticeira, como ela mesma se denomina, não quis comentar a própria idade. Questionada pelo g1, ela disse que é "mistério".
“Aqui foi feito tudo dentro da minha propriedade, não é em um local público. Essa propriedade é particular e eu pedi autorização para fazer uma construção dentro da minha propriedade”, disse.
O monumento fica em uma propriedade privada de posse da feiticeira. Em nota, a Prefeitura de São Gonçalo do Amarante, por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo (SEMURB), disse que o templo religioso construído no distrito da Taíba cumpriu a legislação ambiental e urbanística e as normas estabelecidas pela legislação vigente.
“Ressalta-se que o licenciamento ambiental e urbanístico analisa a conformidade do projeto com as normas urbanísticas e ambientais. A Prefeitura de São Gonçalo do Amarante reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência dos atos administrativos e o respeito à liberdade de crença e de culto, direito fundamental assegurado pelo artigo 5º, inciso VI, da Constituição Federal”, complementou o governo municipal.
“Na parte burocrática, eu mesma fui atrás de toda a liberação da construção e obtive, como qualquer cidadã brasileira pode chegar a qualquer prefeitura de seu município e pedir uma autorização para fazer uma construção em suas terras”, explicou a líder religiosa.
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Estátua em homenagem ao Diabo, construída na Taíba, região metropolitana de Fortaleza. — Foto: Carlos Marlon/TVM
A feiticeira disse que gastou mais de R$ 100 mil para idealizar e levantar a estátua. Um engenheiro civil foi responsável pelo projeto. No entanto, ela não quis informar quanto tempo levou para o monumento ficar pronto.
“A verba foi toda tirada do meu próprio bolso. Eu fiz ela toda com dinheiro próprio, num local próprio, que é meu, porque aqui as terras são minhas, o terreno é meu”, explicou a Mãe Rainha das Trevas.
Mãe Rainha das Trevas afirmou que a estátua do Diabo é a maior do mundo. No entanto, não existe nenhum registro oficial que confirme essa informação.
“É a maior estátua do Diabo no mundo. Não existe outra estátua com essa dimensão. Eu procurei me informar”, afirmou a feiticeira.
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Infográfico - Feiticeira ergue estátua em homenagem ao Diabo. — Foto: Arte g1
A Mãe Rainha das Trevas tem um perfil no Instagram em que acumula quase 800 mil seguidores e faz várias publicações sobre as práticas de magia que realiza. No perfil, ela mostrou a inauguração da estátua, o que rendeu comentários positivos de outras pessoas com fé parecida, mas também ataques preconceituosos.
“Eu vivo num país laico, onde eu tenho o direito à liberdade religiosa, de professar aquilo que eu acredito. As pessoas têm que entender que o acreditar diferente do delas não pode ser tão julgado. Porque eu respeito tudo aquilo que é diferente do meu crer. E a única coisa que eu peço às pessoas é que elas respeitem também a minha fé”, comentou a feiticeira.
⚖️ A legislação brasileira define que é crime de intolerância religiosa quando envolve discriminação, preconceito, impedimento de direitos ou incitação ao ódio contra uma pessoa ou grupo devido à religião. A Lei nº 7.716/1989 determina punição para crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
“Os comentários preconceituosos, não começaram na construção da maior imagem do Diabo no mundo. Eles começaram lá atrás, quando eu abri a Casa dos Caixões. Imagina uma casa, certo, numa comunidade, toda pintada de preto, com quatro caixões dentro, onde eu reverenciava a minha fé ao Diabo”, lembrou Mãe.
Antes, ela era líder em um local chamado "Casa dos Caixões", no bairro Montese, em Fortaleza — onde morou por quatro anos. Depois, ela se mudou para a propriedade na Taíba, onde construiu o Palácio Estrela Negra da Quimbanda.
O palácio é aberto ao público, que pode participar, uma vez por mês, das giras (como são chamadas as sessões e rituais religiosos) e também das festas mensais que ela faz para homenagear alguma das entidades cultuadas. A feiticeira disse que cerca de 200 a 300 pessoas participam desses eventos.
“A diferença de eu falar dos demônios para algumas pessoas é que elas falam o nome ‘demônio’ em termos pejorativos, e eu falo o nome demônio com muito amor, pois os demônios são bons, os demônios ajudam. Os demônios sempre estão de braços abertos para receber aqueles que precisam da ajuda deles”, disse a bruxa (como ela também se define).
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O monumento foi erguido em uma propriedade privada da feiticeira Mãe Rainha das Trevas. — Foto: Carlos Marlon/TVM
Apesar dos ataques virtuais, ela disse que não possui receio de ter a estátua vandalizada. “Toda a minha comunidade sabe da minha fé, me respeita. Aqui nós mantemos muito a situação do respeito”, disse.
Mãe comentou que anualmente faz doações de toneladas de carne (frango, boi e bode) para aproveitar os animais sacrificados nos rituais. Ela falou também que realiza uma festa no Dia das Crianças, em outubro, com doação de centenas de brinquedos.
A quimbanda não é reconhecida como uma religião. A prática é determinada como um culto a entidades como exus e pombagiras. Assim como religiões de matriz africana, os fundamentos do culto são repassados de forma oral, sem um livro específico que rege os preceitos, tal como a Bíblia, o Alcorão e a Torá.
“É um culto que, para muitos, é chamado de culto marginalizado, porque as pessoas têm uma certa visão da quimbanda, como se fosse um culto do mal”, comentou Barok, que é Tata N'ganga de Quimbanda brasileira.
💡 Tata N'ganga de Quimbanda é uma espécie de mestre ritualista, sacerdote supremo, na prática da Quimbanda. 'Tata’ significa "pai" ou sacerdote, na linhagem Congo-Angola. ‘N'ganga’ é o curador, feiticeiro, técnico de rituais ou mestre na manipulação de energias e espíritos ancestrais.
Anteriormente, a quimbanda era vista como o “eixo ruim, do mal” da Umbanda. “E hoje, na verdade, a gente já entende que isso era uma mera história inventada, por pessoas que tinham um certo preconceito. A quimbanda é um culto ancestral no qual a gente busca evolução espiritual”, explicou Barok.
O sacerdote disse que não existe um consenso sobre quando, onde e como a prática surgiu. “Até o nome dela foi tomado emprestado dos povos bantos, onde existiam os curandeiros das tribos, que se chamavam de ‘kimbanda’ [com a inicial 'k']; eram justamente os curandeiros daquelas aldeias, daquelas tribos, que faziam a arte da magia para curar”, reforçou o sacerdote.
Um dos principais pilares do culto é a crença na reencarnação. No entanto, na quimbanda, esse processo é encarado como um “castigo espiritual”. “Como se fosse uma maldição, porque é um ciclo em que você morre, desencarna e você ainda volta pra essa terra, para ter que viver todo o mesmo processo de vida, onde você vai sentir dores, vai sentir emoções, vai sentir coisas ruins, vai sentir coisas boas”, detalhou Barok.
“Nós, na quimbanda, procuramos evoluir nosso espírito dentro da religião para que nós não precisemos ter que voltar a este mundo. O nosso intuito é evoluir espiritualmente para que nós nos tornemos exus e pomba-giras, ou seja, para que a gente venha a ser agraciados no mundo espiritual”, complementou.

Quando é que a humanidade começou a consumir sal? E porquê?
Cada vez que tempera a comida com uma pitada de sal, está a repetir um gesto que, durante a maior parte da história humana, foi uma questão de vida ou morte. O que hoje é automático e quase gratuito já foi um dos bens mais valiosos do planeta — o suficiente para construir impérios e financiar guerras.
O sódio não é um capricho do paladar — é essencial para regular fluidos, transmitir impulsos nervosos e permitir que os músculos se contraiam, incluindo o coração. Sem sódio suficiente, o sistema nervoso deixa de funcionar.
O problema é que, na natureza, o sódio é escasso. Os nossos ancestrais chegavam a recorrer à geofagia — lamber pedras ou comer terra rica em minerais — só para obter esse nutriente. Era uma necessidade tão forte que o corpo parecia “saber” da falta antes de a mente perceber.
Durante o Paleolítico, comer carne, vísceras e sangue animal já garantia sódio suficiente. A chegada da agricultura mudou isso: com mais grãos e vegetais na dieta, os níveis de sódio caíram de forma acentuada — e foi essa lacuna que empurrou os humanos a começar a extrair sal ativamente.
As evidências mais antigas de extração sistemática têm cerca de 8.000 anos e vêm da atual Roménia, onde comunidades neolíticas ferviam água de nascentes para obter os cristais.
A partir daí, quem controlava o sal controlava poder. No Antigo Egito, era essencial na preservação de alimentos e nos rituais de mumificação. Na China antiga, deu origem aos primeiros monopólios estatais da história.
Em Roma, a palavra “salário” nasce de salarium — parte do pagamento dos soldados era feito em sal, ou em dinheiro destinado a comprá-lo. No comércio transariano em África, chegou a trocar-se sal pelo seu peso em ouro.
Sem sal não havia forma de conservar alimentos — e sem essa tecnologia, cidades maiores e viagens marítimas longas simplesmente não seriam possíveis.
Aqui está o paradoxo: passámos milhões de anos a desenvolver um desejo forte por sal precisamente porque ele era raro. Hoje vivemos rodeados de excesso, mas o cérebro continua a ativar os mesmos circuitos de recompensa de sempre. A indústria alimentar sabe disto — e usa-o. Ao adicionar sal em quantidades industriais aos alimentos processados, torna-os quase impossíveis de resistir.
O resultado está nos números: a Organização Mundial da Saúde recomenda menos de 5g de sal por dia, mas a média global já passa dos 10g.
Os Ianomâmi, no Brasil, ainda seguem uma dieta próxima da ancestral — consomem só 1 a 2g de sódio por dia e praticamente não têm casos de hipertensão. O contraste com as cidades modernas, onde o mesmo mineral que outrora nos salvava agora contribui para doenças cardiovasculares, é direto.
O sal também já foi símbolo de resistência: em 1930, a Marcha do Sal de Gandhi transformou este mineral num ato de desafio contra o monopólio colonial britânico. Continua presente em rituais até hoje, do sumô japonês às referências bíblicas.
A próxima vez que sentir vontade de algo salgado, saiba que está a ouvir um eco muito antigo — o do corpo humano ainda a operar segundo as regras de um mundo onde o sal era raro, mesmo vivendo num mundo onde deixou de ser.