sexta-feira, 7 de agosto de 2026

SHAKESPEARE & CO

 

Shakespeare & Co, de Paris, e por que livrarias se tornam pontos turísticos

Shakespeare and Company, de Paris, assim como Aqua Alta, de Veneza, e Lello, de Porto, viraram pontos turísticos concorridos e lidam de forma diferente com isso.

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 Foto: Marcelo Spalding

Livrarias se tornam pontos turísticos pelos mais diversos motivos. A Shakespeare and Company, de Paris, por exemplo, se tornou uma das mais famosas do mundo e a mais importante da capital francesa não pela sua arquitetura ou grandiosidade. Pelo contrário. Localizada na margem esquerda do Sena, em frente à Catedral de Notre-Dame, é um dos maiores símbolos literários da cidade pela sua “alma”, com o perdão do clichê.

E já que estamos em um terreno espiritualista, essa alma é herdada em grande parte da outra vida da livraria: a atual – hoje ponto turístico – foi inaugurada em 1951 por George Whitman como sucessora espiritual da lendária livraria criada por Sylvia Beach em 1919. Foi ela que, em 1922, aceitou publicar por conta própria Ulysses, de James Joyce, romance considerado obsceno em alguns países e ao qual nenhuma editora queria se associar.

Os anos 20 também foram um momento efervescente da cena literária parisiense e da livraria. Ernest Hemingway dedica várias páginas de “Paris é uma Festa” à livraria e a Sylvia Beach. Por lá circulavam nomes como F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Gertrude Stein, T. S. Eliot e tantos outros, que se encontravam, conversavam, emprestavam livros e discutiam literatura.

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Esta vida da livraria se encerrou durante a ocupação nazista de Paris, em 1941. Dez anos depois, George Whitman abriu outra livraria no local, chamada Le Mistral. Mais tarde, com autorização da família de Sylvia Beach, passou a chamá-la de Shakespeare and Company, preservando o espírito da original.

Foto: Marcelo Spalding

O programa de hospedagem da Shakespeare and Company

Outro aspecto singular da Shakespeare and Co. é o programa Tumbleweeds, criado pelo novo proprietário, George Whitman, em 1951. Segundo o site da própria livraria, George vivia como um viajante e dizia ser um “tumbleweed” (uma planta seca que o vento leva de um lugar a outro, simbolizando alguém que vive viajando). Inspirado pela hospitalidade que recebeu durante suas viagens, ele adotou o lema “Be not inhospitable to strangers lest they be angels in disguise” (“Não sejais inóspitos com os estrangeiros, pois podem ser anjos disfarçados”).

Desde então, começou a oferecer camas entre as estantes da livraria para escritores, estudantes e viajantes sem recursos. Desde então mais de 30 mil escritores já passaram por essa experiência, mas desde 2011, com a morte de George, sua filha Sylvia Whitman profissionalizou o processo, e hoje existe uma candidatura formal, entrevistas e um número bastante limitado de vagas (apenas cerca de 20 escritores por ano são aceitos no programa de residência).

A livraria

Quem visitar a livraria hoje sem conhecer toda essa história vai se surpreender com as filas que se formam na entrada. Embora se perceba o charme de uma livraria que parece uma casa antiga transformada em biblioteca, com estantes de madeira do chão ao teto, salas pequenas ligadas por corredores estreitos, poltronas para leitura, gatos circulando pela loja e milhares de livros usados misturados com novos, não é o melhor dos pontos turísticos nem a melhor das livrarias.

Embora seja um ponto turístico indicado em tudo que é guia de viagem, o local sequer permite fotografias e tem uma capacidade limitada de pessoas no seu interior, o que gera filas para o acesso, já que o local é relativamente pequeno. Dentro da livraria não espere manuscritos expostos ou referências claras à bela história da livraria, o ambiente é sóbrio, antigo, simples, no fundo valorizando o que deve mesmo ser valorizado, o livro.

Por outro lado, para quem quer ir a uma livraria para conhecer a produção local, ou mesmo outras produções europeias, hoje há muitas livrarias enormes, espaçosas, e os preços não diferem. Logo, para escolher e comprar um livro, há outras opções; para turistar e fazer fotos para o Instagram, também; agora se você quer a experiência de comprar um exemplar de Ulisses ou qualquer outro livro naquele local para contar nas rodas de amigos ou escrever textos como esse, vale muito a pena.

Comparação com a Lello e a Acqua Alta

É inevitável comparar a experiência de visitar a Shakespeare & Co. com a visita a outras livrarias famosas da Europa, como a Lello, de Porto, ou a Acqua Alta, de Veneza. A Lello, sobre a qual já escrevi aqui, ficou famosa pelo boato de que J. K. Rowling se inspirou nela para escrever Harry Potter, e desde então recebe uma quantidade insana de turistas, que marcam horário, fazem filas enormes e pagam ingresso, isso mesmo, pagam ingresso para conhecer o belo e tradicional prédio, com sua escala de tapete vermelho.

Foto: Marcelo Spalding

Ao abraçar o boato e o status de ponto turístico imperdível de uma das cidades mais interessantes da Europa, perdeu a característica de livraria, mas conseguiu uma fonte de renda volumosa para investir em novos projetos, como a aquisição de manuscritos.

Já a Acqua Alta, de Veneza, lembra muito a Shakespeare & Co. Acanhada, escura e com muitos livros, por vezes amontoados, a partir da década de 2010 passou a aparecer em milhares de fotos e vídeos nas redes sociais, e hoje é considerada uma das livrarias mais fotografadas do mundo (sim, lá fotos são permitidas) e recebe milhares de visitantes por dia.

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Mas lembre-se que livrarias ficam famosas pelos motivos mais variados, e se a Lello se destaca pelo prédio e a Shakespeare & Co. pela história, a Acqua Alta é uma extensão de Veneza. Como Veneza sofre frequentemente com a “acqua alta” (as marés que inundam partes da cidade), o proprietário Luigi Frizzo decidiu, quando abriu a livraria em 2002, armazenar os livros em gôndolas, canoas, banheiras e outros recipientes elevados. A ideia era prática: proteger os livros da água. Com o tempo, essa solução virou a marca registrada da livraria.

Foto: Marcelo Spalding

Além disso, nos fundos da livraria existe uma escadaria construída com enciclopédias e livros danificados pelas enchentes, que leva a um pequeno mirante de onde se vê um dos canais de Veneza. Curiosamente, essa escada não foi criada como atração turística: Frizzo apenas precisava de um destino para livros que já não podiam ser vendidos.

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