sábado, 8 de agosto de 2026

ALGUMAS NOTAS SOBRE O ALENTEJO

         foto: D.Ganzelevitch

21 de maio. Primavera no Alentejo. É de manhã. Um céu perfeitamente limpo, cujo azul intenso ira clareando ao longo do dia. Gerânios em três tons de vermelho. À minha esquerda, seis ciprestes e um mandacaru. “Achei no lixo em Lisboa. Como se pode jogar uma planta no lixo? ” perguntou minha anfitriã. Plantas também são seres vivos. Mal escondidas por mais uma árvore, as duas camisas que acabo de lavar e minha toalha de banho balançam no varal.

O terreno desliza em leve declínio até um riacho escondido por oleandros, limoeiros e laranjeiras para subir novamente até uma linha irregular formada por oliveiras prateadas de tronco torturado. Com uma vasta piscina-tanque lá no fundo, no meio do capim florido, a casa é simples, caiada de branco. Dentro, poltronas confortáveis, tapetes persas, livros e retratos seiscentistas de antepassados de expressão solene que precisariam de um bom restauro.

Meu celular anuncia 32°, mas debaixo do telhado da varanda, estou numa bolha temperada e ventilada. Iremos até a vizinha Evoramonte. Ao pé do castelo do século XII trabalha Inocência Lopes uma das mais conceituadas fazedoras de Bonecos de Estremoz, arte considerada patrimônio mundial pela Unesco. Seria uma equivalência ao nosso Mestre Vitalino. Sua obra de excepcional qualidade me deixou impressionado.

Casais de borboletas, uns brancos, outros amarelos, voam como inebriados. Afirmar que só existem momentos de felicidade virou chavão. Este, hoje, aqui, é o caso. Uma pura e perfeita ilha no agito secular.

Sempre amei esta terra de paisagem ondulada, feminina, fecunda, salpicada de sobreiros e oliveiras. Território macho também, de granito e mármore, com seus povoados fortificados vigiados por severos castelos romanos, mouriscos ou manuelinos, como másculo e profundo é o cante alentejano, também patrimônio da Unesco, que remonta ao pré-cristianismo. Muitas igrejas têm ares de bastião por fora, temperadas por dentro pela sensualidade escancarada dos altares barrocos e dos antigos azulejos. Uma delas, dedicada a São Bartolomeu, lhe dará vontade de morar em Borba, naquela rua direita onde competem em elegância os aristocráticos solares e onde antiquários vos falam de esplendores passados.

O ápice desta curta estadia será sem dúvida a visita ao Palácio Real de Vila Viçosa. Elegante fachada inteiramente revestida de mármore vagamente azulado. Salas e mais salas de rico mobiliário, coleção de tapeçaria excepcional e forros magnificamente pintados, infelizmente sem iluminação. Destaquemos o motivo inventado pela guia: “Não tem eletricidade no palácio”. Acredite se quiser. Então não tem alarme contra roubo e incêndio? Por favor!...

Se, como os gatos, tivesse sete vidas, uma delas viveria no Alentejo.

Dimitri Ganzelevitch
A Tarde, 8 de agosto 2026

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