21 de maio. Primavera
no Alentejo. É de manhã. Um céu perfeitamente limpo, cujo azul intenso ira
clareando ao longo do dia. Gerânios em três tons de vermelho. À minha esquerda,
seis ciprestes e um mandacaru. “Achei no lixo em Lisboa. Como se pode jogar uma
planta no lixo? ” perguntou minha anfitriã. Plantas também são seres vivos. Mal
escondidas por mais uma árvore, as duas camisas que acabo de lavar e minha toalha
de banho balançam no varal.
O terreno
desliza em leve declínio até um riacho escondido por oleandros, limoeiros e
laranjeiras para subir novamente até uma linha irregular formada por oliveiras
prateadas de tronco torturado. Com uma vasta piscina-tanque lá no fundo, no
meio do capim florido, a casa é simples, caiada de branco. Dentro, poltronas
confortáveis, tapetes persas, livros e retratos seiscentistas de antepassados
de expressão solene que precisariam de um bom restauro.
Meu celular
anuncia 32°, mas debaixo do telhado da varanda, estou numa bolha temperada e
ventilada. Iremos até a vizinha Evoramonte. Ao pé do castelo do século XII trabalha
Inocência Lopes uma das mais conceituadas fazedoras de Bonecos de Estremoz,
arte considerada patrimônio mundial pela Unesco. Seria uma equivalência ao
nosso Mestre Vitalino. Sua obra de excepcional qualidade me deixou
impressionado.
Casais de
borboletas, uns brancos, outros amarelos, voam como inebriados. Afirmar que só
existem momentos de felicidade virou chavão. Este, hoje, aqui, é o caso. Uma
pura e perfeita ilha no agito secular.
Sempre amei
esta terra de paisagem ondulada, feminina, fecunda, salpicada de sobreiros e
oliveiras. Território macho também, de granito e mármore, com seus povoados
fortificados vigiados por severos castelos romanos, mouriscos ou manuelinos,
como másculo e profundo é o cante alentejano,
também patrimônio da Unesco, que remonta ao pré-cristianismo. Muitas igrejas têm
ares de bastião por fora, temperadas por dentro pela sensualidade escancarada dos
altares barrocos e dos antigos azulejos. Uma delas, dedicada a São Bartolomeu,
lhe dará vontade de morar em Borba, naquela rua direita onde competem em
elegância os aristocráticos solares e onde antiquários vos falam de esplendores
passados.
O ápice
desta curta estadia será sem dúvida a visita ao Palácio Real de Vila Viçosa.
Elegante fachada inteiramente revestida de mármore vagamente azulado. Salas e
mais salas de rico mobiliário, coleção de tapeçaria excepcional e forros
magnificamente pintados, infelizmente sem iluminação. Destaquemos o motivo
inventado pela guia: “Não tem eletricidade no palácio”. Acredite se quiser.
Então não tem alarme contra roubo e incêndio? Por favor!...
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