sexta-feira, 14 de agosto de 2026

A ERA DO FAKE

 ... E DO CULTO AO EGO


Décio Torres Cruz*

 


É impressionante observar a transformação da ficção e das teorias acadêmicas em formas concretas que passam a afetar a realidade cotidiana. George Orwell, Aldous Huxley, Ray Bradbury, Philip K. Dick, Jean Baudrillard, Guy Debord e outros escritores descreveram, em suas obras do século passado, nossos atuais dias “pós-modernos”, nos quais a realidade se torna ficção, a história é reescrita e a ciência é transformada em narrativa.

Dados cientificamente comprovados e antes universalmente aceitos, como o formato geoide da Terra, passaram a ser questionados e difundidos por pessoas sem o mínimo conhecimento científico. Convencionou-se que mentira e verdade são apenas faces de uma mesma moeda, prevalecendo a versão de quem conta a melhor história e tem mais adeptos nas redes sociais.

Gourmertizando o vazio

Antes do atual milênio, para se ter uma profissão, eram necessários muitos anos de estudo e prática, seja com quem já era profissional na área, seja frequentando aulas em escolas, cursos e universidades. Para se exercer uma profissão (fora da área política e familiar, onde prevalecem indicações), era necessário conhecimento prévio e/ou um diploma. Hoje, qualquer um inventa uma profissão e se autointitula especialista naquilo que nunca estudou ou aprendeu na vida.

E como não se pode ser pós-moderno sem ser internacional, brasileiros com mentes colonizadas adotam palavras em inglês para esconder a real intenção do vazio de algumas profissões recém-inventadas, como os tais influencers e coaches (treinadores de esportes, palavra usada agora para designar um profissional que ajuda as pessoas a atingir um objetivo profissional ou pessoal com orientação, conselhos e treinamento).

Com o atual declínio da aura em torno da educação como fator transformador e com o surgimento de celebridades que não precisaram estudar muito para atingir a fama e a riqueza, muitas pessoas acham que podem se tornar tudo o que quiserem sem nunca ter frequentado um curso ou universidade. Acreditam que não necessitam de uma profissão ou formação, bastando apenas possuir um imenso número de seguidores fiéis e engajados nas redes sociais para virar influencer ou creator (criador) — um profissional que produz conteúdo na internet e que é capaz de influenciar seus seguidores a partir do seu comportamento (no dia a dia, nos produtos que consome, na forma de ver o mundo, nos eventos que possam gerar popularidade ou publicidade, na formação profissional etc.) e ganhar muito dinheiro com o marketing de empresas que contratam seus serviços. Os influenciadores funcionam como uma espécie de vitrine dos produtos e marcas que promovem, buscando criar o desejo por aquilo que oferecem a seus seguidores.

 

Mercado de diplomas

Embora parte da população simule um desprezo por formações acadêmicas, muitos querem obter um diploma a qualquer custo para não parecerem idiotas perante seus seguidores. Além dessas novas profissões da era digital, o número de compras de diplomas falsos parece ter aumentado. Há diversas empresas fabricando e vendendo títulos de doutor honoris causa, inventando faculdades que nunca existiram. Nesta lista de compras, encontram-se as ditas “pessoas de bem”, diversos profissionais (juízes, advogados, professores e escritores) comprando esses diplomas e recebendo-os em solenidades em câmaras de vereadores e até em algumas academias de Letras do interior.

Muita gente ostenta esses diplomas mesmo sabendo que são falsos. Coloque nessa lista os títulos de melhor prefeito, melhor comerciante, melhor empresário ou empreendedor e até de melhor escritor. Tudo está à venda para satisfazer o ego de pessoas medíocres que sempre desprezaram os estudos acadêmicos e nunca conseguiram se sobressair em nada. Agora, elas possuem a possibilidade não só de ser o que não são, mas também de ser as melhores em habilidades que nunca tiveram ou em profissões para as quais nunca foram habilitadas. Tivemos exemplos de ministro da Educação e até mesmo de membro da mais alta corte que procuraram turbinar currículos com cursos ou estágio pós-doutoral que nunca fizeram.

Escrita sem leitura e livros artificiais

A proliferação de profissões inexistentes abunda na mesma quantidade em que surgem diversas editoras que cobram para publicar qualquer coisa, não importa a qualidade. A rede está cheia de gente que nunca teve o hábito da leitura e da escrita e escreve muito mal, cometendo erros de toda espécie; pessoas que deveriam voltar aos estudos de gramática e redação antes de pensar em escrever. De repente, esses indivíduos se autointitulam escritores e se transformam em tais da noite para o dia, pagando para ter livros publicados até mesmo em outros países. Outros, que nunca escreveram ou publicaram um livro sequer, oferecem cursos, ensinando incautos a como se tornar um escritor.

E pior: tem muita gente usando Inteligência Artificial e publicando livros sem ter escrito uma única palavra; e alguns ganham prêmios literários, outros usam falsamente nomes de escritores reais, como o da escritora Jane Friedman, ex-presidente e diretora-executiva da famosa editora Harper Collins, cujo nome foi usado sem seu conhecimento por terceiros que ganham dinheiro com livros escritos por IA, vendidos na Amazon como se fossem dela.

A epidemia de desinformação nas bolhas ideológicas

Durante a pandemia, houve muitos casos de médicos ideologicamente fanáticos que prescreveram remédios e tratamentos contra a Covid-19 que eles sabiam (ou preferiam não saber) que eram totalmente ineficazes. Várias pessoas que nunca adentraram uma sala de aula de cursos de jornalismo ou comunicação, nem trabalharam em redações de jornais, revistas e televisão, subitamente se alçaram ao nível de jornalistas e blogueiros para disseminar informações falsas como se fossem dados reais.

Veículos sérios de comunicação passaram a ser evitados ao apresentarem a realidade dos fatos, sendo perseguidos por uma determinada camada da população que preferia acreditar nas versões mentirosas inventadas por um grupo político que pagava alguns veículos para disseminar suas mentiras como verdade. Criaram uma bolha, tornando seus seguidores completamente alienados do estado real dos acontecimentos. Alguns deles, quando confrontados com a realidade factual, ainda hoje se recusam a aceitá-la ou entram em devaneios.

Esse grupo fabricador e disseminador de mentiras aproveitou-se do desconhecimento escolar da população e criou um imenso séquito de seguidores desinformados, que acompanhavam falsos historiadores e filósofos terraplanistas que nunca estudaram história ou filosofia, mas escreveram livros e comentários com visões dos fatos totalmente deturpadas e erradas, distorcendo a verdade histórica de forma escabrosa, criando e espalhando mentiras funestas. Isso provocou uma perseguição a professores de história e geografia. Alguns foram ameaçados por alunos e seus pais, perdendo seus empregos por ensinarem a história do que realmente aconteceu no tempo da ditadura militar.

Intimidade exposta

O desenvolvimento da eletrônica, da tecnologia computacional e das redes sociais facilitou a expansão do fake e da idolatria ao ego. Todas as redes propiciam uma necessidade ilimitada de publicações, forçando as pessoas a fazerem propaganda de si mesmas. E, quando elas não têm o que falar de si, inventam, inclusive profissões que nunca exerceram, com o intuito de atrair a atenção de amigos e seguidores. Os apps de melhoramento de imagem ou de montagem de imagens fake estão disponíveis em todas as câmeras de celular.

As redes sociais incentivam esse culto exagerado do ego, quase forçando as pessoas a postarem o tempo todo sobre tudo o que estão fazendo, não importando o conteúdo ou o ridículo da ação. Tem gente que chega ao ponto de postar fotos de eventos privados que antes se limitavam ao meio familiar, desrespeitando a intimidade de pessoas doentes em hospitais ou de pessoas mortas em cerimônias fúnebres. Há, até mesmo, fotos de pessoas que, sem se preocuparem com reflexos da imagem no espelho, fotografam-se durante a realização de necessidades físicas nos banheiros e só se dão conta depois que as imagens viralizam.

Parece que a nossa contemporaneidade inaugurou uma nova espécie de ética aética, onde prevalece o vale-tudo para que as pessoas aumentem sua autoestima com o clique de likes e coraçõezinhos a cada nova postagem, sem qualquer compromisso com a ética, a empatia, ou com a veracidade do conteúdo exposto,. As redes criam a falsa ilusão de que não estamos sós por estarmos rodeados de “amigos” virtuais, como se cada curtida satisfizesse o ego e preenchesse o vazio da solidão nossa de cada dia.

E, quando as curtidas não vêm espontaneamente, alguns, que possuem condições para tal, compram seguidores para falsificar sua imagem perante os seguidores reais. Quando as curtidas não acontecem de modo algum, as pessoas inventam mentiras para se sentirem menos infelizes.

O preço da validação

Isso tem causado muitas doenças entre a população jovem. De acordo com a Agência Câmara de Notícias e o Panorama da Saúde Mental, estudos sobre a saúde mental de jovens demonstram o desenvolvimento de transtornos físicos e mentais em usuários de plataformas digitais, causados pelo abuso de compartilhamento de fotografias manipuladas de rosto e corpo, visando o estabelecimento de padrões estéticos inatingíveis. Hoje, é possível fabricar quase tudo digitalmente, seja falso ou verdadeiro. Fotografias de adolescentes e pessoas famosas estão sendo manipuladas para criar nudes falsos ou filmes pornôs expostos nas redes.

Os profissionais de saúde mental vêm emitindo alertas sobre a exposição dos jovens às redes sociais. Muitos adolescentes que não conseguem alcançar um determinado número de curtidas ou que são expostos indevidamente de forma comprometedora adquirem transtornos mentais devido à preocupação extrema com sua aparência e com a exposição de sua imagem, sendo acometidos de anorexia, ansiedade, autoflagelação, bulimia e depressão — doenças que podem levar ao suicídio.

Já passou da hora de a sociedade global debater a fundo os perigos que criamos para nós mesmos e estudar os meios de amenizar os danos causados pelo uso indiscriminado de tecnologias. Não podemos desprezar sua interferência e suas consequências nas relações humanas. O que antes parecia ser um sonho de ficção científica, que gerava o medo de máquinas controlarem os seres humanos, já se tornou realidade com o surgimento da IA.

Algoritmos moldam nossos desejos e nossas escolhas, selecionando os produtos, sonhos e a felicidade que devemos comprar, os espetáculos e filmes que devemos ver, além de sugerirem o que devemos fazer e de quem gostar ou odiar. Robôs (bots) transformam notícias falsas em verdadeiras e modificam o resultado de eleições em várias partes do mundo. Quando as fronteiras que separam a realidade da ficção e o falso do real se dissolvem, chega a hora de reavaliarmos onde fracassamos como espécie humana, analisarmos o que ainda nos reserva e nos resta no futuro e repensarmos se tudo isso vale a pena.

 



* Escritor, membro da Academia de Letras da Bahia e da Academia Contemporânea de Letras de São Paulo. Autor de Histórias roubadas, Viagens & travessias e A poesia da matemática, dentre outros.

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