sexta-feira, 14 de agosto de 2026

ROUBAM EM FAMÍLIA

UM CASO DE POLÍCIA



 A deputada estadual por São Paulo Edna Macedo, do Republicanos, destinou R$ 2,2 milhões em emendas parlamentares para megaeventos da Igreja Universal, liderada pelo seu irmão, o bispo Edir Macedo, um dos homens mais ricos do Brasil. Ela concorre à reeleição na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Emendas parlamentares são a ferramenta que deputados e senadores usam para enviar uma parte do dinheiro público para financiar obras, projetos e instituições, geralmente nas suas próprias cidades e estados. 

A primeira indicação de Edna para eventos da igreja do irmão foi de R$ 1,2 milhão no ano passado para a The Love Walk – Caminhada do Amor – um misto de palestra e atrações musicais com orientações sobre relacionamentos amorosos – criado pelo casal Renato e Cristiane Cardoso, conhecidos pelo programa de TV “The Love School: Escola do Amor”. Ela é filha de Edir Macedo. 

Já neste ano, a deputada Edna Macedo indicou R$ 1 milhão para o Família ao Pé da Cruz, uma série de cultos religiosos em estádios e ginásios que aconteceu em diversos países na última Sexta-Feira Santa. 

Toda essa verba pública para eventos da Igreja Universal é destinada inicialmente para o Instituto Paulo Kobayashi, conhecido como IPK, que realiza vários eventos religiosos da congregação de Edir Macedo. O caso foi revelado inicialmente em reportagem do colunista Artur Rodrigues, do portal UOL.

Entre 2023 e 2026, o IPK recebeu R$ 37,7 milhões de dinheiro público indicado por parlamentares, na maior parte do Republicanos e do PL. Desse total, pelo menos R$ 16,8 milhões foram destinados a eventos da Universal. Ou seja, quase metade da quantia recebida pela entidade foi para atividades promovidas pela  igreja de Edir Macedo.

Acontece que nem sempre a motivação desse recurso é esclarecida nos dados do Portal da Transparência do governo de São Paulo. As duas emendas da Edna Macedo para eventos da Universal, por exemplo, são descritas apenas como “apoio a evento cultural e criativo”. É preciso analisar o interior dos termos de fomento, uma espécie de contrato entre governos e ONGs, para identificar a real destinação daquele dinheiro.

Os outros parlamentares que destinaram verba para eventos da Universal, através do IPK, são Altair Moraes, Danilo Campetti, Gilmaci Santos, Rui Alves, Sebastião Santos e Tenente Nascimento. Todos são filiados ao Republicanos, braço político da Igreja Universal, com exceção do Tenente Nascimento, que deixou a legenda e migrou para o PL.

Além do Caminhada do Amor e do Família ao Pé da Cruz, também foram bancados com verba de emenda os festivais da Universal chamados Mega Dance, Mega Help e Canta Gospel. Parte desses eventos são promovidos pela Força Jovem Universal, a FJU, grupo da igreja de Edir Macedo voltado para a juventude. 

Por sua vez, o Instituto Paulo Kobayashi é uma organização da sociedade civil de interesse público, ou OSCIP, criada e comandada por familiares do professor de geografia e ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo Paulo Seiti Kobayashi, morto em 2005 quando era deputado federal pelo PSDB. 

A organização, que foi criada em 2005, teve um salto na quantidade de recursos públicos do governo de São Paulo recebidos durante a gestão de Tarcísio de Freitas, do Republicanos. Em 2023, primeiro ano do governo, foram pagos R$ 4,3 milhões em emendas para o IPK. Em 2024, subiu para R$ 10,3 milhões. Já no ano passado esse valor chegou a R$ 11,7 milhões. E já passa de R$ 11 milhões até agosto de 2026. 

Os tipos de eventos promovidos pelo IPK com recursos públicos são bastante variados: festas religiosas, eventos gastronômicos, festivais culturais, projetos esportivos e até um encontro para capacitar pessoas para o apoio e atendimento de vítimas de tragédias. 

Em dezembro de 2024, Edna Macedo publicou uma foto na sua conta do Instagram ao lado do presidente do IPK, Victor Kobayashi, e do fundador do ID Mais Vida, organização que trabalha com o IPK, Mauricio Miyazaki. A foto mostra uma visita dos dois ao seu gabinete. “Pessoas boas atraem pessoas boas! (…). Tivemos uma boa conversa sobre o terceiro setor”, escreveu a deputada do Republicanos.

A deputada Edna Macedo também foi pessoalmente à edição do evento Família ao Pé da Cruz que ocorreu na Neo Química Arena, e posou para fotos ao lado do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, do MDB. 

O doutor em Administração Pública e professor de estratégia e gestão pública do Insper Marcelo Marchesini explica que não há previsão legal que proíba o uso de emenda parlamentar para financiar um evento de uma igreja ligada a um familiar do autor da emenda, já que ele não é o beneficiário direto do recurso.

“As emendas impositivas têm essa possibilidade de serem alocadas sem a necessidade de justificar a escolha do beneficiário. Os requisitos são muito mais frouxos do que os do próprio poder Executivo para firmar esse tipo de parceria ou contratação”, avalia.

Marchesini defende que os critérios de contratação sejam, no mínimo, os mesmos exigidos pelo Executivo. Ele também ressalta que as emendas parlamentares estaduais recebem menos atenção do que as federais por terem menor presença no debate público.

Outro lado

A deputada Edna Macedo enviou uma nota na qual diz que as emendas parlamentares para os eventos da Universal foram indicadas de maneira legal e divulgadas para consulta de qualquer cidadão. Ela afirmou ainda que não foi quem definiu a descrição dessas atividades na área de emendas do Portal da Transparência. A parlamentar também destacou que os eventos mencionados na reportagem são abertos à participação do público em geral, promovendo ações de interesse público, como a mobilização comunitária.

“Não há, em nenhuma indicação, qualquer conflito de interesse. (…). A atuação da deputada pauta-se pela impessoalidade e pela finalidade pública, não se confundindo o apoio a atividades abertas à população com benefício de natureza pessoal ou privada”, escreveu na nota.

Por fim, Edna Macedo explicou que as reuniões que acontecem em seu gabinete são de caráter institucional, voltadas para formalização de apoio e acompanhamento de iniciativas de interesse da população (veja a nota na íntegra).

O presidente do Instituto Paulo Kobayashi, Victor Kobayashi, defendeu, em nota, que não define o objeto e destino de emendas parlamentares, e que executa projetos indicados por parlamentares de diferentes partidos. O gestor ressaltou que realiza diferentes tipos de eventos, incluindo festas religiosas católicas, como a Festa de Frei Galvão. 

Sobre a reunião no gabinete da deputada Edna Macedo, Kobayashi garantiu que esse tipo de encontro é rotineiro e não delibera sobre repasses financeiros. 

Já em relação à Igreja Universal, disse que atua com termo de parceria, mas que não presta serviço à Universal e não é afiliada à congregação. 

“O histórico de normalidade e projetos bem executados e com prestação de contas aprovadas explica a procura de parlamentares de diferentes partidos pelo IPK”, escreveu Victor Kobayashi, na nota (leia na íntegra).

A Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas enviou um e-mail para a reportagem informando que é obrigada por lei a executar as indicações aprovadas na Assembleia Legislativa de São Paulo. 

“O aumento dos repasses ao Instituto Paulo Kobayashi decorre exclusivamente do maior volume de emendas aprovadas pelos deputados no orçamento”, diz trecho do e-mail (veja a nota completa). 

Em relação à fiscalização, o órgão estadual afirma que a execução desses recursos passa por uma série de procedimentos, como aprovação de plano de trabalho, acompanhamento técnico, comissão de monitoramento e prestação de contas de cada projeto.

O Intercept Brasil entrou em contato com a Igreja Universal e os outros parlamentares mencionados na matéria, mas não houve retorno até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto.

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