quinta-feira, 21 de março de 2024

ACIMA DE NÓS, CONCRETO

 

 Salvador ganha 16 novos viadutos e não soluciona congestionamentos

Com política de viadutos, a capital baiana quase dobrou o número de equipamentos nos últimos 12 anos

Acima de nós, concreto: Salvador ganha 16 novos viadutos e não soluciona congestionamentos

Foto: Secom/Jefferson Peixoto

Por: Daniela Gonzalez no dia 21 de março de 2024 

Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 21 de março de 2024

Uma rápida volta pelas principais avenidas de Salvador já permite perceber: a primeira capital do país se tornou a cidade dos viadutos. Em 2012, eram 29 equipamentos, segundo a Superintendência de Obras Públicas (Sucop). Doze anos depois, o número quase dobrou. Atualmente são 54 estruturas distribuídas no território soteropolitano.

Só nos últimos 10 anos, o governo estadual realizou 11 construções, enquanto a gestão municipal entregou 5, e outras 4 ainda estão em andamento como parte do BRT. Se antes as ruas de Salvador eram marcadas por sua cultura e história, hoje é o cinza do concreto que chama atenção.

A construção de viadutos ocorre em uma aparente busca por melhorias na mobilidade urbana, porém suscita preocupações relacionadas aos impactos ambientais, sociais e aos massivos investimentos. Tudo isso enquanto outras cidades no Brasil e no mundo caminham no sentido contrário aos viadutos.

Em 2010, foi inaugurado a “Nova Marginal do Tietê”, em São Paulo. Com um investimento de R$1,3 bilhão, ampliou-se a rodovia adicionando quatro pontes e três viadutos. O objetivo era reduzir os congestionamentos e diminuir em 15% o tempo de deslocamento da população. Porém, cinco anos depois, os índices de lentidão já haviam subido em 80%. A reincidência do congestionamento pode ser explicada pelo efeito da oferta e demanda. Ao notarem que vias anteriormente engarrafadas foram expandidas, mais motoristas optam por utilizar esses caminhos para encurtar seus tempos de deslocamento.

Mas além de não significar necessariamente uma solução aos congestionamentos, a sede por viadutos é reflexo de um pensamento que abre mão de pessoas em detrimentos de veículos.

Cidade para quem?

A baiana Lívia Magnavita, arquiteta mestre em Planejamento Urbano e Territorial, lembra que as cidades são e devem ser pensadas para as pessoas, afinal, antes de serem motoristas ou utilizarem carros e transporte público, os cidadãos são pedestres.

“A cidade deve considerar todas as formas de deslocamento, e existe uma grande distorção nisso. O que percebo é que muitas das soluções de mobilidade utilizadas em Salvador são voltadas para o carro, principalmente para o privado”, destaca ao Jornal Metropole. Lívia pontua ainda que, além de não priorizar, a política do viaduto afasta as pessoas. Isso porque os pedestres se sentem inseguros em caminhar nessas áreas, tornando o espaço pouco acessível.

“Além disso, algumas dessas obras em Salvador desmataram muitas árvores centenárias e obstruíram o fluxo dos rios”, destaca a arquiteta.

Na contramão

É por isso que o mundo está seguindo outro caminhos. Cidades têm optado por demolir viadutos, transformando-os em áreas urbanas e parques para recuperar espaços ambientais e estabelecer conexões com áreas verdes.

Um exemplo ocorreu no início dos anos 2000, em Seul, na Coreia do Sul. Um viaduto sobre o Rio Cheonggyecheon foi demolido para um extensa restauração do rio e de seu entorno. Já em Madrid, o projeto de revitalização da margem do rio Manzanares enfrentou um grande desafio devido aos trechos da via M-30. Parte da estrada foi desviada por túneis, e um parque foi inaugurado.

“Os viadutos e as pontes podem, sim, ser utilizadas como ferramentas para a mobilidade urbana. Afinal de contas, é uma maneira de conectar dois lugares, mas não deve ser a única solução adotada em uma cidade”, conclui.

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