sábado, 19 de janeiro de 2019

O ESPÍRITO BETONEIRO CHEGA NO BONFIM


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Tentando ainda entender o significado do paredão de cimento erguido ao lado da secular e icônica Igreja do Bonfim. Difícil! Levei dois dias (incorporando os ecos da caminhada) para alinhar o pensamento sobre o que esse curioso artefato representa para as nossas caras e seculares tradições na Colina Sagrada e, claro, para o capital simbólico que, desde Jorge Amado, tem atraído centenas de milhares de turistas encantados com as riquezas sincréticas da Cidade da Bahia. Certamente há algum nexo, mas não o encontrei. Não enxergo sentido em comparar essa bizarra edificação a qualquer outra que a civilização ergueu nesta cidade "tombada" pelo Patrimônio. Bateram na mente as escaras de cimento com que Berlin homenageia em memorial o Holocausto, construção de fato parecida na crueza do cimento que nada tem a ver com a cultura multirracial e hedonista da Primeira Capital, onde desembarcou Tomé de Souza, em meio aos nativos, para fundar o País que somos. Pensei mais: existe ou deve existir uma razão para quem aplica dinheiro público, nosso, em intervenções teoricamente destinadas a melhorar a cidade, e que resultam em monumentos dedicados ao nadir. Nada. Deve existir, sim, vida inteligente no ambiente em que foi engendrada essa coisa nesta cidade (de tantos e tão nobres figurantes históricos), tão afim às profanações, nas investidas betoneiras dos poderes municipal e estadual a que estamos, infelizmente, nos acostumando -- e até elogiando – a exemplo dos jardins de cimento e estacionamentos pagos em santuários ambientais como o Jardim de Alah, Placaford e Itapuã. Existe um nome atrás disso, existe um cara "responsável" que, certamente, não contamina os pesadelos do senhor Prefeito, afeito a, quem sabe, outras prioridades. Mas ele – e o governador – não podem se isentar da responsabilidade dos agentes públicos “de ponta” que decidem e perpetram tais desatinos à nossa História, a menos que eles gostem da cultura de playground estabelecida nas obras de “qualificação”, e não ousem isto confessar. Deve existir, sim, algum nexo, alguma lógica, alguma proposta para esse monumento ao vazio criativo que destoa absurdamente da cidade de Gregório de Mattos, Jorge Amado, João Ubaldo e Caetano Veloso, entre tantos, privilegiada com símbolos históricos e contemporâneos, mesmo que tantos não queiram. Os espíritos do cimento não podem ir tão longe sem apresentar uma razão, uma que seja, para a desfiguração do que que há de mais importante na nossa cultura! Que o digam os visitantes (cada vez em menor número) e habitantes desempoderados. Tal e tamanha dessemelhança deve encontrar abrigo em alguma repartição governada pelos adoradores das máquinas betoneiras, entusiasmados por réplicas miamescas de uma ultrapassada arquitetura de playground aplicados a, como dito antes, santuários das nossas mais caras tradições. Há nomes atrás disso, há caras apaniguados e superficiais que regem o espírito mercantilista (ave Gregório!) que desfigura a Cidade da Bahia. Devemos, sim, a bem das mais caras tradições da nossa cidade, resgatar e nominar não só os líderes, mas cada um dos asseclas executivos da desfiguração das nossas mais caras tradições!

Luiz Afonso Costa

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