sábado, 19 de janeiro de 2019

NAUFRÁGIO DE UM SÍMBOLO

A imagem pode conter: ar livre e água

Quem pode garantir que Noé não tenha esquecido de abrigar em sua arca algum bicho desgarrado? Se algo tão inimaginável acaso terá acontecido, dá para se ir mais longe e atribuir o suposto lapso do patriarca bíblico à perdoável não intencionalidade do errar humano. Pode ter sido também por inépcia, desmazelo e até aversão, hipóteses que melhor se encaixam no melancólico episódio que encerra o ano de 2018 nesta cidade rica de signos e tradições.
O “esquecimento” das condições de navegabilidade da galeota Gratidão do Povo dificilmente será rotulado como não intencional. É o desfecho lamentável de um conjunto de erros e omissões que estão pondo a pique o que há de diferenciado e atrativo na nossa outrora inigualável e aprazível Salvador. De fato, traz à tona evidências do quanto os nossos governantes têm voltado as costas para as “águas interiores” das mais caras e profundas tradições populares que, século após século, erigiram o inexcedível capital simbólico da Cidade da Bahia, tal como Jorge Amado gostava de denominá-la.
Tantas artes praticaram e inventaram esses governantes que nos tornaram órfãos dos nossos bens mais preciosos. Festas de largo descaracterizadas, carnaval privatizado, não reposição dos equipamentos de praia extirpados, valores culturais desdenhados, santuários ambientais profanados, poluição do mar. O “liberou geral” que faveliza as encostas históricas e a transformação de restingas (Jardim de Alah, Placaford, Itapuã) em estacionamentos e jardins de cimento são exemplos gritantes dessa modernização de playground, de estética betoneira. Turista ligado em Miami prefere o original e quem gosta de praia tem optado, com razão, ir para Fortaleza ou Maceió do que paletar pelo deserto cimentado em que transformaram nossa orla.
A fé pode mover montanhas, mas, pelo visto, não sensibiliza os corações desses entes que elegemos. Um milésimo da grana investida nos megashows da tal da virada de ano, que privilegiou, em cercados e palcos babilônicos, os safadões & cias. e descartou a beleza e autenticidade das agremiações afro-baianas, ou um milionésimo de um arco da ponte miliardária sobre a baía, ou um mês de penduricalhos de algum juiz arrogante e gorduroso, qualquer moeda vale para garantir ir ao mar a galeota, inexcedível manifestação dos entristecidos legatários de Gregório de Mattos. Aos desempoderados da base da pirâmide resta o quê, além do direito de espernear? Pois que seja, que se torne tsunami o esperneio coletivo!

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