domingo, 28 de novembro de 2021

A PRIMEIRA NEGRA

  Josephine Baker: uma espiã no Panthéon

Lá por meados dos anos 1920, Joséphine Baker chegou a Paris. Desembarcou na Gare Saint-Lazare, onde um homem branco lhe estendeu a mão para ajudá-la a descer do trem. Pronto! Amor à primeira vista! Não com o galante cidadão, mas com a França.

Essa Joséphine a quem os franceses chamavam de "Baquér" -- e que na terça feira vai ser "pantheonizada" -- tinha como carro-chefe de seu repertório a canção que ela entoava lá no alto de sua voz: "J'ai deux amooooours!! Mon pays et Pariiiiis!!".


Americana que vivera a infância num gueto de Saint-Louis, em Missouri, ela contava que o episódio da gare foi definitivo: "Que felicidade estar na rua e poder chamar um táxi sem que o motorista se recusasse a me levar; que alegria pensar que se tivesse fome poderia entrar em qualquer restaurante sem que me pusessem para fora."
Antes da guerra, Joséphine foi cantora, atriz de teatros de revista, ícone dos Anos Loucos, adulada pelo público, pelos ricos brasileiros que iam vê-la, em Paris ou no Cassino da Urca, encenar "O que é que a baiana tem?" com um biquíni sumário feito de bananas estrategicamente colocadas.



Durante a guerra, surgiu a outra Joséphine: a que fez muita contra-espionagem em favor dos Aliados, buscando informações nos jantares mundanos que frequentava; que foi tenente das forças de libertação comandadas por De Gaulle; que tirou brevê de aviadora, prosseguiu na espionagem e deu concertos para angariar dinheiro para a Resistência. Ainda mais tarde, seria ativíssima militante dos direitos dos negros, e mãe adotiva de doze filhos.



Quando cheguei a Paris fui vê-la no palco, para uma reportagem, no Bobino de Montparnasse. Ela estava com quase 70 anos e fazia 50 de carreira, encenando um musical sobre sua própria vida. Na avant-première, estava o Tout-Paris, de Sophia Loren a Mick Jagger e Grace de Mônaco, e foi lido um telegrama de Giscard d'Estaing, então presidente. Dias depois, Joséphine morreu do coração.
Dia 30, é a vez de outro presidente, Macron, render homenagem a ela, que, como se diz aqui, "receberá as honras de entrar no cenotáfio do Panthéon", onde repousam os grandes da Pátria.
Curiosamente, não serão suas cinzas que entrarão no Panthéon -- estas continuarão em Mônaco. Mas uma urna com terra dos 4 lugares onde viveu: Saint Louis, Dordogne, onde tinha um castelo, Monaco e Paris.
Ela será então a sexta mulher a entrar no Panthéon. A primeira negra.

Nenhum comentário:

Postar um comentário