quarta-feira, 17 de novembro de 2021

MARIGHELLA, O FILME

 


Enfim, visto Marighella (no cinema!), atesta-se o que já se ouvia falar do filme: discurso panfletário e por vezes didático sobre a situação política do país e o senso de combate que toma corpo no personagem, além de registrar da forma mais “escolar” os horrores da Ditadura. Ainda assim, o tom me pareceu abaixo do que eu estava esperando (coisa da expectativa, esse mal), o que não diminui o incômodo com esse modo educativo, no mal sentido, porque empobrece a experiência do filme e torna o personagem um professor de frases de efeito indignado com a situação política do país – atitude completamente compreensível e grave, mas que posto dessa forma quase forma uma caricatura (o combatente nervoso), via drama gritado de verdades que explodem da boca dos personagens.

Mas meu problema maior com o filme é outro: ele é quase todo feito de situações que são meramente ilustrativas, mas nunca compreensivas. Ou antes, a compreensão que o filme busca está apenas na superficialidade dos discursos (a disposição para a luta armada, a necessidade de enfrentamento, os acordos e os dribles que precisam ser feitos para não ser preso e torturado) e da reconstituição das situações, como se cada cena fosse uma carta de princípios sobre ideias que precisam ser reforçadas (coragem, enfrentamento, sofrimento pelos que vão caindo, desilusão). Um exemplo: o filme abre com uma cena em que Marighella e os companheiros de luta armada invadem um trem de carga para roubar armas e munições que serão usadas futuramente. Qual a origem do veículo? A quem pertencem as armas? Como se arquitetou aquele plano?, nada disso entra nos detalhes do filme; a cena existe apenas para ilustrar o destemor daquelas pessoas e a intenção de combater a ditadura com as mesmas armas (ou com algumas parecidas).
Não é nenhum problema que os filmes em geral lancem mão de cenas assim para ilustrar ideias e conceitos sobre personagens ou determinadas situações que se quer pontuar. Mas nesse caso, o filme parece se fazer apenas de momentos assim, sem um fio narrativo mais coeso e sólido, uma vez que a trama picota sua biografia (e concentra-se no embate ao governo militar) sem buscar compreender as motivações do homem em seus pormenores, e não a partir de ideias generalistas (do tipo: “a Ditadura é perversa, seus dirigentes são maus, temos que enfrentá-los”). E também sem que os personagens precisem gritar discursos de ordem e lições de moral em nove de cada dez diálogos do filme.
Também não me parece um problema que um ator como Wagner Moura, com suas conexões e arranjos de coprodução com a Globo Filmes e a O2 Filmes, tenha tido a intenção de fazer uma obra política mais palatável para um público mais amplo (vale destacar aqui o quanto o filme sofreu para ser lançado e hoje, depois de muita porrada, Marighella chega em salas de cinema de shopping, o que me parece bem surpreendente e louvável).
O problema é que se o discurso do filme se mantém no didatismo mais raso e ilustrativo, sem querer adentrar as especificidades com mais apuro, apelando apenas para a “denúncia” dos horrores da Ditadura a partir da luta de uma figura importante da esquerda brasileira, ele acaba apenas falando para convertidos, dando a estes o filme que eles querem ver, mas que não muda nem apresenta nada de muito novo no debate histórico e político do Brasil, muito menos reverbera os descalabros do tempo presente.
De qualquer forma, defendo que o filme tem de ser visto por todos porque é de fato um feito e tanto ele chegar assim aos cinemas brasileiros. E pela importância histórica de uma figura como Marighella, ainda que o filme não lhe faça maior e mais nuançado do que ele merece.

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