quinta-feira, 1 de setembro de 2022

AQUILO QUE O IPHAN VÊ...

 ... E AQUILO QUE NÃO VÊ


Anos que, sem que ninguém me tenha ordenado cavalheiro no assunto, obrigo meu Rocinante íntimo a enfrentar, o teclado como lança, os sonolentos e ineficientes moinhos do IPHAN.

Volto hoje a questionar o órgão federal que oficialmente fiscaliza a preservação dos bens imateriais – missão utópica – e materiais.

Sempre atento às queixas dos moradores de meu bairro de Santo Antônio, saí a contar uma por uma as casas cujo último andar ostenta um terraço. Cheguei à cifra de cento e quinze (115!) do Largo do Carmo ao Largo de Santo Antônio. Sem registrar aqueles invisíveis a partir da rua.

Ela pode... os outros não?


Vários foram executados sem qualquer alvará. Como, aliás, na minha própria casa, confesso, realizada em 1985 e reconhecida como casa-museu pelo Ministério da Cultura em 2008. Já o terraço do imóvel contíguo recebeu licença explícita do IPHAN em 2006, assim como as duas casas da global Regina Casé no Largo do Carmo, com projeto assinado por David Bastos. Que também acrescentou dois andares. A casa do arquiteto Will Marx, na Rua Direita de Santo Antônio, possui um confortável terraço sobre a rua, com a benção (2002) da Rita Márcia, a então implacável fiscal do IPHAN.

A respeito da “live” orquestrada em 2021 pelo IPHAN, o arquiteto Nivaldo Brandão me responde: As normas e critérios de intervenção que propusemos - incluindo aquela possibilidade de, em algumas situações, construir pavimentos recuados não visíveis da rua - não entraram em vigor ainda pois o IPHAN está na etapa de análise da nossa proposta. (...) O objetivo desse trabalho que fizemos é, quando tiver sido aprovado pelo IPHAN e com as normas em vigor, evitar o casuísmo e a avaliação caso a caso que você muito adequadamente critica. ”

Já se passou mais de um ano. O IPHAN continua analisando...

O dito órgão argumenta que a visão dos telhados do centro histórico desde o avião – quantos segundos? - é prejudicada pelos famigerados terraços. Mas os gigantescos reservatórios de água acima dos telhados, as placas de Eternit e outras coberturas de plástico não incomodam. E por falar em agressão visual, os puxadinhos, esquadrilhas de alumínio ou PVC, fachadas com antenas parabólicas e pintadas de acrílico para piso e quadras, e outras descaraterizações, não incomodam muito mais os visitantes que passeiam pelo bairro, observando atentamente cada detalhe?

E a escandalosa, vergonhosa, inadmissível favelização das ruas Siqueira Campos, dos Ossos, dos Carvões, da travessa Bahia, violentadas, imóveis derrubados e inteiramente reconstruídos sem qualquer alvará? E, neste exato momento, a carnavalização da Rua dos Perdões?


Carcomido, este quase secular órgão precisa ser implodido e reconstruído sobre outras bases. Como está é que não pode continuar.

 

 

 

 

 

 

 

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