quinta-feira, 17 de setembro de 2026

DE BARRO E BRONZE

 Bustos de barro e bronze que viram memórias

Paulo Ormindo de Azevedo



A Bahia teve excelentes escultores no período colonial, todos ligados à arte religiosa, trabalhando a pedra, como Gabriel Ribeiro suposto autor da fachada da Ordem 3ª de São Francisco; a madeira, como Francisco Manoel das Chagas, o Cabra, autor do Cristo Morto e o Cristo na Coluna da Igreja de Francisco e o barro, como Frei Agostinho da Piedade, suposto autor de São Pedro Arrependido, guardado na capela de Monte Serrat. 

A escultura civil foi introduzida na Bahia no início do século XX pelo italiano Pasquale De Chirico (1873-1943), que realizou grandes e numerosos monumentos cívicos em Salvador, seguido, numa escala muito menor, por Ismael de Barros (1898- 1993) que trabalhou até 1975 retratando personalidades públicas. Um busto é plasmado em barro - de que fomos feitos - moldado em areia e argila e depois fundido em bronze. Na mesma linha trabalhou Jair de Figueiredo Brandão que substituiu Ismael como escultor oficial da Bahia. 
Uma revolução na escultura baiana foi deflagrada pelo modernista Mario Cravo Jr., a partir de 1949, seguido por Carybé, Juarez Paraiso e Tati Moreno. Legado que é hoje continuado pela escultora Márcia Magno, ex-diretora da Escola de Belas Artes da UFBA. 

Jair Brandão foi um dos escolhidos por Godofredo Filho, primeiro diretor do IPHAN na Bahia, para integrar sua equipe. Ele entrou no IPHAN em 1945 e em 1954 fez livre-docência na Escola de Belas Artes para a cadeira de Modelagem com a tese Notas sobre a escultura religiosa baiana passando a ser professor catedrático da escola. 

Uma de suas primeiras atividades no IPHAN foi fazer moldagens de obras de arte para um Museu da Escultura que Rodrigo Melo Franco de Andrade pretendia criar em São Paulo, mas não conseguiu. Dentre as moldagens realizadas estavam a monumental portada do Solar do Saldanha. Com autorização do IPHAN ele moldou imagens em cerâmica como as de Santa Mônica e São Pedro Arrependido atribuídas a Frei Agostinho da Piedade. Reproduções que se encontram no Museu de Arte Sacra da Bahia. Moldou também o arranque da escada da igreja de Santo Domingo .
No IPHAN ele organizou seus arquivos históricos e fotográficos e passou a ser a segunda pessoa depois de Godofredo, o substituindo em suas viagens. Em 1974, quando Godofredo Filho se aposentou, ele ocupou interinamente a direção do órgão até a posse de Fernando da Rocha Peres. Jair Brandão não foi só um escultor, foi um pesquisador e historiador da arte baiana, esquecido como muitos outros, mas que sobrevive nos seus bustos de bronzes que não foram roubados ou derretidos.

SSA: A Tarde, 13/09/2026

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