Era um casal
de aposentados. Passava a vida vendo a vida passar na janela, cotovelos
apoiados em almofadinhas. Num canto, Seu Eusébio, magro, tímido, sempre de
terno surrado, sem cor. Falava pouco. A casa, herança do pai, português de
Trás-os-Montes. Dona Deolinda, espalhafatosa, um mulheraço de cabelo
amarelíssimo, ocupava quase todo o espaço. Falava muito. Falava mal de toda a
vizinhança a vizinhança toda. Após três dedos de prosa, você continuava a
caminho da quitanda já sabendo que ela iria lhe cobrir de cobras e lagartos,
ratos e baratas.
Ao domingo
de manhãzinha, de gravata e salto alto, compenetrados, iam à missa. Após
comungarem, voltavam purificados e sorridentes. Nas trezenas de Santo Antônio
de Padova que era de Lisboa, cantavam ladainhas em casa de conhecidos da
igreja. Até se permitiam bebericar um cálice de licor de jenipapo, como quem
faz uma coisa deliciosamente proibida. Nunca dois.
Em dezembro,
a procissão de Santa Luzia. O casal já enfeitara a janela com flores de
plástico e banner da ceguinha. No Natal, orgia de pisca-pisca, não faltando a
estrela nesta casa onde jesus nenhum nunca nascera. Semana Santa, palmas do
coqueiro do quintal. Carnaval, fachada fechada. Hermeticamente. Coisa de gente
de pouca fé. Músicas pornográficas. Ousadias.
Do outro
lado da rua, vivia Dona Vivi, uma viúva gaúcha de idade avançada. Toda manhã,
molhava as plantinhas da sacada. Ouvia tangos. Recebia poucos familiares,
velhos, com palavreado lá do Sul, e alguns amigos, colegas de quando trabalhava
no tabelionato. Vez ou outra vernaculava com Deolinda.
Uma noite,
ao querer ir ao banheiro sem ligar a luz, escorregou no capacho. Quebrou a
perna direita e o cotovelo esquerdo. Ai! Quanta dor! Se arrastando pelo soalho,
conseguiu abrir a janela e chamou uma, duas e mais vezes: “Seu Eusébio,
Deolinda! ”. Silencio absoluto. Do outro lado da estreita rua, a fachada
permaneceu muda. Só de manhã, ao chegar a empregada, foi chamada a ambulância.
Anestesia, operação, gessos. Falatório na rua inteira. Coitada da Dona Vivi,
sozinha, podia ter morrido.
A uns,
Deolinda declarou nada ter ouvido. A outros que ouviu os apelos, mas pensou que
era coisa de moleque. Com aquele sotaque de gaúcha? Por favor! Quando Vivi
começou a andar e saiu para a rua, cumprimentou friamente o casal na janela.
Fingiu que estava com pressa. Constrangimento geral. Deolinda, de boca fechada.
Duas semanas
depois, às pressas e sem avisar ninguém, sorumbaticamente, o casal vendeu a
casa, mudou de bairro. E de igreja.
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