quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

AS JOIAS DE DONA FULÔ



É um bonito cartaz. Com o nome das curadoras bem evidentes. Para quem não sabe, hoje curador(a) é igual a arcebispo. Se lhe estender a mão, você terá que beijá-la. No firmamento do mercado de arte ele voa muito acima do artista e do diretor de museu. Concede dialogar de igual para igual somente com críticos de arte capacitados e galeristas gabaritados.

Voltando ao cartaz. É muito bonito, sim. Também informa datas e horários de visitação. Só não tem o local da apresentação. Após pesquisa, soube que o evento aconteceria em Salvador, no Museu de Arte Contemporânea. O último espaço onde esperaria algo que tão profundamente mergulha na memória e nas feridas históricas de nosso povo.

A Bahia está vivendo um momento museológico bem estranho. Diria até – perdão pelo trocadilho – um momento museo-ilógico. Começando por este MAC, cuja gritante inutilidade só se explica pela vaidade de um ou outro responsável. Foi justamente um outro responsável que me ofereceu três catálogos de exposições no Museu de Arte Moderna. Catálogos de capa dura, pasmem, e com o nome do curador na dita capa! Ego deste tamanho, só o cartaz “Hamlet / Márcio Meirelles” (2017) quando o nome do autor, um cara de nome bem complicado, foi simplesmente eliminado.

Nunca fui muito fã de se colocar um museu de arte moderna à beira da maré, apesar da extrema beleza do espaço. Salitre, insegurança, dificuldade de acesso. No final dos anos 80, por sugestão minha, a prefeitura colocou um ponto de ônibus na ladeira, junto a entrada do MAM. Os motoristas recusavam parar. Muito mais coerente seria usar um dos inúmeros espaços do Comércio para um museu que abrangesse, juntas, as expressões visuais modernas e contemporâneas. Afinal, as fronteiras entre ambas são tão movediças... Onde você colocaria o Marcel Duchamp?

Temos a sorte de viver na cidade mais carregada de história do Brasil. Porque tratar tão mal nossos museus? No Museu de Arte da Bahia, o notável trabalho de Sylvia Athayde durante quase um quarto de século, foi varrido sem dor nem critério.

O Museu dos Humildes em Santo Amaro está fechado há anos. Em Cachoeira, a Fundação Hansen Bahia está mofando. Mofando também o acervo do Frans Krajcberg que seria abrigado no mítico Museu do Recôncavo Wanderley Pinho, restauração que custou “cerca de 27 milhões”. Quem manipula os cordões da cultura na Bahia deveria ter vergonha na cara.

Voltando aos catálogos... Acabo de receber o excelente catálogo “Entre a cabeça e a terra” da Pinacoteca de São Paulo. Capa flexível. Nada de enchimento de linguiça. Os nomes dos curadores Renato Menezes e Danilo Lovisi não figuram na capa nem na contracapa. O trabalho realizado, este sim, é essencial.

Gente... vamos parar com tamanho oba-oba?


Dimitri Ganzelevitch

Sábado 18 janeiro 2025

 

2 comentários:

  1. Excelente critica e denúncia, Dimitri. Os nomes dos curadores nas capas é para afirmação de um status que muitos nunca tiveram e passaram a ter na Bahia de hoje.

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  2. Não nos esqueçamos de lembrar o fechamento do Museu Udo Knoff, Museu Tempostal e a criação da mais nova casa de eventos da Bahia, o Museu de Arte Moderna da Bahia/ Solar do Unhão! E o Museu Abelardo Rodrigues e outras coleções abrigadas no Solar Ferrão, tem notícias?

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