terça-feira, 10 de março de 2026

TESOUROS NOS SAARA

 

A antiga cidade do Saara que guarda bibliotecas medievais

No coração do deserto da Mauritânia, a cidade histórica de Chinguetti preserva manuscritos raros, arquitetura medieval e tradição intelectual

Felipe Sales Gomes
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Cidade Mauritânia capa
Ruínas de Chinguetti, na Mauritânia - Getty Images


No extremo oeste do deserto do Saara, em meio a uma paisagem dominada por dunas de areia e horizontes quase infinitos, está uma pequena cidade que já foi um dos grandes centros intelectuais do mundo islâmico. Chinguetti, na atual Mauritânia, é hoje uma localidade silenciosa, com poucos milhares de habitantes, mas durante séculos desempenhou um papel crucial na história religiosa, comercial e cultural do norte da África.

Fundada por volta do século XIII como um ponto estratégico nas rotas comerciais transaarianas, a cidade servia de parada para caravanas que atravessavam o deserto transportando sal, ouro, tecidos e outros bens entre o norte da África e a África subsaariana.

Com o tempo, Chinguetti deixou de ser apenas um entreposto comercial e se transformou em um centro religioso e intelectual de grande prestígio. Peregrinos que viajavam em direção a Meca frequentemente passavam pela cidade, e muitos estudiosos do mundo islâmico se estabeleceram ali para estudar e ensinar teologia, direito, astronomia e matemática.

Durante séculos, a cidade ganhou reputação como um importante polo de conhecimento. Alguns historiadores chegaram a chamá-la de “a Sorbonne do deserto”, referência à famosa universidade parisiense, devido à concentração de escolas e estudiosos que ali se reuniam.

Cidade das bibliotecas

Um dos aspectos mais fascinantes de Chinguetti é seu conjunto de bibliotecas familiares, que preservam milhares de manuscritos antigos. Esses documentos, alguns com centenas de anos, incluem cópias do Alcorão, tratados de direito islâmico, textos de medicina, astronomia, matemática e poesia.

Muitos desses manuscritos foram trazidos por comerciantes e eruditos que viajavam pelas rotas do Saara. Outros foram copiados ou produzidos pelos próprios estudiosos da cidade. Durante o auge de Chinguetti, essas bibliotecas funcionavam como verdadeiros centros de ensino e debate intelectual.

Ruínas de Chinguetti – Getty Images

Até hoje, várias dessas coleções continuam sendo mantidas por famílias locais, que preservam cuidadosamente os textos em casas construídas de pedra e adobe. Apesar da simplicidade dos edifícios, essas bibliotecas guardam um patrimônio cultural de valor incalculável para a história do Islã e da África Ocidental.

Em determinados períodos da história, Mauritânia chegou a ser conhecida no mundo árabe como Bilad Shinqit” — a terra de Chinguetti, tamanha era a importância cultural da cidade.

Arquitetura medieval

A parte antiga da cidade preserva uma arquitetura típica das comunidades saarianas medievais. As casas são construídas com pedra seca avermelhada ou tijolos de barro, com telhados planos sustentados por vigas de palmeira.

As ruas são estreitas e sinuosas, organizadas em torno da Grande Mesquita de Chinguetti, um dos edifícios mais emblemáticos da Mauritânia. A mesquita, construída entre os séculos XIII e XIV, possui um minarete quadrado simples feito de pedra e barro — considerado um dos mais antigos ainda em uso no mundo islâmico.

Esse estilo arquitetônico reflete as condições ambientais extremas da região. Os edifícios foram projetados para suportar o calor intenso do deserto e os ventos carregados de areia que atravessam o Saara.

Em 1996, Chinguetti foi reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO, juntamente com outras antigas cidades fortificadas da Mauritânia que também surgiram nas rotas comerciais do deserto.

Durante a Idade Média, as rotas comerciais do Saara eram uma das principais conexões entre diferentes regiões da África. Caravanas de camelos podiam levar meses atravessando o deserto, transportando mercadorias e ideias entre o norte africano e os reinos da África Ocidental.

Chinguetti prosperou exatamente nesse contexto. Localizada estrategicamente no planalto de Adrar, a cidade servia como um ponto de descanso para viajantes, comerciantes e peregrinos.

Além do comércio, a cidade também desempenhava um papel religioso importante. Para muitos muçulmanos do norte da África que não tinham condições de viajar até Meca, visitar Chinguetti era considerado um ato de grande valor espiritual.

Por essa razão, algumas tradições chegaram a considerá-la uma das cidades sagradas do Islã no mundo ocidental islâmico.

Uma cidade em risco

Apesar de seu passado glorioso, Chinguetti enfrenta hoje um desafio silencioso: o avanço do próprio deserto que um dia sustentou sua importância.

As dunas do Saara estão constantemente avançando em direção à cidade. Muitas casas antigas já foram parcialmente soterradas, e alguns moradores abandonaram o centro histórico para viver em áreas mais recentes.

Esse fenômeno não é apenas uma questão ambiental. Ele ameaça também um patrimônio cultural de valor global — especialmente as bibliotecas e manuscritos que sobreviveram por séculos em meio às condições extremas do deserto.

Projetos de preservação e iniciativas culturais têm tentado proteger os edifícios históricos e incentivar o turismo, na esperança de manter viva a cidade que já foi um farol de conhecimento no Saara.

Legado de séculos

Hoje, Chinguetti é uma cidade pequena e tranquila, muito distante do centro intelectual que foi durante a Idade Média. Ainda assim, sua história continua fascinando historiadores, arqueólogos e viajantes interessados nas antigas rotas do deserto.

Suas bibliotecas, suas ruas estreitas de pedra e sua mesquita medieval permanecem como testemunhos de uma época em que o Saara não era apenas uma barreira geográfica, mas também uma via de circulação de ideias, fé e conhecimento.

Felipe Sales Gomes
Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.

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