“É um sedutor. Mas, não se engane, é esperto. É frio”
A personalidade do banqueiro Daniel Vorcaro, preso
nesta quarta-feira (04) pela Polícia Federal
|04
mar 2026_19h08
“Éuma
figura tão adorável no trato que você tem vontade de colocá-lo no colo. É um
sedutor. Mas, não se engane, é esperto. É frio. E sabe reagir”. A descrição,
feita por um jornalista em entrevista à repórter Consuelo Dieguez, diz respeito
ao banqueiro Daniel Vorcaro. A pedido do ministro André Mendonça, do STF,
Vorcaro voltou a ser preso nesta quarta-feira (4), acusado de tentar obstruir
as investigações contra o Banco Master, monitorar desafetos e planejar ações
violentas contra alguns deles. Foi o caso de Lauro Jardim, colunista do
jornal O Globo. Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram
que Vorcaro planejou um assalto para intimidar o jornalista e “quebrar todos os
[seus] dentes”.
O relato sobre a
frieza de Vorcaro aparece na reportagem Alta Tensão,
publicada pela piauí em outubro de 2024, e ajuda a compreender
a personalidade do dono do Master. Àquela altura, o banco ia de vento em popa,
embora já despertasse suspeitas em parte do mercado financeiro. A reportagem
descreve como o jeito contido do ex-banqueiro, de fala mansa e sem gesticular,
é abandonado quando ele é questionado sobre as críticas que sofria.
“Esse outro lado do
banqueiro emerge na minha conversa com ele quando lhe conto o que me disseram a
respeito da emissão desmedida de CDBs [Certificados
de Depósito Bancário]. ‘Não tenho medo de crítica’,
rebate, demonstrando incômodo, mas sem ênfase na voz. ‘A gente não acerta
sempre. Porém, a crítica tem que ser embasada. Quando alguém fala, eu quero
saber quem falou e por que falou. Agora, boatos? Dizer que o banco está
alavancado porque emite muito CDB? Isso é gente sem informação. É só o cara
ligar para o Banco Central e perguntar. Eu não tenho nada a temer.’”
A afirmação de
Vorcaro difere do modo como ele lidou com as reportagens publicadas em O Globo. As
ameaças contra Lauro Jardim foram encontradas em uma troca de mensagens entre o
ex-banqueiro e Luiz Phillipe Machado de Moraes Mourão, apontado pela PF como
seu operador financeiro e responsável por obter informações e monitorar pessoas
de interesse de Vorcaro. Nas conversas, Mourão chama o jornalista de “escroto”.
O ex-banqueiro responde: “tinha que colocar gente seguindo esse cara. Pra pegar
tudo dele.”
Em outro diálogo,
ainda referindo-se a Lauro Jardim, Vorcaro diz que quer “mandar dar um pau
nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto.” Mourão, então, pergunta se pode
mesmo seguir com o plano e Vorcaro responde positivamente, de acordo com os
documentos disponibilizados pelo STF.
Apelidado de
Sicário, Mourão também foi preso nesta quarta-feira e tentou suicídio pouco
depois, enquanto estava sob custódia na Superintendência Regional da PF em
Minas Gerais. Ele foi encaminhado ao hospital.
Em nota, O Globo repudiou
o plano de Vorcaro dizendo que ele visava “calar a voz da imprensa” e ressaltou
que seus jornalistas “não se intimidarão com ameaças e seguirão acompanhando o
caso e trazendo luz às informações de interesse público.”
As investigações
também mostram como Vorcaro e seu grupo são suspeitos de acessar os sistemas da
Polícia Federal, do Ministério Público Federal e da Interpol. Segundo a
corporação, Mourão acessava “dados em sistemas restritos de órgãos públicos,
incluindo bases de dados utilizadas por instituições de segurança pública e
investigação policial”. É um exemplo daquilo que Dieguez descreveu em outra
reportagem – A Contaminação – de
fevereiro deste ano, em que narra como as estratégias do banqueiro levaram à
desmoralização da República.

Nenhum comentário:
Postar um comentário