segunda-feira, 9 de março de 2026

CAMAROTE SALVADOR

 


A cobiçada experiência que eu não recomendo

Por Joana Rizério

Parece recalque de quem desdenha porque não pode comprar. Eu só teria R$ 4 mil para dar em uma diária do Camarote Salvador 2026 se passasse sob a janela do catarinense que tentou escapar da polícia jogando milhões pelo ar.
Nunca tive sequer um lampejo de vontade de acessar o monumento à mediocridade que dá abrigo a quem enxerga a desigualdade como uma razão a mais para se regozijar. Eu não preciso de vista panorâmica para a rachadura de cor e classe que sei que divide Salvador.
Mas eu não jogaria no lixo uma chance de ver o lugar que vem sendo denunciado por apropriação indevida de espaço da União e por uma promiscuidade raramente vista entre os poderes público e privado. Eu sou curiosa. Eu sou jornalista. E adoro uma cerveja de graça.
O improvável aconteceu na segunda-feira de Carnaval. Um francês que eu conheci há dez anos me ligou de uma rede social abandonada. Aquilo me cheirou a coisa boa.
Quando tentei trabalhar na sua empresa, falhei na entrevista. O pouco francês que eu ostentava virou menos que nada por uma súbita timidez. Hoje, minha fluência no idioma é pior, mas engrossei o cangote. Faço biquinho sem perder o molho.
O serviço era ciceronear membros da sociedade que incendeia carros e guilhotina tiranos como práxis de suas reivindicações sociais.
“Alô?”, falei, com um sorriso no rosto.
O homem me queria, naquele mesmo dia, para coletar um casal parisiense no Pelourinho e levá-lo ao camarote mais caro de todos os tempos. Um detalhe: seria preciso caminhar do Dois de Julho ao Pelourinho com mais de R$ 12 mil em ingressos. Eu disse sim para tudo. Adoro perigo.
Camarote Salvador, eu te conheci e o meu dever cidadão e de ofício é orientar quem tiver uma chance de te conhecer - sem pagar - a preferir outras atividades grátis, como tomar uma injeção na testa, um ônibus errado…
Não pague. A patuscada erguida sobre os absurdos que vou contar foi uma das experiências mais deprimentes que já passei em um mês de fevereiro. Dá para se divertir mais e comer e beber melhor de mil outras formas. Vá para um resort em Morro de São Paulo. Por Deus, vá passar o fim de semana em Paris!
Teve um lado interessante. Me senti uma antropóloga expedicionária descobrindo os costumes de uma sociedade remota. O que come, como dança e o que veste essa gente que eu nunca encontraria na fila do SUS?
Como se diverte quem paga até mil reais para ser escoltado por duzentos metros de avenida? Como é singrar a multidão montada em um trabalhador que parece eleito para o serviço de acordo com o tom de sua pele, como fez Carla Perez?
Com uma sacola de pano bem peba para disfarçar aquela fortuna sob o braço, cheguei a um hotel pertinho da igreja de São Francisco, sã e salva. Pontuais e polidos, os franceses desceram escadas de madeira com os caninos à mostra. Mal sabiam que a primeira decepção da noite estava prestes a lhes arrebatar.
Sentamo-nos no sofá, eu abri a sacola e entreguei-lhes as camisetas. “O que é isto?”, quis saber Vincent, o mais velho. Expliquei que a festa obrigava a usar aquela roupa azul. “Não é possível. Pagamos uma nota para sairmos à noite vestidos com estas camisetas de viscolycra?”, perguntou Pierre.
Validei aquela decepção ao dizer que também achava cafona uma festa tão grande ainda não ter inventado uma tecnologia de controle de acesso melhor do que aquela que obriga o seu público a vestir uma farda. Mas, não tinha jeito, a regra era precisa e uma só.
“Não precisava ser de seda, mas poderia ser de um material um pouco melhor, não?”, murmurou Vincent enquanto arruinava o seu look ao cobri-lo com aquela vestimenta de quinta.
O outro francês quis levar sua camisa à mão e vesti-la ao chegar, mas eu não deixei. Imagina se uma dupla de europeus que toma leite com pêra no café da manhã iria conseguir se defender do puxão arisco de um ladrão?
Fomos de táxi até o antigo colégio Isba, a menos de cinquenta metros do maior portão de revista policial do circuito Barra-Ondina. Uma rampa conecta quem passa pelo escrutínio da PM às baias do camarote. Isola, desde o início, os alecrins da gentalha.
Um trabalhador vestido de vermelho e branco nos cumprimenta e tira de um freezer três latas de cerveja Petra. Pensei, ingenuamente, que as melhores marcas estariam lá dentro. Bebemos a latinha sem imaginar as surpresas que o destino nos desenharia.
Uma lufada de ar condicionado secou a minha testa ao chegar à primeira revista da festa particular. A inimiga obrigou-me a jogar fora uma carteira de cigarros quase cheia. “São regras da festa. Está no regulamento: cigarro, só em maço lacrado”, disse ela. “Terei como fumar lá?”, preocupei-me. “Claro, eles distribuem cigarros de todas as marcas”, mentiu inexplicavelmente a mulher.
A segunda rodada de checagem de segurança teve fila. Eu via um espetáculo de drones no céu quando apertaram forte os meus seios. Era a funcionária da revista corporal. Lívida diante da agressão, inquiri: “você não pode pedir licença antes de tocar o corpo das pessoas?”
“Senhora, se eu for pedir licença a mil pessoas, eu estarei f*d1da” - disse a moça.
Em vez de me ultrajar ainda mais, a resposta dela me guiou à primeira das inúmeras constatações de como é inexistente qualquer treinamento ou tratamento humanizado aos funcionários daquele lugar.
Ao chegarmos a uma fileira de catracas, depositamos os cartões brancos e duros que vieram com as camisas - e que quase foram para o lixo junto com a sacola, não fosse pelo ato angelical do taxista em me alertar para a minha inexperiência.
Outra fila se forma. São os foliões que param para fotos oficiais diante da marca do camarote em tamanho de outdoor. Sei como aquele público goza mais ao postar no Instagram do que durante a festa e esperei. Passei a minha vez. Como previ, os franceses também dispensaram os cliques e até estranharam a prática que todos, sem exceção, copiam.
O rico francês é diferente do rico brasileiro. Os nossos endinheirados não têm sofisticação cultural, que atrela fortuna a viagens, erudição e conhecimentos gerais. Aqui, no Brasil, o suprassumo da experiência de quem acumula capital é gastar com cafonices ridiculamente precificadas.
O casal aceita uma enorme dose de gin com tônica e gelo enquanto eu provo um delicioso energético de maçã. Guardo o copo, o primeiro dos muitos brindes que eu espero colecionar. Mas não seria bem assim, como descobri ao ser abordada por uma moça que quer me entregar um pequeno pacotinho. Pergunto o que é.
“Granola”, diz ela.
Quem vai comer granola pura na festa? Quem vai guardar para mais tarde e ocupar espaço na mini bolsa? A marca era esquisita. O Camarote Salvador não tinha muito critério.
Encontramos o salão das comidinhas, iluminado como um estádio. Eu estava com fome, mas os meus protegidos não queriam comer e preferi esperá-los sem dizer nada. “Que tal um pouco de massagem? Sei que tem um spa em algum lugar”, ofereci.
Alguém nos informa que o “local de descanso” é no piso superior, mas exploramos tudo sem encontrá-lo. Tentamos o nível seguinte. A única parte que poderia se assemelhar ao que procurávamos era uma seção com luzes baixas, totens com carregadores de celular e assentos sem encosto para as costas.
O olhar decepcionado do casal explicitava a recusa em permanecer ali. “Vocês gostam de sushi?”, arrisquei, meu estômago a roncar. Por sorte, eles quiseram provar o sashimi dos trópicos. Ponto para mim. “Japonês”, eu vi o enorme letreiro de longe e salivei.
Mas, foi como estar no Saara e assistir à metamorfose de um oásis em areia. “Aquilo é uma fila?”, perguntou-me Vincent. Havia, pelo menos, sessenta pessoas esperando. Um agrupamento menor indicava quem esperava por um lugar em uma das mesas com um prato na mão. “Deve andar ligeiro”, apelei, sem lograr convencê-los.
Pierre cochichou ao meu ouvido que já tinha suficientes experiências de Bahia para entender que, se se juntasse àquele grupo, perderia, pelo menos, uma hora e meia. Adeus, sonho de morder um salmãozinho cru.
Como confrontá-lo se aquela era a verdade sobre o meu lugar? Nós, os baianos, temos credenciais olímpicas para quase tudo, mas ostentamos um amadorismo irritante na entrega de quase qualquer serviço.
Chegamos ao palco onde, dias antes, a banda Baianasystem havia se apresentado, depois de ter sido fortemente confrontada por parte significativa do seu próprio público, que considerou o show ali um acinte à memória do grupo que critica “máquinas de lucro”.
O grupo já tinha escolhido o lado da grana desde que vendeu música para a Globo, mas desejei secretamente que aqueles que fizeram a maior revolução moderna do Carnaval fizessem como Luiz Melodia ou Tim Maia: bebessem de véspera e faltassem. Seria uma saída excelente.
Vi pessoas fumarem e cheguei perto para implorar por um cigarro. Vincent se aproximou do bar e pediu um copo. Ele queria misturar água a mais um dos brindes toscos, uma bisnaga com um pó solúvel de eletrólitos e vitaminas com sabor de limão. Depois de testemunhar suas três tentativas fracassadas de abrir o pacotinho, fui ajudar o meu protegido, mas falhei também.
Um cara do bar ofereceu, simpaticamente, uma mãozinha. Incrédulos, meus olhos fitaram o rapaz pegar o pacotinho e levá-lo à boca. Ele rompeu o lacre com os dentes. Encontrei o olhar do francês diante daquela demonstração de tão pouco senso sanitário. “Perfeito”, agradeceu ele, ironicamente.
Funcionária de revista que assedia, barman que empresta saliva à bebida alheia… Parece que a cada quatro mil reais que os donos do Camarote Salvador embolsam por cabeça, dois centavos são investidos na preparação dos funcionários.
Eu estava ficando sem cartas na manga. Como melhorar a experiência de uma dupla que, se pudesse antecipar que pagaria para ser cobaia dos produtos mais meia-boca da indústria de bebidas e alimentos, não entraria ali, nem se fosse de graça?
“Que tal a gente descer para a rua um pouco?”, sugeri. No íntimo, eu preferiria evitar essa parte - a preocupação com a segurança deles falava mais alto -, mas o que fazer com os dois naquele pântano?
Para dar um passeio pela rua e voltar, era preciso fazer reconhecimento facial. Custou-me achar o lugar, que era mal sinalizado, e eu murcho, mais uma vez, diante do que encontro.
Fila! Não podiam investir qualquer trocado em capital humano? Não gastam na oferta de comes e bebes, gastam no quê? Não gastam. Guardam tudo para si. Que gente. “Desculpe, mas a gente não quer mais sair”, declarou Pierre, esvaziado de energia vital.
Com vergonha alheia, guiei-os para o fim da linha do meu plano de entretenimento: a varanda onde se pode ver os trios passarem. Eu os levaria antes, mas estava sempre cheio.
Na hora de defender o seu pedaço de balaustrada, cotovelos viram armas, todo mundo fica meio selvagem. Estacionamos no cangote de um grupo com os celulares apontados para Leo Santana e deslizei a mão no meu popô.
Um dos foliões dá mole, um vão se abre e a minha mão nervosa agarra aquela oportunidade. Dali, ninguém me tiraria. Como uma leoa, facilitei a aproximação da dupla. Para a minha alegria, eles ficaram maravilhados. Que queixo não despenca diante daquele mar de gente?
Os franceses sacaram seus celulares pela primeira vez naquela noite e filmaram tudo. Satisfeita, perguntei se queriam um picolé de chocolate e fui buscar. É claro que aproveitei para dar uma passadinha pelas comidas.
Sem esperar papa fina, me frustrei enormemente. As opções eram macarrão frio e com pouco molho, cachorro-quente frio, coxinha de frango, estrogonofe também de frango, pizza com tempo de forno insuficiente e risoto de cogumelos. Olha o cardápio que o camarote campeão selecionou para a gente.
Optei pelo risoto. Enfastiada, a moça que servia deu uma colherada em uma gosma e, na placidez mais bovina, serviu-me em uma marmita de isopor. O gosto estava à altura da péssima pinta que o prato tinha, mas a fome era tanta que terminei a porção em poucas garfadas.
Barriga cheia, é hora de encontrar o Chicabon que adoçaria a noite decepcionante daquela dupla que eu me esforçava para alegrar. “Olha que delícia, que linda, que gostosa ela é”, diz um homem à minha frente. A câmera do seu celular é uma pistola apontada para mim.
Naquele lugar, eu não temo levar um chute por reagir a um assédio. “Tire o celular da minha cara, agora”, falei para o homem. O vento que saía das minhas narinas cozinharia um inhame. “Calma, linda. Estou só te elogiando. Estou mostrando as mulheres lindas da Bahia para o meu amigo da Alemanha”, ouvi.
“Apague essa desgraça, agora”, ordenei. Ele pediu calma de novo. “Calma? Se você não apagar isso agora, eu vou chamar a polícia. O nome disso é importunação sexual”, avisei. O sorriso nojento daquele pervertido sumiu no instante em que eu o enquadrei na tipificação de um crime.
O homem ficou sem arte, perdeu a cancha e se despiu de todo o borogodó. Agora, movia-se devagar e já não falava com aquela segurança. “Abra a galeria. Eu quero ver se você apagou mesmo”, insisti. Ele obedeceu. Tudo o que havia lá era uma triste sequência de selfies de um fraco de feição.
Fui em busca dos picolés. O estande vermelho da empresa vendedora da gordura hidrogenada congelada e açucarada mais famosa do país ficava no último andar. Como era natural, havia uma fila - felizmente, pequena. Quando chegou a minha vez, abri o freezer e até estranhei a facilidade com que eu conseguira completar uma missão naquele muquifo. Me enganei.
“Ei, não é assim, não. Tem que tirar uma foto e marcar o perfil da empresa”, explicou uma moça. “Eu não trouxe o celular”, menti. Deus! Cadê a revolta nesta gente que paga caro e ainda precisa fazer propaganda gratuita se quiser consumir pelo que tem direito?
Na volta, a dificuldade foi identificar meus protegidos em um mar de pessoas com a roupa igual - e de costas. Para além do mimetismo no vestir, aquela horda é impressionantemente igual em tudo. Tanta harmonização e barba aparada em cervejaria fez dos ricos do Brasil um exército de replicantes.
Vou além. Não há, no Camarote Salvador, aquele tesão, aquela vontade de lamber a boca alheia que faz a rua ferver. Ali, ninguém se beija, ninguém paquera. É um terreno tão estéril quanto a monocultura de soja transgênica que cultivam em suas fazendas goianas.
Identifico um sorriso em meio a um mar de braços, é a vista que os meus olhos querem ver. Como é gostoso reencontrar meu francês! Mas, espera. Onde está Vincent? Pergunto a Pierre e ele diz, despreocupadamente: “deve ter ido dar uma voltinha”. Finjo normalidade mas, por dentro, sou só desespero.
Lembrei da época offline em que a gente procurava Wally nos livros. Eu nunca encontrava. Sento um pouco. Quero tirar os sapatos. Quero ir para casa comer cuscuz.
Desço as escadas e sinto uma mão na minha teta direita. Era uma funcionária, de novo. Que fixação é essa? Ao menos, esta se desculpa. Tocou-me sem querer para avisar que aquela escada estava bloqueada para a descida. Relaxo e desço os degraus certos.
Passei pela menina da granola, sua sacola ainda cheia de comida de passarinho. A cada dois passos, funcionários oferecem cachaça, único serviço realmente eficiente. Todo mundo quer se intoxicar com a droga maldita que mata doze brasileiros a cada hora.
Uma visão interrompe o divagar da minha mente. Corpos negros, presença rara, cruzam a multidão em fila. São trabalhadores em fim de serviço, como denunciam suas feições esgotadas e mochilas surradas.
Eles são escoltados por duas pessoas brancas, uma no início e outra no final da fila. Tangem aquelas pessoas para que não permaneçam ali nem um segundo além do estritamente necessário. Aquelas existências maculariam a experiência estética da elite branca viciadinha em coca zero, tadalafila, pó e monjauro.
Outra cena chupa o meu olhar: a classe de um homem com a boca em uma torneira de onde sai chopp. Percebo que são mais de vinte dispostas lado a lado. Ajusto o foco do olhar para identificar a marca. Era a mesma que bebi no início da festa.
Então paga-se uma fortuna e nem se pode beber a cervejinha preferida? A ditadura da exclusividade forçada, marca do Carnaval de Salvador, infectou a esfera privada também. Não é ridículo?
Encontro Vincent sentado num pufe, com o olhar perdido. Convido-o para me seguir, mas ele prefere ficar ali. Minha única opção é catar o outro comedor de queijo fedido e levá-lo até onde está sentado o primeiro.
Encontro Pierre no mesmo lugar, como pedi - ao menos, ele se preocupou em não se perder de mim. Ele se anima ao me ver. “Podemos ir embora?”, pergunta. Confirmo que sim, explico onde está o seu marido e vamos.
De longe, percebo que Vincent não está mais lá. Sinto vontade de chorar no colo de minha mãe. Cansado, Pierre dispara: “vamos embora! Ele vai encontrar o caminho sozinho”.
Tenho preguiça de explicar que, no Carnaval de Salvador, andar é complicado. É como tentar sair do mar em meio a uma sequência de ondas. Tem que esperar a hora certa de deixar a água. Sem a minha guarida, a única coisa que aquele branquelo ganharia seria um boletim de ocorrência da Delegacia do Turista.
“Espere aqui, por favor. Eu vou atrás do seu marido”, eu disse a Pierre, sem convicção. Admito que fiz uma prece para São Longuinho. Acha esse gringuinho, que eu dou três pulinhos. Não é que encontrei o cara? Encerramos a estranha noite na hora combinada.
Tinha mais no dia seguinte, mas a proposta era bem diferente. Ficaríamos no Pelourinho. Antes de começar a me arrumar, chequei a programação dos diversos palcos gratuitos. Encontro o nome da banda mais quente do momento - Miss Suéter - e decido que será lá a primeira parada.
Vou poder calçar tênis e usar o boné que customizei com brilhos para homenagear o movimento social brasileiro que luta por reforma agrária enquanto repousa na doçura de distribuir alimentos e ser o maior produtor de arroz orgânico da América Latina.
Estou bem mais esperançosa sobre aquela noite: algo me diz que aqueles franceses se divertiriam muito mais com um Carnaval de rua e brincadeira do que com a sofreguidão interminável e aquela gente feia da noite anterior.
“Por favor, não use este boné na França”, advertiu Pierre depois de me saudar no saguão do hotel. MST, no francês, é a sigla para uma doença venérea. Rimos. Estamos mais relaxados agora. Até o meu francês perde o acanhamento e flui.
Miss Suéter dá um show e, na hora de um ótimo cover de Rita Lee, descubro que a fotógrafa da banda é ninguém menos que a minha irmã gêmea. Seu abraço quentinho pareceu o presságio de uma noite inesquecível.
Vincent se cansa precocemente e o levamos para o hotel. Uma pena. Pierre e eu, subitamente, entramos numa sequência de papos que foi do corriqueiro ao profundo como geralmente só fazem amigos de longa data.
Descemos a rua Chile até a Praça Castro Alves para ver Vivendo do Ócio. Lembro-me do baseado que enrusti dos porcos fardados. Sob a proteção da cor da pele de Pierre, preparo o cigarrinho de artista sem medo de tomar pau de policiais.
Ébria e encantada, saco um lápis de olho azul da bolsa, faço rabiscos ridículos no meu próprio rosto e peço para tatuar o meu novo amigo. Escrevo “Vincent” em linda caligrafia. Ler o nome de seu marido provoca em Pierre a gargalhada mais gostosa que ouvi este ano.
Marchamos até o Terreiro de Jesus, onde ofereço ao companheiro uma dose de Cravinho. Ele ficou tão apaixonado pela infusão de cachaça que retornaria ao estabelecimento no dia seguinte para levar duas garrafas para Paris.
Na despedida, Pierre enfiou notas de cem reais na minha bolsa enquanto eu estava distraída ao telefone. No dia seguinte, meu contratante me cumprimentou pelo trabalho. Sem um pingo de surpresa, sou informada de que o Carnaval do Pelourinho fê-los esquecer da primeira noite.
Gente demais deseja entrar naquele antro imprestável. Dar valor ao que é inacessível ou desconhecido é demasiadamente humano. É preciso minar o imaginário incorreto com a verdade. Fiz a minha parte, contei a todos que o melhor camarote só tem Petra. “Mentira. Lá ele!”, cravou o taxista.
É preciso parar de sonhar com a experiência frígida que diverte a nossa depravada elite e que rechaça a nossa alegria, a nossa autoestima, nossas sacramentadas tradições. Não deixemos que montem nos nossos ombros, que já suportam o mundo.
No próximo ano, a dupla vai voltar para passar o mais longe possível de qualquer experiência de segregação racial e econômica. Que a mão purpurinada do mercado apodreça e caia. Lembremos de que, como canta o Baianasystem, o Carnaval ainda quem faz é o folião.

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