sexta-feira, 30 de abril de 2021

ORÍGENES, CARYBÉ, CAYMMI, AMADO, ILDÁSIO...

 


Orígenes, Carybé, Caymmi, Amado, Ildásio ...

No Rio de Janeiro só se cantava “Pega no ganzá” o samba-enredo vencedor do carnaval em 1971. E “Jesus Cristo” na voz de Roberto Carlos. Trazia uma carta para Maria-Eduarda, filha do conde Marim, algarvio de Albufeira com muita honra. A gentil aristocrata vivia no pecado – o divórcio sendo proibido no Brasil – com Orígenes Lessa, autor de “O Feijão e o Sonho”. A empatia com o casal foi imediata e recíproca. Me desafiaram para ir ao casamento de João Jorge, filho de Jorge Amado. Desconhecendo os costumes do Além-Mar, declinei a boda por não ter sido convidado – nunca gostei de ser penetra – mas não hesitei em comprar passagem para o dia seguinte.

Ficaria hospedado no charmoso Vila Romana da Barra. Descendo a rua Greenfeld, só uma casa oferecia, debaixo da mangueira, uma macarronada pegajosa. Na Bahia, o arcebispo proibira a canção “Jesus Cristo”.

Foram curtos quatro dias, mas com agenda de ministro da cultura. Na casa dos Amado fui apresentado a Dorival Caymmi, com quem me deliciava em Lisboa com o LP “Maracangalha”. O poeta Ildásio Tavares nos conduziu uma noite à Lagoa do Abaeté onde nem se podia sonhar que cinquenta anos mais tarde um governo socialista (?) construiria uma estação de esgoto. Um buraco na areia para abrigar uma vela, um violão e haja seresta!

Carybé nos convidou para ir ao Axé Opo Afonjá, bem longe do centro. Eu não fazia ideia do que significava a palavra “Candomblé”. Uma tarde, depois de almoçar na Rua Alagoinhas, visitamos o atelier de um artista no Rio Vermelho. Todos elogiando. Preferi ficar calado.

Fui ao Mercado Modelo recém-inaugurado após um incêndio. No andar superior não havia quase nenhuma loja. Como poderia imaginar que neste mesmo piso, dez anos mais tarde, eu teria uma galeria de arte? E que também seria vítima de outro incêndio? Na Rampa do Mercado, por alguns cruzeiros, um saveiro me levou ao ritmo lento de uma brisa morna até Mar Grande, na ilha de Itaparica. Durante a travessia, o marinheiro me obrigou a tirar meus pés da água “por causa do cação”. Cação, o que é isso? Raras casas disseminadas à beira-mar, nenhum banhista, poucos moradores, muito mato e o sol impiedoso daquele princípio de março. Andei por longo tempo até chegar à praia da Penha onde me aguardava um boteco sombreado por palhas de coqueiro. Esqueci do cardápio, mas me lembro de ter perguntado se havia algum terreno à venda.

Voltando ao Rio, me senti meio decepcionado por Salvador não ter correspondido, com seus oitocentos mil habitantes, a fantasia criada pela leitura da tão sensual Gabriela Cravo e Canela. Porém, olhando pela janela do avião aquele modesto aeroporto parecendo casa de fazenda, rodeado de dunas brancas, pensei que um dia viria morar aqui.

 Dimitri Ganzelevitch

A Tarde, sábado 1 de maio de 2021

 

3 comentários:

  1. Foi um feliz encontro com a terra que você adotou para sua vida.

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  2. As pessoas com sensibilidade aflorada, que vem a Bahia e sentem um pouco do seu perfume ficam enfeitiçada e de suas malhas não conseguem livrar-se, por sua vez a Bahia também sabe a quem conceder seu cheiro e sua poesia, por tanto sinta-se um felizardo.

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  3. Bahia, outorgou-me régua e compasso para saber viver e fazer contraponto aos podres poderes

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