A delação premiada de Vorcaro
Cláudio André de Souza*
Em
rodada recente da pesquisa AtlasIntel/Bloomberg de fevereiro deste ano revelou
que 91,5% dos brasileiros acreditam que organizações criminosas controlam
esferas importantes da política e do sistema judicial do país. O dado é brutal
e vai muito além de uma percepção pontual de desconfiança, já que revela a
força de uma convicção enraizada entre os cidadãos comuns e que estrutura a
maneira como enxergamos as relações entre Estado e sociedade civil no país.
O
caso sui generis do Banco Master de Daniel Vorcaro revela a estratégia
de crescimento rápido e fraudulento que ganhou visibilidade ao oferecer
produtos de renda fixa, como CDBs, com rendimentos muito acima da média do
mercado, mas encobrindo falhas graves de lastro, liquidez e insolvência. O
tamanho do escândalo, que pode ultrapassar o rombo de R$60 bilhões, agora
envolve uma guinada na estratégia de Vorcaro, que trocou toda a equipe de
defesa e assinou um termo de confidencialidade para colaborar com a Justiça uma
delação.
Em
tese, a elaboração institucional e probatória da delação pode durar de três a
seis meses. A dúvida do momento é saber se a delação a ser encaminhada com o
aval da PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR) pode apresentar quatro
dimensões. A primeira é entender quais as conexões estabelecidas com alguns
ministros do STF e se houve consultoria ou tráfico de influência para facilitar
juridicamente os interesses do Master.
Uma
segunda dimensão é entender a relação do Master com os governos estaduais em
torno de 18 entes federativos cujos fundos de previdência investiram no Banco
Master. A terceira dimensão envolve o senador Ciro Nogueira (PP-PI), descrito
por Vorcaro como "um dos meus grandes amigos de vida", que propôs a
chamada "Emenda Master" para quadruplicar a cobertura do FGC de R$
250 mil para R$ 1 milhão — medida que beneficiaria diretamente o modelo de
negócios do banco, mas deixaria o nosso sistema bancário falido.
Uma
quarta dimensão envolve o presidente do União Brasil Antônio Rueda e a cúpula
nacional do partido como supostos “lobistas oficiais” de Vorcaro no Congresso para
ajudar na venda do Master para o BRB a fim de evitar a liquidação do banco. Em
outra frente, ainda há suspeitas como Vorcaro manteve relações com lideranças
do PT e com quais objetivos estratégicos quanto à defesa dos interesses do
banco.
De
maneira geral, a delação de Vorcaro promete causar muito impacto político e
eleitoral com maior foco na direita do que na esquerda, mas não há condições
sobre as quais se calcule o peso da delação para cada grupo, o que deixa em
aberto uma margem grande de incerteza que pode atravessar os próximos meses
decisivos para os atores políticos que disputarão as eleições. Clima tenso no
ar.
*Professor
adjunto de Ciência Política da UNILAB e pesquisador do Programa de
Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRB. E-mail: claudioandre@unilab.edu.br

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