quarta-feira, 4 de março de 2020

A SENSIBILIDADE DE DRÁUZIO VARELLA

Sete momentos em que Drauzio Varella deu aula de sensibilidade


Em reportagem especial ao "Fantástico" no último domingo, dia 1, o Dr. Drauzio Varella mostrou a dura realidade das mulheres trans privadas de liberdade. A repercussão da matéria nas redes sociais foi tão grande que a Secretaria da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo divulgou, na noite de segunda-feira, o endereço para envio de correspondências às reeducandas.
Numa das cenas, Drauzio conversa com Susy de Oliveira Santos. A mulher trans conta que não recebe visitas há quase oito anos e Drauzio a abraça, emocionado. Mas esse momento não foi o primeiro exemplo de atitude admirável do médico. Drauzio se mostra solidário, humano e aberto a falar sobre diversas questões de saúde pública com muita sensibilidade.
Aproveitando a repercussão da reportagem, listamos abaixo outros 7 momentos em que o médico oncologista, pesquisador e escritor deu aula de sensibilidade e desfez mitos e tabus da medicina.

1. Quando explicou tudo sobre o novo coronavírus sem alarmismo

No dia 27 de fevereiro, Drauzio publicou um vídeo no seu canal do YouTube e uma thread no Twitter (@drauziovarella) sobre o tema. O médico esclareceu todas as dúvidas em torno do novo coronavírus COVID-19. Sem criar alarde, Drauzio diz que "é fundamental não ceder ao pânico". O infectologista ainda criticou a disseminação de notícias falsas e sua relação com a xenofobia, já que muitos chineses foram alvos de comentários xenofóbicos só porque a doença teve início no país.
“Fake news, nesse momento, só serve para fortalecer atitudes xenofóbicas e atrapalhar a prevenção e a informação da população de forma correta”, diz o médico.
Ao explicar as formas de prevenção, Drauzio ressalta na sequência de tweets: "as recomendações são as mesmas que temos para evitar outras infecções respiratórias: Evite contato próximo com pessoas com infecções respiratórias agudas; Lave as mãos com frequência; Evite contato desprotegido com animais rurais e silvestres; Cubra boca e nariz ao tossir ou espirrar; Caso apresente sintomas e tenha viajado recentemente para a China, contate um serviço médico. Compartilhe e ajude a combater a desinformação!"

2. Quando ele deixou claro que a gravidez na adolescência também é responsabilidade dos homens

Em entrevista ao programa "Roda viva" no dia 10 de fevereiro, Drauzio Varella falou sobre a gravidez na adolescência e trouxe dados do SUS para a urgência do tema. Mas o médico foi além e propôs uma reflexão sobre a ausência de campanhas para diminuição da gravidez na adolescência que abordem a responsabilidade do homem.
"A gravidez na adolescência é uma realidade. 20% dos partos do SUS são de adolescentes. Só que toda a discussão de campanhas para gravidez na adolescência não falam para os homens. São os homens que engravidam as mulheres. Se eles já não tem responsabilidade no nosso nível, imagina na classe social mais baixa? Essa é a realidade de muitas casas brasileiras, que só tem mulheres", explicou ele.

3. Quando ele ressaltou que abstinência sexual não serve como política pública de saúde

A polêmica sobre a fala da Damares sobre a abstinência como política pública do Ministério foi alvo de questionamento ao infectologista no programa "Roda Viva". O médico ressaltou de forma concisa:
"É lógico que você pode aconselhar as pessoas a começarem a vida sexual mais tarde, mas você tem que saber que nem todo mundo obedece. Já foi feito isso no passado e deu errado. A gente sabe que não funciona"
"Você vê agora de que ‘não, não pode falar assim porque vai ofender a família brasileira’. Você tem que ensinar as crianças sexualidade. Faz parte de uma área da biologia humana. Educação sexual tem que ensinar na escola".
Drauzio Varella participa do programa 'Conversa com Bial', em debate sobre HIV
Drauzio Varella participa do programa 'Conversa com Bial', em debate sobre HIV
"Estão discutindo agora isso, que não pode dar aula de educação sexual, da biologia sexual. Por que o que acaba com esses preconceitos todos? Quando você aprende que a sexualidade se impõe, você não escolhe."

4. Quando ele esclareceu diversas dúvidas sobre infecções sexualmente transmissíveis, como o HPV e a síflis, sem julgamentos

Apesar da circulação de campanhas sobre infecções sexualmente transmíssiveis, prevenir doenças desse tipo ainda é um desafio. Por isso, o Dr. Drauzio Varella fez uma transmissão ao vivo ao lado da youtuber Maíra Medeiros, do canal Nunca Te Pedi Nada, convidando os jovens para uma conversa sobre ISTs em um bate-papo franco, sem tabus e sem julgamentos.
Drauzio e Maíra Medeiros, do canal “Nunca te Pedi Nada”, tiram dúvidas sobre infecções sexualmente transmissíveis
Drauzio e Maíra Medeiros, do canal “Nunca te Pedi Nada”, tiram dúvidas sobre infecções sexualmente transmissíveis

5. Quando, nos anos 80, foi pioneiro ao se dedicar aos estudos da AIDS no Brasil

Há vinte anos, Drauzio Varella publicava o livro "Estação Carandiru". Em 1989, o médico iniciou um trabalho de prevenção à Aids com os presos da Casa de Detenção de São Paulo. O livro foi fruto de uma pesquisa de dez anos de atendimento voluntário no maior presídio do Brasil. Em 2003, "Estação Carandiru" foi transformado em filme, por Hector Babenco, e recebeu o Prêmio Jabuti 2000 de livro do ano. Até hoje, o material é referência no estudo da AIDS no Brasil e vendeu centenas de milhares de exemplares.
Dr. Drauzio Varella, durante suas consultas aos presos da Casa de Detenção fotografava todo preso que possuía alguma tatuagem
Dr. Drauzio Varella, durante suas consultas aos presos da Casa de Detenção fotografava todo preso que possuía alguma tatuagem Foto: José Luis da Conceição / Agência O Globo

6. Quando saiu em defesa das pessoas transgênero sobre o acesso aos banheiros públicos

Em 2016, o médico publicou um artigo sobre banheiros transgêneros. Drauzio, que costuma sair em defendesa a saúde mental das pessoas trans, relembrou o artigo no ano passado.Parte do texto do médico reafirma os direitos das pessoas trans e expõe uma problemática a respeito do uso dos banheiros por pessoas transgênero:
"Em pleno século 21, é ignorância inaceitável considerar distúrbios mentais, transtornos de personalidade ou falta de vergonha, as expressões de gênero que não se enquadram no comportamento da maioria. A questão dos banheiros vai além dos direitos civis, porque afeta a saúde. Por interferir com funções fisiológicas essenciais, dificultar o acesso a eles aumenta o risco de infecções urinárias, renais, obstipação crônica, hemorroidas e impede a hidratação adequada de quem evita beber água para conter a necessidade de urinar."
Foto: Divulgação

7. Quando fez um vídeo sobre homossexualidade e decidiu doar toda a arrecadação à instituição Exércitos da Salvação

"A homossexualidade é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados", afirmou Drauzio, em vídeo com o tema 'Homossexualidade'. O conteúdo foi publicado no YouTube no dia 15 de setembro de 2014 e tem mais de 1 milhão de visualizações. No dia 22 de junho do ano passado, Drauzio fez um vídeo de 27 segundos entitulado: 'Doei um vídeo para o Exército da Salvação'.
O médico explica que, a partir do dia em que o segundo vídeo foi publicado, toda a renda arrecadada com as visualizações do vídeo seria doada para a instituição. Ele finaliza com um convite: 'E você, tem alguma coisa para doar para o Exército de Salvação?' O Exército da Salvação é uma instituição de caridade cristã protestante que recebe doações e realiza bazares beneficentes.
Foto: Reprodução

terça-feira, 3 de março de 2020

VIENA: A VALSA NÃO PERDE ESPAÇO




CLARO QUE, PARA NOS, NOVO MILÊNIO, ESTE BAILE NA ÓPERA DE VIENA, PODE PARECER OBSOLETO E ATÉ UM TANTO KITSCH.

MAS VAMOS RESPEITAR UMA TRADIÇÃO SECULAR, UMA DANÇA CUJA ORIGEM DATA DO FIM DO SÉCULO XVI.
EM ALGUMAS ÉPOCAS E SOCIEDADES A VALSA CHEGOU A SER PROIBIDA POR INDECENTE.

O BAILE AQUI FILMADO É UM RITO DE PASSAGEM, QUANDO AS JOVENS SÃO APRESENTADAS A SOCIEDADE, CONSIDERANDO-SE QUE, A PARTIR DESTA DATA PODERÃO CASAR.

RITUAIS SEMELHANTES - COM OUTRAS FACETAS - EXISTEM NA ÁFRICA E NA ÁSIA.

MAS QUEM ASSISTIR PODERÁ CONSTATAR QUE NOVOS TEMPOS IMPÕEM OUTRAS REALIDADES. NEGRAS NO CORPO DE BALÉ E NOS CAMAROTES, CASAIS COM SÍNDROME DE DOWN E CASAIS DE HOMENS DANÇANDO NO MEIO DO SALÃO.

ALTRI TEMPI, ALTRI COSTUMI...

A VOZ HUMANA DAS BALEIAS BRANCAS

Belugas imitam a voz humana

Desde o início dos anos 60 os Estados Unidos começaram um programa de treinamento com mamíferos marinhos para ensiná-los a recuperar torpedos e detectar  minas marinhas entre outras tarefas. Mais tarde, fizeram uma tremenda descoberta ao trabalharem com Belugas.

Belugas e a Guerra Fria no Ártico

Em meados da década de 70 a guerra fria naval se deslocou para o Ártico onde os últimos submarinos soviéticos se dirigiam escondendo-se debaixo da calota de gelo, um ambiente difícil até mesmo para alguns mamíferos marinhos como focas e golfinhos treinados pelo Navy Marine Mammal Program (NMMP). A Marinha dos Estados Unidos chegou à conclusão que precisava mamíferos marinhos com seus sonares embutidos, capazes de localizar e recuperar torpedos experimentais afundados nas águas geladas e de baixa visibilidade do Ártico.
Em agosto de 1977, com o consentimento do governo canadense, Sam Ridgway, um veterinário nascido no Texas co-fundador da NMMP, enviou uma equipe para a costa do norte de Manitoba. Lá a Marinha iria caçar os primeiros belugas do Ártico para uma nova iniciativa.
belugas, imagem de baleia belga

Seis Belugas capturados no Ártico

Entre 1977 e 1980, seis belugas foram capturados para este fim. Entre eles estava um com apenas 2 anos, batizado Noc. O mais novo dos recrutas, Noc, viveu praticamente toda sua vida em cativeiro trabalhando lado a lado com treinadores humanos no Navy’s Space and Naval Warfare Systems Center, Point Loma, California. Alguns dos treinamentos eram feitos no local, mas outros eram em mar aberto e mesmo assim os animais retornavam ao navio de treinamento.

De tanto ouvir a voz humana belugas passaram a imitá-la

Sam Ridgway contou que seu escritório ficava perto do local de cativeiro dos animais que, assim, podiam ouvir as vozes humanas. Sam contou que certa vez dois mergulhadores da marinha faziam reparos submarinos  em Point Loma. Ao longo das seções conversavam com  seu superior, na superfície, através de um aparelho conhecido como “wet phone”. De repente um dos mergulhadores subiu à tona e perguntou quem havia dado a ordem para que o trabalho parasse. Foi então que Sam desconfiou que os belugas tinham a capacidade de imitar a voz humana.
A partir de então o treinador passou a gravar as vocalizações dos belugas. Noc é o primeiro animal do gênero a ter sua voz gravada na internet.
O caso intrigou a ciência. Em 23 de outubro de 2012 uma edição da revista Current Biology publicou o trabalho “Spontaneous Human Speech Mimicry by a Cetacean”,  de Sam Ridgway. Poucos dias depois a voz de Noc estava disponível em milhares de computadores.
Aqui você pode ouvir os sons produzidos pelos belugas.

CONDER, BARULHO, POEIRA...


... E SERVIÇO FEITO NAS COXAS


DESDE MINHA JANELA, OBSERVO HORÁRIOS E FORMAS DE TRABALHAR DA EMPRESA A SERVIÇO DA CONDER.

ENTÃO, APÓS UMA ESPERA DE QUATRO OU MAIS ANOS - EM VÉSPERA DE ELEIÇÕES -  DE REPENTE O GOVERNO RUI COSTA SE LEMBROU DO BAIRRO DE SANTO ANTÔNIO.
TALVEZ POR CAUSA DAS NOVELAS OU DOS GLOBAIS QUE, TAL QUAL UM TSUNAMI, ESTÃO INVADINDO O PEDAÇO.

PRONTO! RESOLVERAM ASSUMIR - TARDIAMENTE - O COMPROMISSO.

MEU CORREDOR, MINHA BIBLIOTECA, MEU COMPUTADOR ESTÃO COBERTOS DE POEIRA. SE FOR PARA O BEM PÚBLICO, A GENTE ACEITA.

MAS O PROBLEMA É QUE TRABALHAM LENTAMENTE E MAL.



E MAIS: VÃO MANTER OS ABOMINÁVEIS POSTES E A FIAÇÃO ELÉTRICA.

O IPHAN NADA TEM A DECLARAR? SERIA O MOMENTO OU NUNCA!

ALIÁS.. QUANDO FOI QUE O IPHAN FALOU ALGUMA COISA PELA ÚLTIMA VEZ PARA A PRESERVAÇÃO DO BAIRRO DO SANTO ANTÔNIO?...

EDIR, PASTOR SEM ESCRÚPULO

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segunda-feira, 2 de março de 2020

O AZULEJO PORTUGUES

Comunidade Cultura e Arte

A história do azulejo português



A história do azulejo português

O azulejo é uma das marcas mais distintivas daquilo que é a cultura portuguesa. A constituição de muitos dos edifícios e dos espaços públicos lusos são ornamentados e complementados com as figuras representadas nesses espaços de tonalidade azul. Em muitos deles, está condensada a história e a memória de milhares de lusitanos, tanto a daqueles que dão vida a essas representações, como aqueles que se encontram honrados e homenageados em várias vilas. As paredes nacionais, ao contrário de tantas outras, não se fecham, abrindo portais para outras dimensões temporais, para tempos remotos, onde a recordação ainda pulsa bem na proximidade dos que caminham e dos que tocam em consagrada realização.
Embora proeminente e ressurgente na cultura portuguesa, o azulejo tem derivações árabes na própria semântica. O termo azzellj significa pequena pedra polida, e foi usado para designar o próprio mosaico usado na arte bizantina. Porém, concernindo tal e qual àquilo que conhecemos hoje, designa uma peça de cerâmica de espessura pequena, normalmente quadrada, com uma das faces vidradas. Formatada tradicionalmente em 15×15, resulta da cozedura de esmalte, que reveste e torna impermeável e resplandecente essa peça quadrada. Diante de divisões e de contextos húmidos, tornou-se aplicado com regularidade, assentindo em resistência e em parcas despesas. Podendo-se desdobrar em lisas, relevadas, monocromáticas ou policromáticas, as peças em azulejo foram usadas, principalmente, no revestimento de obras arquitetónicas, aplicando-se tanto nos interiores, como nos exteriores, e expondo vários episódios e cenas alegóricas, religiosas e históricas, estando dependente do contexto do seu uso. O seu alinhamento como ornamento passou a, não só apresentar-se como um complemento às várias tendências artísticas, mas também como uma estetização artística e identitária do espaço que incorporam, que representam, e em que se presenciam.
Curiosamente, já em tempos do Antigo Egito e da Mesopotâmia que se evidencia o emprego do azulejo, tendo conhecido expansão geográfica e expressiva a partir da presença e manifestação islâmicas na região mediterrânica, propagando-se por toda a Península Ibérica. É no Oriente que se consagra a produção de revestimentos para a própria porcelana chinesa, e a sua arte, à proporção da dinâmica de alargamento islâmico, alcançou as próprias regiões onde se fez sentir. Assim, artesãos muçulmanos fixaram-se em vários pontos da península, e, tendencialmente, plantaram as sementes da arquitetura mudéjar em solo espanhol, e da arte do azulejo em Portugal. Tudo isto bem a meio deste milénio. Nisto, importou, também, a tradição cerâmica portuguesa, que abdicou de importar de Espanha para fazer o seu próprio azulejo, e que propagou esse mesmo engenho para as colónias que detinha então. O sentimento de encanto foi imediato, e perspetivava-se uma eternização destes mosaicos naquilo que seria uma herança para os artesãos ibéricos.
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Azulejos numa parede em Alcazar de Sevilha, em Espanha
O lugar de destaque, tanto em nível de aplicação como de produção, que assumiu em terras lusitanas despoletou em 1498, aquando de uma visita do monarca D. Manuel I a Espanha. Numa fase em que a nação ainda era ignota em relação à variedade de obras mouriscas e ao seu ornamento com o azulejo, foi com deslumbramento que percecionou tamanha riqueza artística. Foi então que decidiu, antes de orquestrar mecanismos de feitura (para além dos de pintura de faiança, oriundos de Itália), importar para a sua residência, no Palácio Nacional de Sintra, mesclando-os com a arquitetura ousada, com a envolvência de portadas e janelas, e com o reforço do verde no seu redor (a apetência por potenciar os fartos espaços verdes). Com ele, vieram algumas técnicas arcaicas, para além de costumes decorativos e de uma abordagem geométrica bem complexa.
No entanto, a sua chegada a Portugal levou a que o azulejo passasse a afeiçoar-se ao gótico de então, e a uma estética que seguia o normal decurso das circunstâncias e dos tempos. A diversidade de povos no império ultramarino conferiu variedade à sua expressão, providenciando a originalidade e a distinção. Oficinas de olaria começaram a surgir, destinadas a incorporar as várias lufadas provenientes de fora, sem nunca descurar o papel que as outras artes, principalmente a cerâmica e a arquitetura, assumiam nesta nova articulação produtiva; que era alimentada pelas várias encomendas nobres e clericais. A inspiração nunca se desligou da relação com outros caminhos artísticos, como a ourivesaria ou as demais artes decorativas, capacitando-se para embelezar e complementar os grandes solares, palácios, jardins e conventos.

De Itália, país também familiar ao azulejo, veio a majólica. Esta trata-se de uma técnica que permitiu pintar diretamente no azulejo vidrado, e que seria proeminente na diferenciada herança portuguesa. Trazida por Francisco Niculoso para a península, originou a criação de oficinas de cerâmica, complementadas pela chegada de vários artistas flamengos, também estes perfumados com a majólica. O século XVI estendia, assim, a oportunidade de, tanto Portugal, como Espanha, apresentarem os seus próprios azulejos, produzidos e apresentados em suas terras. Também de origens transalpinas, advêm os preceitos de transição do Renascimento para o Maneirismo, convidando o flamengo para uma estética mais harmonizada e para um maior privilégio do figurativo.
Com o crescente abandono das influências mouriscas, chega uma vontade de representar a mitologia e a religião nesses espaços, a partir de alegorias e de epopeias mais ou menos imaginárias, o que alimentou a Contrarreforma católica de então – reforçou o caráter apelativo e persuasivo dentro dos fiéis. A arquitetura influi no seu aspeto ilusório (p.e., a técnica do trompe l’oeil), para além de uma maneirista obsessão nos pormenores decorativos, como anjos, vasos, flores ou frutas. O seu valor e estima foi, gradualmente, ganhando volume, e conheceu comparação à pintura mural então célebre. Dois dos mestres na azulejaria deste período foram Marçal de Matos e Francisco de Matos, precursores de um método de trabalho com pastas artificiais e mais recetivas ao lavoro no próprio material. Espaços que se destacam nesta fase são a Quinta da Bacalhoa, e a Capela de São Roque, ambas situadas em Lisboa, onde dominam os tons suaves e a variedade ornamental, para além da presença mitológica e religiosa.
Ao mesmo tempo, surge uma nova forma de expressão estética do azulejo, que, apesar de não prescindir do pormenor decorativo, acaba por ser menos oneroso. Assim, surgem os enxaquetados, que se dispõem de forma axadrezada, e que revestem grandes superfícies de monumentos religiosos. Nestes, assenta uma palete monocromática ou bicromática, apresentando-se de forma diagonal, e suscitando uma interessante dinâmica visual. No entanto, e para contrariar o processo moroso que a feitura destes implicava, surgiu o azulejo de padrão, que apostou na repetição de esquemas geométricos nessas mesmas grandes superfícies (exemplo de um espaço com a sua aplicação é o Convento de Cristo, em Tomar), e originando os propalados frontais de altar. O século XVII trouxe, com a perda da independência, uma menor aposta na produção do azulejo, embora regressem no pós-Restauração, inspirados pelos tapetes persas e pelos tecidos indianos, para além da louça chinesa, desligada de uma dinâmica repetitiva e sistemática. É a partir destes trabalhos mais ornamentados e diversificados que surge o azulejo de tapete, mais colorido e exótico, que aposta em representações fantásticas e paradisíacas (apresenta-se, por exemplo, na Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego), e que substituem os tecidos originais dos altares e das superfícies religiosas amplas (usados no Convento de Santa Cruz do Buçaco).
Para além das influências orientais, que trariam o azul da porcelana chinesa, e o dinamismo exuberante e brilhante dos ornamentos e tecidos, vieram as italianas, que originaram o surgimento dos azulejos grotescos (patente no Convento da Graça, em Lisboa). O burlesco é a nota dominante destes, rodeado e contextualizado num fantástico de caos e de incoerência, não obstante o seu realismo, pontificando a sua cenografia. Apesar dos repertórios serem rebuscados, no sentido em que já tinham sido empregues noutras gravuras, as temáticas a si associadas acabaram estendidas nas grandes escalas onde o azulejo atuava em Portugal. Tudo isto sem esquecer o que chegou da zona da Flandres, por via da familiarização com as gravuras dessa região. Portugal conhece, assim, a albarrada, surgindo com um caráter mais liberalizado no traçado, e com figuras de jarras com flores, mais vegetalista e exótico que o normal, mas com fundamentos geométricos.
O resgatar da independência devolveu força à nobreza, que investiu na construção de vários edifícios palacianos. Encantados pelo azulejo, solicitam que seja este a revestir grande parte das suas casas e jardins. Com uma palete policromática, as cenas retratadas prendem-se, sobejamente, com os cinco sentidos, associando-os às atividades de lazer das figuras nobres. A segunda metade do século XVII trouxe, num clima de expansão e de modernização, a macacaria, que, como o próprio nome indica, representa macacos trajos em atividades humanas. Dominado por tons azuis e amarelos, e importado da Flandres, suscita um grande caráter satírico, criticando vários costumes e figuras da realidade nacional de então, e estende-se até ao século XIX. A finalizar o século XVII, chegam ciclos matizados com azul e branco, que bebem dos trabalhos da cerâmica chinesa, e que se tornariam a principal referência da azulejaria daí em diante. Porém, as tendências pelas miniaturas diminuem em detrimento de expressões com maiores dimensões, e que se adequam aos contextos arquitetónicos nacionais. Assim, e dos Países Baixos, passam a entrar painéis de temas religiosos, militares e sociais; para além dos de figura avulsa, com cenas simples e mais restritas, tais como a representação de alimentos, e com aplicação em pequenos espaços dos grandes recintos lusos.
A aplicação do azul sobre o fundo branco, para além de permitir que a pintura se concentre, evidencia o valor e a qualidade do traço, que incentivam as oficinas nacionais a dar luta às referências flamengas. É neste panorama que a produção portuguesa dispara, e que, com o contributo do imigrante vindo de Espanha Gabriel del Barco, apresenta uma vaga de mestres lisboetas, como os nomes de António de Oliveira Bernardes, o seu filho Policarpo de Oliveira BernardesManuel dos Santos, e P.M.P., que manteve o anonimato até à sua morte. O exterior perde importância, e as encomendas para trabalhos de azulejaria exclusivamente nacional aumentam com retumbância, culminando no Convento de São Vicente de Fora, em Lisboa; e no Palácio da Mitra, em Azeitão. Foi uma fase em que de muito valeu a riqueza advinda das minas de ouro e dos diamantes brasileiros, e em que a quantidade de painéis históricos conheceu um elevado número. Este também contou com uma abordagem cada vez mais intermitente e variada, intercalando os resquícios mouriscos com as técnicas importadas de Itália e da Flandres, levando à concretização de uma profecia que, embora industrializada, se tornou imprevisível e despojada de rotinas.
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Convento de São Vicente de Fora (1629), em Lisboa
A estética, muito perfumada pela arte barroca, levou a que os azulejos fossem trabalhados de um modo cada vez mais exuberante, retratando contextos do quotidiano cortesão, para além das habituais alegorias, dos episódios bíblicos, e de circunstâncias da fase dos Descobrimentos. Os ornamentos, por si só, são aplicados com o intuito de suscitar ilusões de ótica, para além de serem usados com base no chiaroscuro, buscando os contrastes entre o escuro e o claro. É vasta a literatura que chega de artistas franceses, que alimentam a vontade de conferir vitalidade e variedade ao trabalho de azulejaria, procurando recorrer e espalhar os côncavos e convexos (na volumetria), os entrelaçados, as flores e os frutos, entre outras conceções arquitetónicas. As igrejas tornaram-se totalmente revestidas pelos ondulantes azulejos, incluindo as abóbadas e os tetos, que complementam a própria talha dourada das mesmas. Neste período, ressalvam-se as figuras de Teotónio dos Santos e de Bartolomeu Antunes, e o imponente Palácio dos Marqueses de Fronteira, um dos primeiros grandes exemplares da azulejaria nacional.
O século XVIII trazia o rococó de França, e trá-lo-ia, sucessivamente, para o azulejo. Assim, a policromia está de volta, assente no amarelo, no verde, e no violeta, para além da maior leveza e graciosidade que os próprios ornamentos adquirem, e do próprio azul do cobalto. Com as molduras a perderem parte do seu volume, chegam as flores e as folhas ainda com maior relevância, que aconchegam as cenas bucólicas e idilizadas pelos mestres de azulejaria, e que dinamiza a arquitetura a partir da disposição diagonal que apresenta. Neste prisma, o azulejo acaba por transmitir abertura a espaços outrora fechados e cingidos à horizontalidade e à verticalidade dos seus suportes, desmontando a dimensionalidade arquitetónica com uma franca e profunda perspetiva. As técnicas artesanais, ainda antecessoras dos métodos industriais, permitem que as cores se tornem mais garridas e cintilantes, e reforçam a ondulação que a superfície suscita, ajustando-se às necessidades mais proeminentes dos edifícios.
Porém, o terramoto de 1755 tornou urgente a reconstrução da cidade lisboeta, e levou a que o azulejo de padrão voltasse a ser o mais massivamente produzido, tornando-o mais do que uma mera peça, e sim mais uma linha de orientação própria da cidade. De baixo custo, permitia a aplicação rápida nas várias fachadas da cidade, contando com a presença de figuras religiosas de proteção contra as adversidades naturais. O neoclassicismo também se fez sentir neste período, descartando a primazia decorativa, e pensando mais em razão e em utilidade, levando a uma maior profissionalização dos seus obreiros e pintores. Foi assim que nasceu, também embrenhado na época das luzes, o azulejo pombalino, que se tornou bastante reproduzido na Fábrica Sant’Anna, esta que permanece ativa na produção de faianças e de azulejaria através de mecanismos fortemente manuais. Para além de grande parte da moderna Lisboa, evidencia-se, nesta fase, o Palácio Nacional de Queluz.
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Igreja de São Quintino (1530), em Sobral de Monte Agraço
A este período, seguiu-se o século XIX, no qual o exército francês de Napoleão Bonaparte invadiu Portugal, e condicionou a família real a mover-se para o Brasil. Desta feita, e em território nacional, assistiu-se a um decréscimo da produção de azulejaria e da construção arquitetónica. Porém, em terras canarinhas, o desenvolvimento que não se sentiu em Portugal foi possível de se percecionar lá. Com especial destaque para o norte do país, notava-se uma tendência para a sua aplicação no revestimento total de fachadas de vários espaços arquitetónicos, assente nas caraterísticas térmicas e robustas do azulejo, com algumas delas anteriores às elaboradas em Portugal. Este, por si só, permitia arrefecer o interior e refletir o calor, replicando as fortes chuvas tropicais que se sentiam lá. Porém, é curioso de se denotar que não é nas zonas mais chuvosas e áridas que se presencia a aplicação do azulejo, tratando-se de teorias que, apesar de exequíveis, não se comprovam na atualidade. No rescaldo da Guerra Civil, sob a orientação liberal, o azulejo permaneceu um recurso acessório de vários edifícios civis e comerciais.
O que é assegurado é um prematuro trabalho com azulejaria, tanto para interiores, como para exteriores, e que o fornecimento da matéria-prima necessitou de provir de outros países, tais como França, ou Holanda; embora os primeiros revestimentos tenham sido efetivados com azulejaria portuguesa. Resquícios desses trabalhos permanecem bem vivos, para além de residências e de outros espaços urbanos, em Salvador da Bahia (Ordem Terceira de São Francisco de Salvador, Colégio 2 de Julho), em Campinas (Palácio dos Azulejos, eventual Museu da Imagem e do Som), e no Rio de Janeiro (Igreja do Outeiro da Glória). Pouco após finalizarem as diversas intempéries políticas que assolaram Portugal, a produção foi-se alterando e adaptando às novas conceções de estética e de aplicação, tornando-se familiarizadas com os métodos que migrantes nacionais traziam.
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Igreja da Boa Viagem (1712-48), em Salvador da Bahia, no Brasil
Esses migrantes trouxeram o apreço e a conivência com as fachadas totalmente azulejadas, destacando-se na região da cidade do Porto, reforçando a sua identidade de cosmopolita e de urbano, e adaptando os novos recursos industriais para a sua produção. Apesar de vozes dissonantes em relação à redução do intimismo que a habitação sentia, sentiu-se a valorização que os exteriores conheciam, que viria a autenticar e a reforçar o caráter único e singular da arquitetura portuguesa, nomeadamente neste período marcadamente romântico. Não obstante essas vozes contrárias a esta nova abordagem da azulejaria na dicotomia dos interiores/exteriores residenciais e arquitetónicos, dependiam do contexto regional e tradicional das mesmas, considerando, de certo modo, excessivo tamanho revestimento.
Esta nova página da história da azulejaria portuguesa, conhecida pela relevância do azulejo de fachada, também se fez sentir nos suportes arquitetónicos dos edifícios, decorando-se com os vasos cerâmicos e com estátuas alegóricas, que, apesar de raras, se encontram por Portugal e pelo Brasil. Os principais núcleos de elaboração de azulejos concentravam-se nos dois polos citadinos do país, referenciando-se por Lisboa (Fábrica Viúva Lamego) e pelo Porto (Fábrica de Cerâmica das Devesas, em Vila Nova de Gaia). O romântico traz, desta feita, algumas bifurcações, tais como os trabalhos de Luís Ferreira, – conhecido por Ferreira das Tabuletas – que se muniu de muitas alegorias e de vários detalhes bucólicos para não deixar a fase anterior adormecer perante as novas metodologias de feitura; e Jorge Colaço, que se cimentou numa perspetiva historicista e laudatória, e que se destacou como desenhador, colmatando nos vinte mil azulejos que apresentou na Estação de São Bento, no Porto, para além de intervenções na Igreja de Santo Ildefonso e na Igreja dos Congregados; no Palácio Hotel do Buçaco, e até num tríptico no Palácio de Windsor, em Inglaterra. Apesar destes dois nomes especialmente figurativas, o Romantismo nunca se privou das suas tendências, expressas em azulejos de padrão capazes de arrefecer as cargas emitidas pelas fachadas urbanas, e em papéis de parede para amenizar os próprios interiores.
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Casa de Ferreira das Tabuletas (1864), em Lisboa
Na viragem para o século XX, a diversificação produtiva deteve-se com um exponencial crescimento, no panorama da Arte Nova (tradução e adaptação nacional da Art Nouveau) arrancando, com intensidade e fulgor nos seus frisos, com os nomes de Rafael Bordalo Pinheiro, conhecido pelas decorações de vários palacetes, e do ceramista Jorge Barradas, que se destacou pelos painéis seiscentistas e maneiristas. A obra de ambos fundiu-se numa certa afeição nacionalista até à nova política arquitetónica assumida pelo regime salazarista, que preteriu o azulejo em relação ao mármore. Do outro lado da barricada, e em meados do século, houve nomes que conferiram uma sustentada vontade de valorizar o património azulejista. Na linha da frente, surge Maria Keil (“O Mar”, de 1958-59), que apresenta uma obra de grande modernidade e inovação em relação ao paradigma vigente do azulejo, com uma linguagem geometricamente simplista e renovada, bebendo, também, do abstracionismo. Do expressionista Júlio Resende (“Ribeira Negra”, de 1984), passa-se, entre vários outros, pelo multiforme e sensorial Júlio Pomar, pelo pictórico Sá Nogueira, pelo figurativo e satírico João Abel Manta, e pelo desconstrutor e ilusório Eduardo Nery. O caráter especial e peculiar que o azulejo adquiriu em Portugal foi reforçado pela consolidação do Museu Nacional do Azulejo, edifício secular criado por D. Leonor, esposa do monarca D. João II, no antigo Convento da Madre de Deus, em Lisboa; e que acompanha a evolução histórica e diacrónica do azulejo como método de expressão artística nacional; para além do vasto repertório nacional, da sua interseção com expressões culturais internacionais, e do realismo empregue no seu desenvolvimento.
O azulejo é, desta forma, uma das notas marcantes e perseverantes da cultura portuguesa, tanto no plano material como imaterial, onde se transpõe e se supera às formatações e representações físicas, mostrando-se cúmplice da metafísica religiosa e da alegoria imaginária. Mais do que um elemento decorativo ou que um ornamento, significa uma extensão da caminhada artística e criativa de um país que, no meio de várias contrariedades, nunca se privou de vincar a sua identidade. Portugal conhece, na sua arquitetura citadina e rural, uma série de consagrações de azulejaria, com diferentes descrições narrativas, mas sem nunca esquecer a plenitude de mentes e de emoções que encaminharam a sua produção e estetização. Com o azul do céu, um Portugal mais original e íntimo das divindades, que em si conheceram artísticas realidades.
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“Morte de São Francisco de Assis” (1929), painel localizado na Capela das Almas, no Porto
Fotografia em destaque: Painel de azulejos no interior da Estação de São Bento, no Porto, retratando o Infante D. Henrique na conquista de Ceuta. Trabalho do azulejista Jorge Colaço.

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