segunda-feira, 10 de março de 2025

GENE HACKMAN MORREU

O que morre primeiro? O homem ou o mundo ao redor?
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Gene Hackman morreu antes de seu coração parar de bater.
Teve fome. Teve sede.E ninguém veio.
E então o grande Gene Hackman, morreu. Não de doença, não de fome. Mas de esquecimento. Qual a verdadeira morte? A do último suspiro ou a do instante em que ninguém percebe a sua falta?
Betsy, sua esposa, morreu primeiro. Hantavírus. Uma doença transmitida pelo pó das fezes de roedores. Antes ela foi à farmácia e levou o cãozinho ao veterinário. Não sabia que aquelas eram suas horas finais. Talvez tenha passado a manhã dobrando roupas. Talvez tenha planejado o jantar. De repente, o fim. Fulminante, sem aviso, sem tempo para despedidas e providências.
Gene ficou sozinho, sem entender. Por sete dias, perambulou pela casa. O Alzheimer havia apagado a capacidade de pedir ajuda. Talvez tenha, no fundo da mente, sentido o vazio. Talvez tenha chamado por Betsy. Mas isso não se soube ou saberá, porque ninguém estava lá.
O que acontece quando um homem se torna invisível?
Gene Hackman foi um dos maiores atores de Hollywood. Um ícone. O rosto duro, a voz grave, o talento bruto. Duas vezes vencedor do Oscar, amado pelo público. Mas o que isso significa quando se tem 95 anos e se está sozinho e desamparado?
A fama é um engano que o tempo desfaz.
O que resta quando o telefone para de tocar? Quando presumem que você não quer ser incomodado? Quando a casa confortável se torna território de esquecimento?
Ninguém bateu.
E o homem um dia visto por milhões, partiu sem que ninguém olhasse.
A solidão dos que vivem muito por vezes me assusta. A velhice é um país inóspito. Ninguém quer visitá-lo sem garantia de segurança, mas raros são os que tomam decisões para que a vida não se dissolva quando não houver mais reuniões de trabalho, jantares com amigos, idas ao cinema.
Recolho em mim cada lição dessa tragédia: morrer é caminho sem testemunhas; a fama, uma ilusão que se desmancha na poeira; e escolhas para a velhice devem considerar vários cenários, pois a vida é imprevisível. Ela nos surpreende em uma esquina qualquer, com a sua maleta transbordante de espantos.

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