quarta-feira, 3 de novembro de 2021

A MORTE DA PRINCESA DIANA

 


Desta vez o Luiz Fernando Veríssimo se superou.

A melhor definição de GLOBALIZAÇÃO
Pergunta:
Qual é a mais correta definição de Globalização?
Resposta:
A Morte da Princesa Diana.
Pergunta:
Por quê?
Resposta:
Uma princesa inglesa com um namorado egípcio, tem um acidente de carro dentro de um túnel francês, num carro alemão com motor holandês, conduzido por um belga, bêbado de whisky escocês, que era seguido por paparazzis italianos, em motos japonesas. A princesa foi tratada por um médico canadense, que usou medicamentos americanos. E isto é enviado a você por um brasileiro, usando tecnologia americana (Bill Gates) e provavelmente, você está lendo isso em um computador genérico que usa chips feitos emTaiwan e um monitor coreano montado por trabalhadores de Bangladesh, numa fábrica de Singapura, transportado em caminhões conduzidos por indianos, roubados por indonésios, descarregados por pescadores sicilianos, reempacotados por mexicanos e, finalmente, vendido a você por chineses, através de uma conexão paraguaia
Isto é  *GLOBALIZAÇÃO!!!*

UMA FESTA! (SIC)

 


Sou preconceituoso, sim senhor. E daí? Por acaso você não é? Jura!

Todos nos somos. Não no atacado, claro. Aí somos política e ideologicamente certinhos. Nem tanto a esquerda e muito menos a direita. No meio, com olhares canhotos. Mas no varejo o negócio é outro. 

Foi no carnaval de 1987 que assumi sem remorso meu preconceituismo (sic).

Sabendo que estava para chegar a Salvador um amigo belga com título sonoro, o tal casal convidou-nos a uma festa pré, deixando entender que seriamos “os de honra”. Exatas sete noites antes da folia oficial, teríamos que ir, vestidos a fantasia, á determinado endereço para rir e dançar e beber e cantar todos os cânticos dos carnavais passados até Morais Moreira.

Cânticos, sim. Carnaval não é uma religião, neste país onde tudo é o Mais da América Latina e Adjacências? Não se reza de braços e pulmões abertos para o céu, extasiados?... 

O convite era para “umas dez horas da noite”. Francamente. Não é assim que se convida gringos ainda desajeitados. Por favor!

Ou é 22:15, ou é 23:50. Isto, sim, é convite claro. Agora “umas dez horas da noite” e ainda por cima para jantar?!... Só dá constrangimento, porque quando a gente toca o timbre, a patroa ainda está descansando e o fazendeiro fazendo a barba.

“Sentem aqui só um momento já venho tome um uísquizinho esteja à vontade a casa é sua desculpe qualquer coisa” e por ali vai.

Teremos todo o tempo de examinar a trágica decoração do apart. O endereço já era para se ter mais cautela. Afinal, de quem mora naquele bairro, no primeiro andar, esquina de duas ruas barulhentas, acima do pleigraunde (sic) com piscina-banheira, tudo se pode esperar.

No console junto à entrada, um lindo arranjo de flores artificiais sublinha a beleza do espelho purpurinado. A peça principal do salãozinho é uma autêntica tapeçaria gobelin paraguaia. “Embarque para Citera” de Watteau numa interpretação industrializada e reduzida. Um mimo. Como não tem assento na sala a não ser umas frágeis cadeiras de palhinha, somos acuados no escritório do nobre anfitrião. Um sofá para três pessoas muito magras nos acolhe. Vagamente desconfiados – ainda bem -  com a exigência de fantasia, vestimos camisas fartamente coloridas por cima de bermudas brancas e um idiota colar de flores de plástico. 

Perto da meia-noite. Chegam os primeiros convidados. Gritinhos de rigor e beijos mil.

Afinal, é festa ou não é?

A folia começa com fita gravada de marchinhas com todos os decibéis indispensáveis a alegria do bairro inteiro. Conversar? Nem pensar, mesmo aos gritos. De comidinha, nada, nem para tirar o sabor do uísque, aquela coisa abominável com gosto a sabão.

Passamos para a segunda fase. Na mão uma lata de cerveja, dança-se com sorriso dentudo cidademaravilhosa (sic). Estamos literalmente ao pé da parede, frente a uma estante com pelo menos dez livros de capa idêntica e bem arrumadinhos, uns diplomas de concurso bovino e fotos de casamentos. E mais flores artificiais.

Há lá evidente choque cultural e, nesta batalha desigual, perdemos feio.

De repente entra uma aloirada odalisca, perdão uma faraoa, braços hieroglíficos (sic) e umbigo a mostra. O umbigo será para nos o momento mor da festa. A balzaquiana já deve ter tido um corpinho ipanema, mas hoje as carnes pedem sombra e descanso. A dança do ventre coloca ao nível de nosso nariz um umbigo desafiando qualquer desvio.

Umbigo metaformósico (sic), virando olho, virando boca, virando galáxia. Parece perguntar: “Resistireis por quantos séculos?”. Resistimos, suando, até exaustão da suada Cleópatra. 

Pontualmente ás duas horas da manhã, o fim da angústia chega com o jantar, obsessivo objeto de nosso desejo. Nada comemos antes de vir. Nunca nenhuma refeição nos pareceu tão sublime. Nem Lucas-Carton, nem Fasano, nem Four Seasons. Aqui e agora matamos dois coelhos de uma vez ao trazer enfim merecida paz a nossos estômagos revoltados e pudermos adquirir a chave da liberdade. Ás 2:25 da manhã estamos a descer correndo a escada granitizada (sic) do espigão, jurando que nunca mais.

Sou preconceituoso, sim senhor. Festas “metidas” você me pegará, jamais. Prefiro mil vezes aniversário de costureira ou feijoada de taxista.

E não é demagogia, não senhor. É amor a honestidade.

 

              Dimitri Ganzelevitch   

Salvador, 17 de dezembro de 2007.

 

 

OSTENTAÇÃO OU NARCISISMO?


 

SOBRE NELSON FREIRE

 


Em março de 2009, cheguei à casa de Nelson Freire no Joá com o objetivo de entrevistá-lo para a coluna Dois Cafés e a Conta. Ele estava ensaiando e não quis interrompê-lo. Sentei-me perto do estúdio e aguardei que terminasse. Nunca uma espera foi tão boa. Enquanto contemplava o mar, fui brindado com uma audição exclusiva do Concerto em Lá Menor de Grieg executado pelo único brasileiro na lista dos cem melhores pianistas de todos os tempos.

O dia já estava ganho, ainda que a coluna não rendesse tanto. Afinal, Nelson Freire era um dos sujeitos mais retraídos que havia. Tanto que o cineasta João Moreira Salles, que fez um documentário primoroso sobre o músico, só se arriscou a entrevistá-lo no último dia de filmagens, após dois anos de trabalho.
Ou seja, minhas chances de conseguir extrair algo original do artista eram pequenas. Mas dei sorte. Ele, conhecido por ser gentil e afável, estava também falante. Tanto que eu é que tive que interromper a conversa, para voltar à redação do Globo.
Ele contou muitas histórias. Falou da infância, da amizade com a pianista argentina Martha Argerich, do CD novo que havia lançado há pouco, "Debussy", da cultura fast-food que o obrigava a viajar muito apesar de odiar ter que pegar avião - chegara a dar três concertos numa semana, com três programas diferentes, em três continentes distintos, América, Europa e Ásia. E, quando a coluna foi publicada, ele já tinha embarcado para uma turnê de 26 concertos em dois meses. Ainda que morasse em Paris, me disse que o Rio era sua casa.
- Mas não gosto nada da realidade do Rio e do Brasil. Gosto do cheiro do Rio, do céu, do sol, do mar, das comidinhas, das lembranças.
O músico dizia que lia jornal, mas sofria.
- Fico muito deprimido. Gosto de ler o Horóscopo e as crônicas de seu pai e do Verissimo.
A propósito disso, Freire me contou uma história divertida:
- Eu tinha lido uma crônica do seu pai sobre nomes estranhos. Eu sou muito tímido, e o Verissimo também. Estávamos os dois, eu e Verissimo, na Embaixada do Brasil na França. Sentamos na mesma mesa. Eu queria fazer um progresso no sentido de ser mais social, de sair dessa minha timidez. Resolvi então bater um papinho com ele, um cara que admiro. Falei: "Adoro aquela crônica sua dos nomes estranhos." Ele sorriu sem graça, e disse: "Ah, é?". Percebi que tinha me enganado de pessoa, que estava elogiando o Verissimo por uma crônica que tinha sido escrita pelo Zuenir! Fui diminuindo, diminuindo, e pensei: "Vamos ficar por aqui mesmo..."
E foi assim que naufragou uma das raras tentativas de Nelson de se tornar mais sociável.
O curioso é que Verissimo também se confundiu. Passou o jantar inteiro achando que estava conversando com o também pianista Miguel Proença. Verissimo chegou a narrar a história na crônica "Patetice": "Nelson não acusou a gafe e respondeu educadamente a todas as minhas perguntas sobre o domicílio, a agenda de concertos e a vida pessoal do Proença, sem dúvida recorrendo à ficção”.
Nelson recusava o estrelato. Quando comentei sobre sua inclusão entre os maiores pianistas de todos os tempos, me corrigiu:
- Para começar, não acho isso, não, pelo contrário. E Deus me livre a vaidade! A música é muito sagrada para se ter esse tipo de atitude. Isso faz mal para a música.
Foi uma tarde inesquecível ao lado de um dos mais geniais artistas que o Brasil já teve.
Dois anos depois, voltamos a nos encontrar, dessa vez no café da Livraria da Travessa de Ipanema, onde ele acabara de lançar seu novo disco, "Liszt: Harmonies du soir". Eu estava de folga, mas não ia perder a chance de fazer uma reportagem exclusiva, que saiu publicada no Segundo Caderno. Nelson estava contente de retornar ao Rio:
- Preciso de um pouco desse arzinho daqui para recarregar as baterias.
Nelson estava feliz. O governo francês o agraciara com a Legion D'Honneur, a UFRJ concedera-lhe o título de Doutor Honoris Causa e o disco de Liszt vinha recebendo elogios unânimes. Mas afirmava não ler as críticas:
- Se são ruins, fico deprimido. Se são boas, corro o risco de ficar vaidoso.
Não havia esse risco, ele sabia. Conversamos sobre muitos assuntos, como a crise na OSB (Orquestra Sinfônica Brasileira), o fato de não ouvir seus próprios discos ("Se ouço, fico querendo mudar"), a escolha do repertório do atual CD, quais eram os próximos trabalhos e a difícil infância em Boa Esperança, Minas.
- Eu tinha asmas e alergias, não podia brincar, subir em árvores. Não podia comer nada, às vezes só podia ficar com a boca, os olhos e o nariz de fora, o resto tudo cheio de curativos. E o colégio era horrível. Não existia essa palavra, mas certamente sofri bullying - lembrou.
Para sorte de Nelson e de todos nós, ele encontrou no piano seu refúgio.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

FATMA SAID, SOPRANO



 Vencedora de várias competições de canto de alto nível, Fatma Said inicialmente estudou canto no Cairo, terra natal da artista, e depois treinou na Escola de Música Hanns Eisler, de Berlim, antes de ganhar uma bolsa de estudos na Accademia del Teatro Alla Scala


No lendário teatro milanês, passou a apresentar Pamina, na nova produção de A Flauta Mágica, de Mozart


Agora, a artista é a nova contratada da Warner Classics e já está com álbum previsto, El Nour, para outubro.

JERUSALEM ORQUESTRA EAST WEST


 The Jerusalem East and West Orchestra is a multicultural orchestra, consisting of musicians from all three religions, from all over the country and from all sectors that make up the Israeli society. The orchestra is a unique body in the global music scene, combining musical artistic quality and entertainment as an agenda.


The orchestral arrangements, written by its musical director, are based on the musical language developed in it over the years that combines and "melts" musical methods from East and West into a uniform, coherent and organic language. This language for example brings together makams and rhythms from the Arab and Islamic countries with the aesthetics and harmony of the western music.



The orchestra's artistic director and lead conductor is maestro Tom Cohen (38) a graduate of the Jerusalem Academy of Music.

Cohen established the orchestra in 2009 – along with the orchestra's former CEO, Mr. Ofer Amsalem – as well as writing all of its musical arrangements.

Cohen is considered to have a unique ability to transfer the music of Arab and North African countries to musicians from a Western classical background – and vice versa. This ability led him to conduct over different and varied ensembles – from the Israeli Philharmonic Orchestra to the Algerian Shaabi Orchestra "El Gusto" – and establish more orchestras in the format of his Jerusalem Orchestra around the World, including:

  • L'Orchester Symphonique Andalou De Montreal (Canada)
  • The Med Orchestra (Belgium)
  • Symphonyate (Morocco)

UMA OUTRA FACE DO BRASIL

 


"Os documentários que eu vinha fazendo até então tratavam de desordem, de violência e de desagregação. 

Tive vontade de filmar o contrário daquilo e Nelson foi o caminho. 

Ele encarnava valores de um humanismo essencial a todo projeto de civilização decente — a transmissão da beleza, o imperativo moral do trabalho bem feito, a recusa de toda vulgaridade e espalhafato. 

Um presidente que tira a máscara de um bebê e força uma criança a fazer uma arma com as mãos é uma imagem verdadeira e poderosa do país. 

Mas não é a única. 

Nelson Freire, o pianista, não o filme, representava e representa — nos discos, nos registros dos concertos, na vida discreta que levou — uma outra face do Brasil, o lado capaz de nos salvar. 

Seu talento não está ao alcance de maioria de nós, mas a decência, sim.”

JOÃO MOREIRA SALLES


Alma brasileira